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O Alex acabou de me mandar um e-mail direto de Havana.

Minha esperança era a de que ele voltasse de lá um pouco mais afinado com o mundo. Um sujeito que deixasse de lado essa palhaçada de mercado livre e entendesse o papel do Estado na sociedade. Pensei que uma estadia em Cuba daria continuidade ao excelente trabalho que o Idelber está fazendo com ele. Isso era necessário. Embora eu tenha cá minhas reservas acerca do regime cubano, Fidel é definitivamente uma das grandes lideranças mundiais do século XX, e Cuba era, e ainda é, absolutamente importante para a América Latina.

Mas, até agora, não foi isso que aconteceu.

O Alex não fala, mas deve conhecer a trajetória do Reynaldo Arenas. Virou filme, até. “Antes que Anoiteça”, coisa assim. Pelo e-mail que me manda, vejo algumas semelhanças entre os dois. Ambos eram, digamos, heterodoxos em relação ao padrão sexual do regime. O Arenas era gay. O Alex chupa pé.

Deve ter sido por isso que a primeira noite do Alex em Cuba foi esquisita, pelo que ele diz. Já no aeroporto, os fiscais da alfândega olharam para o seu passaporte e abriram os olhos espantados. Um deles gritou para o outro: “Mira! Un hijo de puta de un exilado volve a Cuba!” Aí outro fiscal puxou o sujeito pelo braço e murmurou: “¿Estás loco? Eso es el hijo de Raúl Castro!” Um terceiro fiscal desdenhou: “Hijo de Raúl, um carajo! Eso es nombre de decorador de fiesta de subúrbio!” É, não é, o pau comeu no aeroporto.

Na confusão, o Alex saiu de fininho e pegou um táxi. Era um Chevy 1954, que já tinha servido de lancha para um grupo de dissidentes. O Alex pediu ao motorista que o levasse ao hotel Tomono, que fica em Varadero e tem esse nome em homenagem ao nissei que pilotava o Granma.

No lobby do hotel, uma mulher vestida como pobre americana se aproximou. Uma morena de fechar qualquer quarteirão, mesmo aqueles enormes de conjunto residencial que leva número no final, tipo Cabula VI ou Mangabeiras IV.

“Quieres divertirte, guapetón?”

Normalmente o Alex não cederia aos apelos de uma semi-profissional do sexo. O Alex é um homem sério, dentro de uma determinada noção de seriedade, e suas taras doentias são fruto do amor. O problema é que a moça tinha uns pés de deixar qualquer tarado podólatra maluco. Havia uma gosminha preta na sola, molhada, fedida, que falou aos mais baixos instintos do Alex.

A jinetera sentiu o babado e perguntou para ele: “¿Te gustan los pies?” O Alex não conseguiu responder. Babava. As pessoas não se lembram, mas ano passado a Carol postou um vídeo do Alex chupando os pés dela. O sujeito chupava cada dedinho com um prazer tão grande, e com tão notável talento, que até parecia um boquete. Daqueles muito bem pagos. Se o Alex fosse mulher eu namorava ele, no duro, mesmo que a cara não seja lá grandes coisas.

O Alex seguiu a jinetera até o apartamento dela, em um prédio acabado cheio de meninos catarrentos cantando salsa na escada. Ela começou a tirar a roupa mas o Alex, imperativo, a impediu, com aquele olhar sensual típico de um podólatra. “No es preciso, tesón.” Pediu que ela sentasse na cama coberta por uma colcha bordada com a cara do Che. E caiu de boca no pé dela.

Eu não quero imaginar a cena. Já vi isso ao vivo uma vez na Cinelândia, e depois em vídeo. Ainda não me recuperei dos traumas, e por isso chuto cachorrinhos indefesos na rua quando volto a pé para casa tarde da noite. Por quê, meu Deus, por quê?, é o que me pergunto. Nunca recebo resposta. É por isso que eu bebo.

Quando a boca do Alex já estava dormente, ele disse que ia ali na esquina comprar um cigarro. E não voltou. Saiu rindo, achando que tinha dado um calote na moça. O Alex saiu do Brasil, mas o Brasil não saiu do Alex.

Satisfeito, assoviando uma velha melodia de Celia Cruz, se encaminhava para o hotel Tomono quando foi parado por dois homens. Eles o mandaram entrar num velho Oldsmobile 1957. O Alex, acostumado a baculejos na Taquara, perguntou quem eles eram, que ele não ia entrar num carro assim, de qualquer jeito. Os sujeitos responderam que eram agentes policiais de Fidel. “Ué? E cadê la puerra de la barba?”, perguntou o Alex. Eles olharam para um lado, olharam para o outro e baixaram as calças. É, eles tinham barba. “Nosotros somos de la polícia secreta, división de los comedores de jineteras.” Deram um cacete nos cornos do Alex e o jogaram no carro.

Pela primeira vez em Cuba, o Alex sentiu medo. Os agentes seguiram para Sierra Maestra.

O Alex é um sujeito urbano, sofisticado (não é o cúmulo da sofisticação preferir pés a outras coisas mais óbvias em uma mulher? Eu, que sou só um paraíba e não sou capaz dessas sofisticações, olho admirado para o sujeito enquanto sonho em afundar minha cabeça em um belo par de peitões). Mato não é bem com ele. Ainda mais num breu miserável como o que fazia em Sierra Maestra naquela noite quente de maio.

Colocaram o Alex sob uma panela de luz, no meio de uma clareira. Um general barbudão se adiantou, deu um tapa no Alex e gritou:

“¿Acaso no sabes que tienes que comer nuestras putas, maricón? ¡Se les chupas o tan solo lambes a sus pies, tiras a la desgracia sus reputaciones, y nadie más va a querir comerlas, las desdichadas! ¿Quieres acabar com nuestra economia, hijo de puta?”

O Alex não falava nada. Um cheiro esquisito passou a exalar de suas calças.

“Por esta vez passa, chulezero de mierda. Pero volverás a la calle, pegarás la jinetera que no comeste e vaya a dar-le una surra de polla, que nuestra economia depende da atuación de nuestras putas. Y pague a la mujer, gilipollas sin verguenza!”

Vendaram novamente o Alex e o largaram em Varadero. Ele se arrastou até o hotel. Entrou e se dirigiu ao cybercafé. Ia entrando afobado quando foi parado por um negão que parecia ser o segurança do lugar. O sujeito já estava para lá de bagdá, tinha enchido a lata de rum, percebia-se pelo bafo.

“¿Que quieres, gordito?”

“Yo quiero usar la Internet.”

“Para usar la Internet tienes que dar el .cu.”

“Como es la conviersa?”

“El .cu, brasileño tonto.”

“Yo solo dou el cu por amor. Y yo no te amo, viadón!”

O negão partiu para a ignorância. Ia encher o Alex de porrada. Mas aí foi impedido pela jinetera que o Alex não tinha comido; ela vinha atrás dele para receber o dinheiro que o safado não tinha pago. (Lição a ser aprendida aqui: nunca confie em alguém que lambe pés.) A mulher era jogo duro. Deu um balão no negão e chutou seu saco. Ele se dobrou de dor e ela chutou sua cara. O negão desmaiou na hora. Quando se virou para o Alex, ele já estava com o dinheiro na mão.

Ela pegou os dólares e resolveu quebrar o galho do Alex, explicando que as coisas são um pouco diferentes por lá.

“Brasileño de mierda, en Cuba nosotros tenemos que tener un domínio .cu para usar la Internet. Exigência de Fidel. .Cu es para nosotros el mismo que el .br de ustedes, cabrón.”

E explicou o que ele tinha que fazer. Deveria ir até o Secretariado Revolucionário Especial de Assuntos de Internet, deixar nome e endereço, e pagar um bocado de dólares por um endereço provisório de e-mail. O do Alex ficou assim: alexcastro@tomono.cu.

O e-mail do Alex parou por aí. Estou aguardando o próximo. E o filho da puta ainda não mandou meu Cohiba.

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Republicado em 24 de agosto de 2010

17 thoughts on “Notícias do .cu

  1. Portuñol de primeira! 🙂 Puxa vida, é muita aventura só pra primeira noite dele em Havana… 🙂 Imagina o resto da temporada… Haja mails… 😉

  2. Este é um dos casos em que o que poderia ter acontecido é muito melhor do que aconteceu. Por isso existe Literatura. E por isso eu gosto tanto dela.

    PS: Cara, vc escreve bem demais, passei o final de semana lendo sua sessão de alegrias que o Gogle te dá.

  3. Caray! Qué guay! Me reí a los montones, y desde siempre, contigo. Eres un chico malísimo!! A lo mejor que podrías presentarme el “AlexChupaPies” eh? Me encantaría saber como es eso que el gilipollas hace. Mil besotes, guapo!

  4. Puta que los para, mas nunca ri tanto na vida… Fico imaginando um encontro entre o Alex e o Pedro Juan Gutiérrez. No mínimo, sairia uma nova trilogia suja de Havana.

  5. Coisas da vida mesmo sem e.mail,
    acho que a realidade esta ai,todos querem tomar no cu.
    Em vez de BR.

  6. Excelente. Dá para entender porque pessoas como o Idelber o consideram um dos melhores textos da blogesfera.

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