Ronald Reagan

Os anos oitenta foram os anos do início da última onda de globalização e da fragmentação do mundo. E se é para definir um rosto para aqueles anos, é o de Ronald Reagan.

Em 1980, a eleição de Reagan, um ex-ator de segunda, ex-presidente do Sindicato dos Atores e ex-governador da Califórnia, acabava com quatro anos de governo democrata nos Estados Um e com todo um discurso de respeito universal aos direitos humanos, dito sempre com um prazer meio inútil por Jimmy Carter.

Os setores mais progressistas da sociedade — que na época ainda eram identificados com a esquerda — ficaram de cabelos meio em pé: Ronald Reagan tinha uma longa história de atitudes, no mínimo, anti-éticas, mesmo que se leve em conta que elas eram causadas por suas convicções políticas, que sempre foram firmes. Durante a caça às bruxas do senador McCarthy, no começo dos anos 50, Reagan dedurou muitos supostos comunistas, como presidente do Sindicato dos Atores. Foi o primeiro passo de sua carreira política. Era esse homem que os americanos acabavam de eleger como presidente.

Mas ninguém jamais poderia imaginar o que lhes esperava. Desde Kennedy, nenhum presidente americano tinha conseguido se impor como ícone americano, com exceção de Richard Nixon, pelos motivos errados.

Pois Reagan conseguiu isso, e muito mais. Na verdade, o ex-ator medíocre (cujo melhor desempenho foi no bom King’s Row) definiu toda uma década, talvez até o futuro de todo o mundo.

O governo Reagan foi um dos mais laboriosos da história americana: reformou a base da economia, assim como o sistema social do país. Essas reformas significaram o sucateamento do sistema educacional e de saúde do país, além de incentivar uma política econômica ultra-capitalista que levaria o nome de reaganomics, a economia de Reagan. Basicamente, poder-se-ia traduzir o reaganomics por “desmantelamento do aparelho estatal”.

O fato é que Reagan conseguiu afirmar-se como um dos presidentes mais importantes dos Estados na segunda metade do século XX, ao lado de John Kennedy. Com a diferença que ele será lembrado pelo que efetivamente fez, e não pelo que poderia ter feito.

Culturalmente, os anos 80 foram a década em que os valores hippies foram definitivamente sepultados; o revival dos anos 50 que tomou conta do mundo a partir da segunda metade da década pode muito bem ser interpretado como uma consequência direta do ideário de Reagan: a saudade à Portugal do país aparentemente calmo, aparentemente tranqüilo e soberano absoluto que se conheceu no pós-guerra. Os Estados Unidos estavam perdendo sua hegemonia mundial rapidamente, mas a vontade americana de continuar com o mundo nas mãos continuava. Reagan alimentava o sonho.

E isso se traduzia em um movimento conservador na cultura. Iniciativas em favor dos valores tradicionais da América, as lutas de grupos organizados contra a pornografia e a indecência refletiam as idéias do seu grande líder.

Ao morrer, doente, gagá e afastado da política, talvez não seja exagero dizer que Reagan leva consigo o sonho da América. O sonho dos imigrantes, a América que os europeus personificavam na vista da Estátua da Liberdade ao chegarem, dá lugar aos simples Estados Unidos, um país rico, poderoso, mas sem aquele aplomb de seus melhores tempos e em franca decadência.

É uma coincidência curiosa que Reagan morra exatamente no momento em que a sua política, agora estandarte do filho de seu vice-presidente, alcança seus extremos mais nefastos.

Reagan está morto, e a América também.

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