Rafael Galvão

Flower

A diferença entre Walt Disney e Maurício de Sousa

Minha infância foi passada entre revistas da Disney. As revistas de Maurício de Sousa já existiam, mas não eram as mais vendidas nem estavam entre minhas preferidas. Eu sou de outro tempo, uma época em que as revistas Disney no Brasil traziam histórias de Carl Barks e de um grande italiano chamado Marco Rota.

De lá para cá, muita coisa mudou. O Estúdio Maurício de Sousa se consolidou como o maior do Brasil, e suas revistas (que passaram da Abril para a Globo e mais recentemente para a Panini) são campeãs de vendas. As revistas Disney decaem a cada dia, e estão longe de representar o portento que representaram nos anos 70 e começo dos 80. Pior, nos anos 80 e 90 protagonizaram uma crise criativa impressionante, com histórias ruins dos estúdios italianos, histórias neuróticas que raramente conseguiam um final adequado.

Mas a coisa parece ter mudado. Uma nova geração americana — principalmente Don Rosa — deu fôlego novo aos quadrinhos Disney. E ajudou a lembrar uma diferença fundamental entre os quadrinhos Disney e os de Maurício de Sousa.

O universo dos quadrinhos Disney é infinitamente superior ao de Maurício.

Lendo uma história de Barks ou de Don Rosa (descoberta tardia que devo ao Ina), uma criança tem acesso a um universo muito mais amplo que aquele mostrado pelas historinhas de Maurício de Sousa. As histórias de Disney tendem a ser mais universais. O horizonte não está conscrito à rua, ou mesmo ao seu país. Há um mundo inteiro lá fora. Talvez isso se deva ao papel geo-político desempenhado pelos Estados Unidos a partir da I Guerra, quem sabe.

Seja qual for a razão, a diferença pode ser exemplificada em uma constatação simples: enquanto o Cebolinha sonha em ser o dono da rua, o Tio Patinhas sonha em ser dono do mundo.

Com a cidade de Patópolis, a Disney criou um universo próprio e relativamente complexo, que reflete, ainda que de maneira necessariamente infantilizada e esquemática, uma cidade real, com toda a sua complexidade social. Enquanto isso, os quadrinhos de Maurício de Sousa são simples, limitados, quase alienados. Alguém sabe no que o pai do Cebolinha ou o da Mônica trabalham? As histórias de Maurício de Sousa têm a idade mental de seus personagens: seis anos.

São boas histórias, mas mal saem do quarteirão onde esses meninos moram. Projetam uma imagem onírica da infância, que parecem viver no limite entre o campo e a cidade. O universo oferecido por elas às crianças é restrito, limita-se em grande parte à exploração do que já é conhecido — as brigas para saber quem é o dono da rua, o gato bobo que apronta das suas, ecologia piegas e simplista nas histórias do Papa-Capim. No fim das contas, as histórias do Maurício de Sousa não ensinam nada de maneira consistente: apenas trabalham emoções fácil de maneira simplória. Isso não é necessariamente ruim. Algumas histórias da Turma da Mônica são brilhantes, e todas são agradáveis. Como o Allan disse uma vez, são no mínimo “certinhas”.

Mas, enquanto isso, não posso esquecer que foi numa história do Zé Carioca que eu soube que existiu um navio chamado Lusitânia, torpedeado durante a primeira guerra mundial. Talvez tenha sido numa história dele, também, que eu soube que nos Andes existia uma ave chamada condor. E com certeza foi lendo as aventuras da Maga Patalójika que soube de um vulcão na Itália chamado Vesúvio. São inúmeras as palavras que vi pela primeira vez em alguma revista Disney. Dervixe, rúpia, sarraceno são apenas algumas delas.

As histórias de Maurício de Sousa trabalham como conhecido, é essa a sua matéria prima. Mas as histórias da Disney apresentam o novo. E essa diferença é fundamental. Nos quadrinhos Disney as aventuras se estendem pelo mundo inteiro; pelas savanas africanas, pelas selvas brasileiras, pelos desertos asiáticos. O mundo de Disney é infinitamente maior que o de Maurício de Sousa, mais colorido, mais diverso. É essa compreensão do mundo, essa idéia de que a aventura não está apenas no bairro e no universo limitado de crianças de seis anos, que faz das histórias da família Pato algo superior.

Que se danem Mattelart e Dorfman, autores de um livro que qualquer pessoa com juízo se deveria recusar a ler, chamado “Para Ler o Pato Donald”, uma espécie de denúncia do caráter imperialista dos quadrinhos Disney. Nunca li o livro, apenas folheei, e tenho certeza de que sua análise está correta. Mas é preciso ser um canalha para tentar destruir esse universo.

23 Responses to “A diferença entre Walt Disney e Maurício de Sousa”

  1. April 2nd, 2008 at 2:29 pm

    tiagón says:

    meus pais colecionavam os quadrinhos da Disney, o que me garantiu uma infância de painéis de desenhos ricos, roteiros criativos e backgrounds inspirados. li muitas revistinhas dos 70, e eles seguiram me alimentando com mais. uma citação ainda recorrente na família é o Grilo Falante anunciando a canção “Onde Foi Parar Minha Audiência”, num ‘especial de tevê’ comemorativo ao aniversário de Donald (em que ele some).

    e eu lembro de dervixe! e minarete, também.

    mas em algum momento lembro de ter me decepcionado - principalmente com o Mickey, que foi transformado numa espécie de 007 multi-uso fodão e que constantemente humilhava o Pateta. foi a partir daí que fui perdendo a vontade.

    e nunca tive nenhuma ligação com os quadrinhos do Maurício - não me chamaram a atenção jamais. era impossível, após ter aprendido a ler com a riqueza dos quadrinhos Disney. pra bobagem, eu preferia ler Bolinha e Luluzinha. (e mais tarde Chiclete com Banana e Geraldão, mas aí já é outra história.)

    e eu li o livro do Mattelart na faculdade. já esqueci, também.

  2. April 2nd, 2008 at 8:25 pm

    Alexandre Pinheiro says:

    sempre li ambos, gostando de ambos
    monica faz rir muito mais que tio donald, mas a “história” da família pato, da vovó donalda, enfim .. muito superior, mesmo
    por isso ambos me prendiam, ficando eu hoje com as sanacanagens da turma da monica, onde ainda dá pra encontrar algo de muito hilário (uma historinha a cada 15 gibis, por exemplo)
    mas dá
    disney sumiu .. nunca mais vi
    os desenhos voltaram a globo, mas aqueles, de 15 anos atras (para nós, pq o original com certeza é mais velho)
    lembro-me de uma hitoria de sir lock, onde ele, para apagar um incendio, fez uma enorme xicara de chá …
    enfim
    já a disney dos longas de animação , ah meu filho, ninguem pega não
    grade abrassss

  3. April 2nd, 2008 at 9:22 pm

    Allan says:

    Pois você iria detestar a Itália. Os gibis da Disney por aqui são todas produzidas aqui mesmo, na Dinsey Itália. Não gosto dos desenhos e as estórias são mal montadas. O enredo nem sempre faz jus a casa madre e tem sempre uma referência provinciana. Eca!

  4. April 2nd, 2008 at 10:05 pm

    João Neto says:

    Eu tomei gosto pela leitura lendo Disney. Aprendi a falar um português muito correto graças a correção dos balões de falas das revistas Disney. Algumas estórias do Tio Patinhas com seus sobrinhos e do Mickey com o Pateta, são épicas. Nas revistas do Mauricio de Souza não há essa preocupação em tornar as estórias tão maravilhosas, talvez de propósito para manter a leveza para crianças mais novas, dos seis aos dez anos. Com isso quero dizer que a comparação é irrelevante. A única coisa proveitosa deste post foi a lembrança da derrocada das revistas Disney nas décadas recentes. A Disney fazia estórias maravilhosas que deixaram a minha infância com uma impressão de pertencer a um mundo muito maior, como disse o Rafael Galvão.

  5. April 3rd, 2008 at 2:46 am

    Alvaro "Nibelung" says:

    Eu cresci na faixa intermediária (começo dos 90), então sempre li muito tanto Turma da Mônica quanto os quadrinhos Disney. Quando eu era mais novo, nem via muita diferença entre os dois estilos (Até porque eu sempre gostei de ler outras coisas também), e tinha uma coleção enorme.

    Hoje eu digo que concordo contigo em todas as palavras. O universo Disney é muito superior ao Maurício de Sousa, comprovado por eu ainda estar interessado em comprar as edições da Disney (incluindo a maravilhosa coleção de histórias de Carl Barks), e só ler TdM muuito esporadicamente, e ainda na base do “óleo de peroba” na banca mesmo.

    Longa vida a Disney. E mal posso esperar pra quando o Mickey entrar em domínio público.

  6. April 3rd, 2008 at 1:23 pm

    Cris says:

    Tbém lembro de várias palavras que aprendi com os gibis da Disney: “harpia” é a que me ocorre agora.
    Tbém gostava da Mônica e Cia, mas esperava ansiosa pqlas edições Natal da Disney.
    Amo o Pato Donald, com aquele jeitinho chato, infantil e birrento.
    Nunca pensei nisso, na simplicidade da Mõnica e na complexidade da Disney…não quea simplicidade seja um defeito, mas é verdade, as histórias da Disney eram mesmo universais…E os aspectos psicológicos dos personagens da Disney são muito mais elaborados.
    Inesquecível uma edição especial de Natal que trazia uma versão da história do Dickens,com o Tio Patinhas como o velho Scrooge. Li e reli, muitas vezes, mesmo adulta.
    Pensando agora…também descobri/aprendi várias coisas úteis, sobre inventos e história mundial por causa da Disney.
    Adorei o post.
    bjos!

  7. April 3rd, 2008 at 6:11 pm

    Jorge Miguel says:

    Rafael:
    Você tem acompanhado a série da Abril com a coleção completa da obra de Carl Banks? É duca! Está sendo editada em ordem cronológica e já está no volume 33. Uma das melhores coisas que a Abril lançou nos (muitos)último anos.
    Um abraço.
    Jorge Miguel

  8. April 3rd, 2008 at 6:13 pm

    Jorge Miguel says:

    PS: fui alfabetizado nos anos 60, lendo Tio Patinhas e Mickey. Até hoje lembro de algumas histórias.

  9. April 4th, 2008 at 1:21 am

    Ronaldo Rocha says:

    Cris,
    Quando comecei a ler o post, logo me lembrei da historinha em que os Patos enfrentam seres mitológicos com cara de mulher, asas e garras enormes, as Harpias.
    Inesquecível.

    Ps: Para matar a saudade, ainda que não seja obra do Banks:

    http://xande43.wordpress.com/2008/02/02/

  10. April 4th, 2008 at 12:33 pm

    João Neto says:

    Boa Cris!

    A estória das hárpias é uma das épicas. Maravilhosa!

  11. April 4th, 2008 at 1:13 pm

    Edilberto says:

    Que coisa curiosa: eu também jamais me esqueci de que foi num gibi da disney que eu conheci esse ser mitológico com bico e garras de águia chamado HARPIA. Não sei vocês se lembram, mas na história o nome era dito ao contrário para despistar os aventureiros (aiprah). Muito legal esse post.

  12. April 4th, 2008 at 3:18 pm

    dra says:

    provocaçãozinha barata:
    e a turma do Charlie Brown e Snoopy? como é que a gente encaixa ela nessa sua teoria?
    abs,

  13. April 4th, 2008 at 7:02 pm

    Bruno Ribeiro says:

    Rafael, você tem razão se estiver se referindo aos gibis do Maurício de Sousa produzidos a partir do início dos anos 90. Eu me formei lendo a Turma da Mônica entre 1980 e 1987. Guardo, com respeitoso cuidado, alguns desses gibis e até hoje fico maravilhado com o roteiro, os diálogos e os traços. Houve histórias antológicas, muitas salpicadas de filosofia. Eram, sim, mais “adultas” e mais complexas as histórias do Maurício de Sousa nos anos 80.

  14. April 4th, 2008 at 7:24 pm

    S Leo says:

    Grande post, bela análise, Galvão!
    Harpia, bem lembrado… Numa tirinha do Disney, os irmãos Metralha comentavam como os otários revelavam onde estava o dinheiro que carregavam com eles porque inconscientemente botavam sempre a mão no local, protegendo-o. Nunca mais dei essa bandeira; e naquela época nem carteira eu tinha.

    Mas essa de não querer ler o Mattelard e o Dorfmann é interessante, Rafael. Quer falar mais sobre isso, trabalhar esse trauma? Quando você começou a rejeitar os dados da realidade que desmontavam suas ilusões de infância? ((-:

    Hehe, você não tinha uma boa banca perto de casa, como eu, que li o Disney e todas as do Maurício, em igual proporção. Os enredos do maurício sempre foram meio bobinhos, e os da Disney, aí você matou a pau, tinham uma riqueza que falta mesmo ao brasileiro. Nessa riqueza se escondia também uma tremenda propaganda sexista, imperialista e conformista, mas com isso v. só concordaria após ver os inúmeros exemplos do Dorfman e do Mattelard, que li com gosto. Nada como umas marteladas nos pés de barro dos nossos heróis…

  15. April 7th, 2008 at 12:39 pm

    Marcela says:

    Cada um com suas intenções, se os da disney são imperialistas, os de Mauricio não são muito melhores, tornar a criança idiota, mas uma coisa me deixa com uma pulga atrás da orelha, não era você mesmo que omitia da sua filha que a bruxa de João e Maria comia crianças, como pode agora parecer tão maravilhado com o mundo fantástico criado pela disney, se esconde o fantástico dela?

  16. April 7th, 2008 at 1:15 pm

    Rafael says:

    Ahn… Marcela… Né por nada, não, mas você não acha que existe uma diferença significativa entre crianças de 2 anos e crianças de 8, 10?

  17. April 7th, 2008 at 5:26 pm

    João Neto says:

    A propósito Rafael;

    Você viu que seqüestraram o Cebolinha e mãe dele. Coitado do Mauricio de Souza, não teve a sorte de, como o Disney, morar num país decente.

  18. April 8th, 2008 at 3:16 am

    Henrique says:

    Disney era mesmo um quadrinho muito mais expansivo do que Monica. Lembro até hoje de uma história das antigas, p&b, dos patos procurando uma moça selvagem que controlava dingos no outback australiano, cheia de tramas detetivescas. Lembro também de uma história genial do professor pardal em que ele inventa uma máquina de encolher e vai diminuindo, diminuindo, fica menor do que um átomo, que vai se revelando um universo com estrelas, planetas, uma terra, etc, até que ele encolhe tanto que chega de novo ao laboratório!

  19. April 11th, 2008 at 8:03 pm

    rnt says:

    que boa lembrança, é verdade, eu aprendi sobre o vesúvio, sobre pompéia, sobre a cidade de viena e várias outras coisas numa época sem internet (e sem pais com grana pra comprar livros) com os quadrinhos disney. claro que a gente cresce e aprende que a estrutura da família sem pais (oi, só tem tios e sobrinhos) tem a idéia de fortalecer o individualismo e que o tio patinhas é o arauto do capitalismo soprando as trombetas da danação eterna e blablabla, mas isso não importa. o fato é que eu aprendia coisas enquanto passava o tempo, e adorava aqueles desenhos. boa lembrança essa. :)

  20. April 13th, 2008 at 2:09 am

    Marília says:

    Adorava ler as histórias do Tio Patinhas!
    E as do Maurício também!

    Tem espaço pras duas!

  21. April 22nd, 2008 at 5:16 pm

    Barnabé says:

    Meus filhos, se e quando vierem a existir, serão amamentados esclusivamente com Disney.

    ( Research proposal: checar a correlação entre qtde de horas lendo Turma da Môniva e desempenho escolar (hipótese: rMeus filhos, se e quando vierem a existir, serão amamentados esclusivamente com Disney.

    ( Research proposal: checar a correlação entre qtde de horas lendo Turma da Môniva e desempenho escolar (hipótese: r<0). )

  22. May 4th, 2008 at 2:35 pm

    Silier Borges says:

    Sou de um período mais recente e mais questionador, frente a tendência da época aliada a uma cultura paterna baseada na valoração do nacional, preferencialmente fui instigado aos quadrinhos do Souza. De fato que os quadrinhos de Souza apresentam uma simplicidade que a sociedade moderna e influenciada pela uniformidade cultural estadunidense já descartara. E este é um argumento positivo ao Souza, ao contrário do afirmado.

    A adequação das HQ’s de Souza em retratar um mundo infantil, não megalomaníaco e sem as ditas pretenções globalitárias, e sua busca pela estimada valorização de temáticas contemporâneas como o fator ecológico, são instrumentos temáticos essenciais na composição de futuros adultos socialmente respeitáveis. O não compromisso com tais valores, em qualquer das publicações voltadas ao publico infantil, é isentar-se de responsabilidade da formação dos seus pequenos leitores. Não adequar-se a tais exigênciais sociais refletem, por consequência, na decadência comercial de empresas não-adeptas do desenvolvimento sustentável, entre elas a Disney.
    Obviamente, é o EUA a nação mais poluente do mundo. Venhamos e convenhamos, o motivo precípuo para tamanha ocorrência fôra a isenção de responsabilidade da sociedade civil americana - o que inclui o setor empresarial - que resultou numa população exarcerbadamente adepta do irrefreável e imbecil consumismo utilitarista.

  23. May 24th, 2008 at 2:18 pm

    mauricio says:

    eu gosto muito de revis satde quadrinho e gosto tbmaem de desenhar e estou montando minhas orppias tiras em quadrinho

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