João e Maria

A sétima taça de vinho acaba, a segunda garrafa chegou ao último quarto. São as vantagens de beber sozinho, você bebe o quanto quer, até quando quer. Eu gosto de beber, mas gosto mais de beber sozinho porque assim não há nenhum bobo para interromper e dizer olha, você bebe muito.

Nessas horas a gente sorri e finge que não ouviu, mas agora isso não é necessário, e o computador toca “João e Maria”, com Chico Buarque e Nara Leão.

É quando vêm as lembranças, e são tantas, tantas, vêm uma atrás da outra, atropelando-se como bêbados trôpegos, cada uma delas dizendo é a minha vez, é a minha vez, lembra de mim, lembra de mim.

1978, ônibus do ISBA, o Instituto Social da Bahia. Dizem que era um bom colégio na época, pelo menos minha mãe diz. A diretora era Raulita Espínola e o filho dela era um filho da puta que, nas aulas de judô, se recusava a ser derrubado por mim — gente assim não presta, acredite. Não o conhecia, claro, e nunca me fez nada — mas jamais vou perdoá-lo por não se deixar derrubar por mim.

Fofoletes tiradas das caixas, camisas com escudos que pareciam o da polícia do Rio, as meninas conversavam excitadas entre si, um dia ainda vou descobrir o que as excitava tanto, o que as fazia conversar baixinho e dar risadinhas. Um dos meninos, o mais exibido, surfava no ônibus, equilibrava-se nas curvas, sorria impávido diante das tribulações automobilísticas; era o descolado daquele grupo heterogêneo, e era simpático como eu nunca fui — e na época eu não tinha ainda os traços de impaciência e de arrogância que depois deixariam claro a quem interessar pudesse que eu não ligava de verdade para eles; na época eu acharia legal ser como aquele garoto metido a engraçadinho que surfava no ônibus, só não achava que o esforço valesse a pena.

E elas, as moças com fofoletes fora das caixas, começavam a cantar “João e Maria”. Na minha casa ninguém ligava para rádio, e foi ali, no ônibus do ISBA, que ouvi essa música pela primeira vez; ou talvez não, talvez tenha sido apenas ali, na voz daquelas meninas do ISBA, que prestei atenção à canção que talvez tivesse ouvido antes, nos Trapalhões; são duas lembranças tão próximas entre si e tão distantes de mim agora, e elas acabam se tornando uma só, porque me dizem que foi então, naquele tempo. Foi então.

Ouvir a canção agora me lembra de ter vontade de chorar. Mais de 30 anos passados, tanta água debaixo da ponte e tantas histórias para contar, e mesmo assim ela ainda é diferente de todas as canções. Nenhuma música jamais me fez ter vontade de chorar — só “João e Maria” quando eu tinha sete anos, e mesmo hoje não sei por quê.

Porque ela ainda não tinha sumido no mundo sem me avisar. Ela ainda não havia me ensinado o que era um bedel, eu ainda não a havia coroado e ela ainda não andava nua pelo meu país — não, talvez andasse nua que de moças nuas eu gostei sempre; mas nesses dias ela talvez apenas andasse pela minha cabeça, talvez ela apenas atravessasse rápido a minha imaginação, um vulto, apenas, uma mancha deliciosamente negra criando um pequeno ponto de atenção. Para lá deste quintal ainda não era uma noite que não tem mais fim, porque isso ainda não era concebível para mim: as noites, eu sabia, jamais duravam para sempre, e terminavam no nascer do sol glorioso que se via do lado esquerdo do Farol da Barra.

Ela ainda não tinha me feito escrever sem sequer lembrar quem foi ela.

Se algum dia tive alguma dúvida sobre o talento de Chico Buarque, ela foi embora no dia em que depois de muito tempo sem ouvir essa música — ainda não havia internet, as coisas ainda eram raras e preciosas — tive vontade de chorar. Ela me lembrou a criança de dez, quinze anos passados; isso não tem preço.

Chico Buarque diz que não faz ideia do que quis dizer quando escreveu que “o meu cavalo só falava inglês”; e era tão lógico e simples para mim, é claro que o meu cavalo só podia falar inglês. Esse era o meu mundo, o mundo da televisão e dos seriados, e nesse mundo as pessoas falavam inglês e eram dubladas — mas olha, a gente sabia que elas falavam inglês, e que eles eram dublados na TV e que era por isso que em tantos filmes as palavras pareciam não combinar com as bocas que se moviam quando não falavam, e assim também falava o meu cavalo, era só assim que ele podia falar.

“João e Maria” me faz melancólico. Mas acima de tudo me faz lembrar de uma Salvador que existiu em um tempo em que já não era e ainda não era tão chique chamá-la de cidade da Bahia, uma época em que a vida era simples e tranquila — a época simples e tranquila que todos têm na infância, em qualquer tempo, em qualquer ano, em qualquer vida.

Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo — e não, você não sabe mais o que é não ter medo. Mas, ainda pior, talvez você nunca tenha sabido. Talvez seja isso que poderia me fazer chorar ao escutar essa música: a esperança sempre irrealizada de que nunca houve um tempo em que não tivemos medo; ou pior, o de que houve um tempo em que não sabíamos que medo era aquele que sentíamos, o medo do ET no vão da escada, o medo da noite caindo na Avenida Sete, o medo do carro morrer na subida da Manoel Dias.

No tempo da maldade eu já tinha nascido.

6 thoughts on “João e Maria

  1. O Chico Buarque está ficando tão tonto! Ah, eu não tenho a menor ideia porque escrevi “o meu cavalo só falava inglês”. É óbivio que era uma cavalo de cowboy americano; todo mundo entendeu e ele goata de dar uma de besta pra dizer “não tô nem aí, eu sou o bonzão!”. Ficou veio, está cada dia pior. A Marieta que fez bem e pulou desse barco.

  2. Rafael:

    Hoje o Tutty Vasquez escreveu “Feliz a geração cuja os heróis morreram de overdose!”, a propósito dos “artistas” débeis mentais que querem só biografias autorizadas (ou seja, auto-elogios) entre eles o tal do Buarque. O Chico, um compositor que foi no passado comparado ao Noel Rosa, perdeu a chance de morrer na hora certa, virou isso aí.

  3. Belo texto.
    Procuro evitar ouvir música velha, que tenha marcado, para evitar a melancolia. Seria mais fácil se não tivesse tanta merda tocando hoje.

    🙂

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