De Rubempré

Eu fiquei curioso quando vi o nome de Luciano Chardon nos comentários.

Luciano Chardon é o maior personagem de Balzac, anti-herói de “Ilusões Perdidas”. Não é o meu preferido, “honra” que dou a Rastignac; nem mesmo o de Balzac que, dizem, morreu chamando pelo seu doutor Bianchon. Esses são como bons amigos, a quem amamos a despeito deles mesmos; mas sabemos que, por melhores que sejam, não chegam perto da grandeza do rapaz de Angoulême.

Assim como o Julien Sorel de Stendhal, Luciano é um rapaz talentoso e ambicioso, que sai da província para ganhar Paris. Abandona o nome burguês do pai, Chardon, e adota o nome da família da mãe, De Rubempré, com a partícula que indica nobreza. Mas é um caráter fraco; e seu fim, em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, não é dos melhores. Nem dos mais dignos.

Luciano é o melhor personagem de Balzac porque tem muito dele. Sua fraqueza, sua vaidade, sua ambição. Mais que qualquer outro personagem, Luciano é o alter ego de Balzac. Como Rastignac, é um jovem que quer conquistar a glória em Paris; mas enquanto Rastignac resiste a Vautrin e termina “O Pai Goriot” com um desafio à cidade e a sua sociedade (“A nous deux, maintenant“), Luciano tenta sempre o caminho mais fácil; para conquistar a glória ele não hesita sequer em se tornar amante de Vautrin. É fraco de caráter, apesar de sua boa natureza, e é isso que o destrói.

Mas é também o mais humano, o mais completo personagem daquele que eu acho o mais humano e o mais completo escritor da história da literatura. A grandiosidade de Luciano é praticamente inexplicável, e nenhum autor jamais chegou perto de tamanha complexidade humana– nem mesmo Dostoiévski, nem mesmo o Hamlet de Shakespeare.

Não foi isso que me deixou curioso, no entanto.

Acho que por respeito à grandeza do personagem e por, infelizmente, ver tantos pontos de semelhança entre ele eu, sempre fiz questão de me referir ao sujeito pelo sobrenome que ele escolheu: para mim, ele é Luciano de Rubempré. Um outro motivo é o de achar que enquanto se chama Luciano Chardon ele é pouco mais que uma cópia do Julien Sorel de “O Vermelho e o Negro”, e só se transforma em um personagem, na minha opinião, muito maior que seu modelo quando passa a almejar conscientemente essa nobreza que nunca vai conseguir ter.

É essa a pergunta, Luciano: por que Chardon?

4 thoughts on “De Rubempré

  1. Eu freqüentava um newsgroup de cinema e conheci um rapaz apelidado Raskholnikov, que seria exatamente o meu nick se ele já não tivesse adotado primeiro. Resolvi homenagear outro dos meus heróis literários, até porque não li ainda o volume da Comédia Humana onde Rastignac é protagonista (é “O Pai Goriot”, né?), embora ele tenha aparecido em alguns outros livros que li dessa mesma obra.

    Comecei a usar o nick como Luciano de Rubempré, pelo fato de, no meu nome verdadeiro (o qual infelizmente fico lhe devendo), o sobrenome da minha mãe também ser mais “nobre” que o do meu pai (já falecido há muitos anos), e até hoje eu usar o meu penúltimo nome como apresentação.

    Troquei para Lucien Chardon porque é mais curto e mais sonoramente francês. Voltei a aportuguesar o prenome porque ficavam achando que eu era mulher.

    Sua análise do caráter do Lucien de Balzac é magnífica, e obviamente eu vou linká-la no meu blog. Queria acrescentar apenas que, segundo li, nas “Ilusões Perdidas” o cunhado de Lucien também tem algo de Balzac, até pela profissão de tipógrafo.

    Quando li as “Ilusões” fiquei decepcionado com o livro acabar exatamente no meio da história. Fui atrás daquela maravilhosa edição da Editora Globo, até que consegui achar “Os Esplendores e Misérias das Cortesãs”.

    Impressionante uma coincidência. Você disse que acha Balzac “o mais humano e o mais completo escritor da história da literatura”. Ontem mesmo, a respeito de uma discussão nos comentários do Liberal Liberatário Libertino, eu escrevi que Balzac é “é o mais completo romancista da história”. Sincronicidade incrível.

    Obrigado pelo link e pelo post.

  2. Acabei não respondendo direito sua pergunta. E só tenho respostas banais para ela. Ou não.

    Talvez eu estivesse abdicando a certas aspirações de nobreza, que me pareciam supérfluas à época, e que só me desviavam do importante, que poderia ser uma vida apenas “tranqüila”, e não grandiosa.

    Lucien buscou coisas que talvez não pudesse nunca conseguir. É alguém por quem se sofre, e também não se deseja o seu destino.

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