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Graças a Deus o Alex conseguiu mandar um novo e-mail. Desta vez subornou o guarda de maneira simples: ele dá o seu .cu para o guarda (que com o .cu do Alex pode acessar sites de putaria e agências de jineteras; como turista, o Alex tem um .cu privilegiado), e em troca ganha 15 minutos de acesso.

Ao contrário do que muita gente achou — e, confesso, eu também —, o Alex não foi currado pelo grupo de presos que o cercou. Imaginariam os mais incautos que um deus ex-machina o salvou: um raio, um terremoto, o fantasma do renegado Kautsky; todos esses errariam, porque cometeriam um pecado que não se deve cometer: subestimar a capacidade de sobrevivência de Alex Castro.

Quando se viu cercado pelo grupo de cubanos sodomitas o Alex, macaco velho nessas coisas de putaria, resolveu tomar a iniciativa. Se jogou no chão e começou a chupar seus pés.

É preciso conhecer a tradição católica da ilha para entender a força psicológica da ação do Alex. Podofilia não atende aos critérios reprodutivos da Santa Madre. Mas tampouco se deve esquecer a tradição afro-cubana: há naquelas plagas um tal Exu Chupa-Pé, mil vezes pior que o nosso Exu Tranca-Rua, que traz azar eterno a todos aqueles cujos pés lambe. Ao ver aquele insano babando seus pés de maneira furiosa (e competente, nunca é demais lembrar), os presos medraram. Saíram correndo e, ao que parece, entraram na Igreja Universal do Reino de Deus logo em seguida.

“Esses cubanos não sabem brincar”, pensou o Alex, enquanto limpava a boca.

Ele foi colocado numa cela com um Ladrão Boliviano. Não fala muito sobre o seu companheiro de infortúnio, mas diz que em poucos dias ele se tornou seu amigo íntimo. O Ladrão Boliviano tinha fugido de Santa Cruz de La Sierra depois de passar o “Boa Noite, Cinderela” no ministro dos hidrocarbonetos. Evo Morales não gostou e, depois de uma conversa com Fidel, mandou o Ladrão Boliviano para Guantánamo.

O primeiro contato dos dois, no entanto, não foi dos mais amistosos. O Ladrão Boliviano olhava fixamente o Alex, que se incomodou: “Estoy cagado? Estoy mijado? Por que me ojas así, viadón?” Mas o Ladrão Boliviano era boa gente, uma espécie de Jean Genet do Cone Sul, e as afinidades logo surgiram entre os dois.

Mas a amizade com o bom Ladrão Boliviano não impediu que o Alex se sentisse desamparado, triste e assustado. Ele estava num país estranho, preso, sentindo a falta do Oliver. Daí para começar a ver coisas foi um pulo. O fantasma de Cabrera Infante, por exemplo, era uma aparição constante para o Alex, que insone ouvia o Ladrão Boliviano ressonar ao seu lado. O Cabrera vinha sempre da mesma forma: sentava no catre do Alex, olhava fixo para ele e repetia: “Tres tristes tigres tragaban trigo en un trigal. Tras tus tres tristes tigres que triste estás Trinidad. El amor es una locura que solo el cura lo cura, pero el cura que lo cura comete una gran locura.”. E nada mais era dito pelo triste Infante.

Prestes a enlouquecer, o Alex começou a bater a cabeça nas grades, e foi parar na enfermaria. Foi a única parte da prisão construída pela CIA, o que quer dizer que era tão mal feita que sequer tinha grades. E à noite, invariavelmente, os guardas e as enfermeiras participavam de orgias homéricas regadas a santería, com bodes sacrificados e tudo. Foi quando o Alex percebeu que poderia fugir dali. Mas não fugiria sozinho: seria incapaz de deixar o Ladrão Boliviano para trás. Na memória trazia ainda a maneira como tinha abandonado o Oliver em New Orleans; sua sorte é que o cachorro cor de nescau — mas que ele diz ser champanhe — apareceu boiando no Golfo do México, levado pelo Katrina.

O Alex criou um plano simples, mas eficiente. Primeiro foi trabalhar na lavanderia, de onde desviava as cuecas usadas dos presos. Depois, na hora do banho de sol, ele e o Ladrão Boliviano fingiram uma briga e foram mandados para a enfermaria. À noite, quando a bacanal começou, eles simplesmente fizeram uma teresa com as cuecas malcheirosas e desceram pela janela. As cuecas sebosas e com cheiro esquisito ajudaram nessa tarefa: tão gordurosas e melecadas que eles simplesmente escorregavam por elas. Com o rosto encostado nas cuecas emporcalhadas, o Alex suspirou: “Ah, o doce perfume da liberdade”. Chegaram ao chão e saíram andando despreocupadamente.

Agora clandestinos, se esconderam em um daqueles prédios que, como ainda não foram tombados pelo Iphan deles, vão acabar tombando no chão qualquer dia desses. Para sustentá-los, o Ladrão Boliviano passou a tentar aplicar o “Boa Noite, Cinderela” nos cubanos de boa fé, mas aqueles coitados eram tão pobres que tinha dia em que o Ladrão Boliviano voltava para casa com meio pedaço de pão e um rolete de cana, para serem divididos entre os dois.

Então o Alex resolveu tomar uma atitude. Sua crise de abstinência dos mata-ratos de 8 centavos chegava ao limite. A fome trazia o fantasma de Cabrera Infante toda noite, e em seus pesadelos ele era atacado por revoadas de charutões de um peso.

E assim foi o Alex para o Malecón, bater calçada. Colocou uma roupa branca de traficante cubano de Miami — calça e paletó de linho branco, chapéu, camiseta preta e um medalhão que diz “I love my dog”. De peito aberto, caiu no mundo torpe da prostituição.

O que o Alex sentia, confessa, era uma mistura de medo e excitação. Ele nunca tinha feitos essas coisas por dinheiro; agora fazer a vida era uma necessidade. Uma de suas primeiras providências tinha sido abandonar o seu nome de batismo por um nome de guerra, que não ficaria bem ver o nome de um escritor achincalhado no cotidiano das falenas. Tentou lembrar do nome do personagem de Al Pacino em Scarface, mas não conseguiu. Então teve uma idéia: se chamaria, novamente, Alexandre Cruz Almeida. Mas esse nome precisava de um molho cubano: e assim o mundo viu o nascimento de Alejandro Cruz y Almeida.

Aquela era sua primeira noite como profissional do sexo. Longe iam os dias em que o Alex era um acadêmico sério, envolvido com pesquisas sobre romances do século XX, sobre Cecilia Valdez e quetais. Agora ele estava na boca do lixo, com uma navalha no bolso para o caso de encontrar um caloteiro safado. Vendia seu corpo para poder entrar na fila do charuto.

“Chupo-le los pies toditos.”

Ah, ninguém pode imaginar o sucesso que o Alex fez na velha Cuba. Em poucos dias, todo o demi-monde sabia quem era Alejandro, El Boquita de Oro. As putas olhavam para ele com inveja e despeito; filas se formavam na esquina onde ele fazia ponto, e eram administradas pelo Ladrão Boliviano. Não era, entretanto, uma vida maravilhosa. De vez em quando o Alex tinha que pagar propina para policiais corruptos: e a moeda de troca era o sexo, ou melhor, o boquete pedicular. Nesses momentos o Alex se sentia degradado, violado, acocorado em vielas escuras caindo de boca nos pés chatos de policiais que não sabiam apreciar, a contento, os seus talentos únicos.

Dos outros ele não conta muitos detalhes. Aqueles homens suados e fortes eram indistintos, um cliente sucedendo o outro. Contou apenas um caso, em que um sujeito o levou para um quarto de hotel caindo aos pedaços; na janela, fazendo as vezes de cortina, uma colcha bordada com a cara do Che. Mas em vez de pedir para que o Alejandro lhe lambesse os pés, pediu para que ele caísse de boca em um charuto enorme que ele lhe mostrou — não um daqueles charutos de um peso pelos quais o Alex agora vendia seu corpo, mas um Arturo Fuente dominicano. E enquanto ele, bom profissional que é, mostrava seus dons no charuto, o cliente gritava, ofegante:

“Llámame de cerdo capitalista! Llámame Bill Clinton, dime que eres mi practicante, perro!”

No meio desse espetáculo lewinskiano, a porta do rendez-vous foi arrombada por dois homens sem barba. O Alex perdeu a paciência:

“Já sé, já sé, caray. Policia secreta de Fidel. Puerra, de nuevo? Muestra los pentellos.”

Os sujeitos baixaram as calças. Glabros.

“Ahora muestra la bunda.”

Viraram de costas e se abaixaram. Imberbes.

“Puta de la madre que los pare, esto já me está enchendo el saco! Quien son ustedes?”

Os agentes tiraram os sapatos. Seus pés tinham peitos cabeludos e tufos enormes de pelo nas falanges.

“Nosotros somos de la nueva división Alex Castro de chupadores de pies. Estás invitado a irte del país. Te hemos recibido con todo lo de nuestra madre Cuba — y por encima usted has hecho lo que has hecho con nosotros, cerdo capitalista!”

“Pero esto o que, hijo de Dios? ”

“Ahora haces dumping con nuestras jineteras, coño. Eso es una competéncia desleal. Sabes que nuestras putas no chuparian los pies de sus clientes jamás. Ellas tienen una distinción profesional. Y tú qué? Lo haces para gañar un peso o fumar un tabaco de miseria. Quieres quitarles el pan y todo lo nuestro. Sabes como llaman al Malecón ahora? El Maricón. Por tu culpa, hijo de puta. Sabes que cuándo Bush se va a oler una línea de coca se ríe de nosostros? ‘No me toca invadir a Cuba porque iba a ser una humillación tomar a un país de mierda que por encima tiene un jinetero llupador de pies que se parece a un héroe nacional’, es lo que habla de nosostros. No hace falta que te quedes aqui, Alex Castro. Tienes como dos dias para irte. De otra manera vas a conocer nuestro paredón.”

Agora estou preocupado. O Alex não mandou mais respostas aos meus e-mails. Não sei se ele está morto ou vivo. E se o filho da puta estiver morto, aí é que ele não traz mesmo a porra do meu Cohiba.

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Republicado em 28 de agosto de 2010