The show must go on

Aracaju não tem nada.

Mas já teve. Pouca gente sabe disso, mas até o final do ano passado o cinema mais antigo de todo o mundo em operação ficava em Aracaju. O Rio Branco era de 1904, se não me engano. Começou como teatro e acabou sendo convertido em cinema. Durante sua história foi o palco das principais “efemérides” culturais da capital de Sergipe. Pelo seu palco passou Procópio Ferreira, gente de ópera; imagine uma cidade pequena quando vê alguém vindo da metrópole e talvez se tenha uma idéia do que o Rio Branco significava.

E de repente, do dia para a noite, demoliram o Cine-Teatro Rio Branco.

É verdade que nas últimas décadas a vida tinha sido difícil para o Rio Branco. A partir de meados dos anos 80 ele tinha se transformado em cinema pornô; mas mesmo então ele teve alguns momentos de glória: em 88, acho, foi o cinema com maior público de todo o país.

Mesmo em sua decadência, o Rio Branco era a única coisa que a cidade tinha de decente; de resto Aracaju é um cu-de-mundo estagnado e atrasado. Mas, mesmo assim, a cidade, que dá aos seus símbolos culturais o valor de esterco, deixou que o Rio Branco fosse demolido. Era seu único bem cultural de valor, e foi abaixo sem que a maior parte do seu povo, mais acostumado a pré-carnavais, notasse. Alguns intelectuais, depois do fato, resolveram protestar — mas esses mesmos intelectuais não falaram nada quando os outros cinemas do centro da cidade foram sendo desativados, um a um. Tão burros que não perceberam que, se deixassem um cinema ir embora, os outros iriam também.

As coisas são curiosas. Aracaju, praticamente sem saber, tinha algo de classe mundial, e deixou que fosse ao chão. Enquanto isso, prefere gastar tempo e dinheiro promovendo anacronismos folclóricos mortalmente entediantes como reisados e maracatus e concursos de quadrilhas caricaturizadas e deturpadas.

É uma vergonha. Mas se você conhecesse Aracaju você entenderia.

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