A diferença entre Walt Disney e Maurício de Sousa

Minha infância foi passada entre revistinhas em quadrinhos da Disney. As revistas de Maurício de Sousa já existiam, mas não eram as mais vendidas nem estavam entre minhas preferidas. Eu sou de outro tempo, uma época em que as revistas Disney no Brasil traziam histórias de Carl Barks e de um grande italiano chamado Marco Rota.

De lá para cá, muita coisa mudou. O Estúdio Maurício de Sousa se consolidou como o maior do Brasil, e suas revistas (que passaram da Abril para a Globo e mais recentemente para a Panini) são campeãs de vendas. As revistas Disney decaem a cada dia, e estão longe de representar o portento que representaram nos anos 70 e começo dos 80. Pior, nos anos 80 e 90 protagonizaram uma crise criativa impressionante, protagonizada por histórias ruins dos estúdios italianos — que já tiveram grandes criadores, como o Rota citado acima –, enredos neuróticos que raramente conseguiam um final adequado.

Mas a coisa parece ter mudado. Uma nova geração — principalmente Don Rosa — deu fôlego novo aos quadrinhos Disney. E ajudou a lembrar uma diferença fundamental entre os quadrinhos Disney e os de Maurício de Sousa.

O universo dos quadrinhos Disney é infinitamente superior ao de Maurício.

Lendo uma história de Barks ou de Don Rosa (descoberta tardia que devo ao Ina), uma criança tem acesso a um universo muito mais amplo que aquele mostrado pelas historinhas de Maurício de Sousa. As histórias da Disney tendem a ser mais universais. O horizonte não está circunscrito à rua, ou mesmo ao seu país. Há um mundo inteiro lá fora.

Talvez isso se deva ao papel geo-político desempenhado pelos Estados Unidos a partir da I Guerra, quem sabe, ou mesmo à própria concepção de quadrinhos americana, ou ainda à composição do público leitor. Seja qual for a razão, a diferença pode ser exemplificada em uma constatação simples: enquanto o Cebolinha sonha em ser o dono da rua, o Tio Patinhas sonha em ser dono do mundo.

Com a cidade de Patópolis, a Disney criou um universo próprio e relativamente complexo que reflete, ainda que de maneira necessariamente infantilizada e esquemática, uma cidade real, com toda a sua complexidade social. Enquanto isso, os quadrinhos de Maurício de Sousa são simples, limitados, quase alienados. Alguém sabe no que o pai do Cebolinha ou o da Mônica trabalham? As histórias de Maurício de Sousa têm a idade mental de seus personagens: seis anos.

São boas histórias, mas mal saem do quarteirão onde esses meninos moram. Projetam uma imagem onírica da infância, que parecem viver no limite entre o campo e a cidade. O universo oferecido por elas às crianças é restrito, limita-se em grande parte à exploração do que já é conhecido — as brigas para saber quem é o dono da rua, o gato bobo que apronta das suas, ecologia piegas e simplista nas histórias do Papa-Capim. No fim das contas, as histórias do Maurício de Sousa não ensinam nada de maneira consistente: apenas trabalham emoções fáceis de maneira simplória.

Isso não é necessariamente ruim. Algumas histórias da Turma da Mônica são brilhantes, e todas são agradáveis. São leitura segura para todos, e com o adicional da “brasilidade”, interessantes para todos. Como o Allan disse uma vez, são no mínimo “certinhas”.

Mas, enquanto isso, não posso esquecer que foi numa história do Zé Carioca que eu soube que existiu um navio chamado Lusitânia, torpedeado durante a I Guerra Mundial. Talvez tenha sido numa história dele, também, que eu soube que nos Andes existia uma ave chamada condor. E com certeza foi lendo as aventuras da Maga Patalójika que soube de um vulcão na Itália chamado Vesúvio. São inúmeras as palavras que vi pela primeira vez em alguma revista Disney. Dervixe, rúpia, sarraceno são apenas algumas delas.

As histórias de Maurício de Sousa trabalham com o conhecido de crianças pequenas, é essa a sua matéria prima. Mas as histórias da Disney apresentavam o novo, e dialogavam com o mundo exterior de uma forma que Maurício de Sousa prefere evitar. E essa diferença é fundamental. Nos quadrinhos Disney as aventuras se estendem pelo mundo inteiro; pelas savanas africanas, pelas selvas brasileiras, pelos desertos asiáticos. O mundo de Disney é infinitamente maior que o de Maurício de Sousa, mais colorido, mais diverso. É essa compreensão do mundo, essa idéia de que a aventura não está apenas no bairro e no universo limitado de crianças de seis anos, que faz das histórias da família Pato algo superior.

Que se danem Mattelart e Dorfman, autores de um livro que qualquer pessoa com juízo se deveria recusar a ler, chamado “Para Ler o Pato Donald”, uma espécie de denúncia do caráter imperialista dos quadrinhos Disney. Nunca li o livro, apenas folheei, e tenho certeza de que sua análise está correta. Mas é preciso ser um canalha para tentar destruir um universo tão bom.

Republicado em 27 de setembro de 2010

34 thoughts on “A diferença entre Walt Disney e Maurício de Sousa

  1. meus pais colecionavam os quadrinhos da Disney, o que me garantiu uma infância de painéis de desenhos ricos, roteiros criativos e backgrounds inspirados. li muitas revistinhas dos 70, e eles seguiram me alimentando com mais. uma citação ainda recorrente na família é o Grilo Falante anunciando a canção “Onde Foi Parar Minha Audiência”, num ‘especial de tevê’ comemorativo ao aniversário de Donald (em que ele some).

    e eu lembro de dervixe! e minarete, também.

    mas em algum momento lembro de ter me decepcionado – principalmente com o Mickey, que foi transformado numa espécie de 007 multi-uso fodão e que constantemente humilhava o Pateta. foi a partir daí que fui perdendo a vontade.

    e nunca tive nenhuma ligação com os quadrinhos do Maurício – não me chamaram a atenção jamais. era impossível, após ter aprendido a ler com a riqueza dos quadrinhos Disney. pra bobagem, eu preferia ler Bolinha e Luluzinha. (e mais tarde Chiclete com Banana e Geraldão, mas aí já é outra história.)

    e eu li o livro do Mattelart na faculdade. já esqueci, também.

  2. sempre li ambos, gostando de ambos
    monica faz rir muito mais que tio donald, mas a “história” da família pato, da vovó donalda, enfim .. muito superior, mesmo
    por isso ambos me prendiam, ficando eu hoje com as sanacanagens da turma da monica, onde ainda dá pra encontrar algo de muito hilário (uma historinha a cada 15 gibis, por exemplo)
    mas dá
    disney sumiu .. nunca mais vi
    os desenhos voltaram a globo, mas aqueles, de 15 anos atras (para nós, pq o original com certeza é mais velho)
    lembro-me de uma hitoria de sir lock, onde ele, para apagar um incendio, fez uma enorme xicara de chá …
    enfim
    já a disney dos longas de animação , ah meu filho, ninguem pega não
    grade abrassss

  3. Pois você iria detestar a Itália. Os gibis da Disney por aqui são todas produzidas aqui mesmo, na Dinsey Itália. Não gosto dos desenhos e as estórias são mal montadas. O enredo nem sempre faz jus a casa madre e tem sempre uma referência provinciana. Eca!

  4. Eu tomei gosto pela leitura lendo Disney. Aprendi a falar um português muito correto graças a correção dos balões de falas das revistas Disney. Algumas estórias do Tio Patinhas com seus sobrinhos e do Mickey com o Pateta, são épicas. Nas revistas do Mauricio de Souza não há essa preocupação em tornar as estórias tão maravilhosas, talvez de propósito para manter a leveza para crianças mais novas, dos seis aos dez anos. Com isso quero dizer que a comparação é irrelevante. A única coisa proveitosa deste post foi a lembrança da derrocada das revistas Disney nas décadas recentes. A Disney fazia estórias maravilhosas que deixaram a minha infância com uma impressão de pertencer a um mundo muito maior, como disse o Rafael Galvão.

  5. Eu cresci na faixa intermediária (começo dos 90), então sempre li muito tanto Turma da Mônica quanto os quadrinhos Disney. Quando eu era mais novo, nem via muita diferença entre os dois estilos (Até porque eu sempre gostei de ler outras coisas também), e tinha uma coleção enorme.

    Hoje eu digo que concordo contigo em todas as palavras. O universo Disney é muito superior ao Maurício de Sousa, comprovado por eu ainda estar interessado em comprar as edições da Disney (incluindo a maravilhosa coleção de histórias de Carl Barks), e só ler TdM muuito esporadicamente, e ainda na base do “óleo de peroba” na banca mesmo.

    Longa vida a Disney. E mal posso esperar pra quando o Mickey entrar em domínio público.

  6. Tbém lembro de várias palavras que aprendi com os gibis da Disney: “harpia” é a que me ocorre agora.
    Tbém gostava da Mônica e Cia, mas esperava ansiosa pqlas edições Natal da Disney.
    Amo o Pato Donald, com aquele jeitinho chato, infantil e birrento.
    Nunca pensei nisso, na simplicidade da Mõnica e na complexidade da Disney…não quea simplicidade seja um defeito, mas é verdade, as histórias da Disney eram mesmo universais…E os aspectos psicológicos dos personagens da Disney são muito mais elaborados.
    Inesquecível uma edição especial de Natal que trazia uma versão da história do Dickens,com o Tio Patinhas como o velho Scrooge. Li e reli, muitas vezes, mesmo adulta.
    Pensando agora…também descobri/aprendi várias coisas úteis, sobre inventos e história mundial por causa da Disney.
    Adorei o post.
    bjos!

  7. Rafael:
    Você tem acompanhado a série da Abril com a coleção completa da obra de Carl Banks? É duca! Está sendo editada em ordem cronológica e já está no volume 33. Uma das melhores coisas que a Abril lançou nos (muitos)último anos.
    Um abraço.
    Jorge Miguel

  8. PS: fui alfabetizado nos anos 60, lendo Tio Patinhas e Mickey. Até hoje lembro de algumas histórias.

  9. Que coisa curiosa: eu também jamais me esqueci de que foi num gibi da disney que eu conheci esse ser mitológico com bico e garras de águia chamado HARPIA. Não sei vocês se lembram, mas na história o nome era dito ao contrário para despistar os aventureiros (aiprah). Muito legal esse post.

  10. provocaçãozinha barata:
    e a turma do Charlie Brown e Snoopy? como é que a gente encaixa ela nessa sua teoria?
    abs,

  11. Rafael, você tem razão se estiver se referindo aos gibis do Maurício de Sousa produzidos a partir do início dos anos 90. Eu me formei lendo a Turma da Mônica entre 1980 e 1987. Guardo, com respeitoso cuidado, alguns desses gibis e até hoje fico maravilhado com o roteiro, os diálogos e os traços. Houve histórias antológicas, muitas salpicadas de filosofia. Eram, sim, mais “adultas” e mais complexas as histórias do Maurício de Sousa nos anos 80.

  12. Grande post, bela análise, Galvão!
    Harpia, bem lembrado… Numa tirinha do Disney, os irmãos Metralha comentavam como os otários revelavam onde estava o dinheiro que carregavam com eles porque inconscientemente botavam sempre a mão no local, protegendo-o. Nunca mais dei essa bandeira; e naquela época nem carteira eu tinha.

    Mas essa de não querer ler o Mattelard e o Dorfmann é interessante, Rafael. Quer falar mais sobre isso, trabalhar esse trauma? Quando você começou a rejeitar os dados da realidade que desmontavam suas ilusões de infância? ((-:

    Hehe, você não tinha uma boa banca perto de casa, como eu, que li o Disney e todas as do Maurício, em igual proporção. Os enredos do maurício sempre foram meio bobinhos, e os da Disney, aí você matou a pau, tinham uma riqueza que falta mesmo ao brasileiro. Nessa riqueza se escondia também uma tremenda propaganda sexista, imperialista e conformista, mas com isso v. só concordaria após ver os inúmeros exemplos do Dorfman e do Mattelard, que li com gosto. Nada como umas marteladas nos pés de barro dos nossos heróis…

  13. Cada um com suas intenções, se os da disney são imperialistas, os de Mauricio não são muito melhores, tornar a criança idiota, mas uma coisa me deixa com uma pulga atrás da orelha, não era você mesmo que omitia da sua filha que a bruxa de João e Maria comia crianças, como pode agora parecer tão maravilhado com o mundo fantástico criado pela disney, se esconde o fantástico dela?

  14. Ahn… Marcela… Né por nada, não, mas você não acha que existe uma diferença significativa entre crianças de 2 anos e crianças de 8, 10?

  15. A propósito Rafael;

    Você viu que seqüestraram o Cebolinha e mãe dele. Coitado do Mauricio de Souza, não teve a sorte de, como o Disney, morar num país decente.

  16. Disney era mesmo um quadrinho muito mais expansivo do que Monica. Lembro até hoje de uma história das antigas, p&b, dos patos procurando uma moça selvagem que controlava dingos no outback australiano, cheia de tramas detetivescas. Lembro também de uma história genial do professor pardal em que ele inventa uma máquina de encolher e vai diminuindo, diminuindo, fica menor do que um átomo, que vai se revelando um universo com estrelas, planetas, uma terra, etc, até que ele encolhe tanto que chega de novo ao laboratório!

  17. que boa lembrança, é verdade, eu aprendi sobre o vesúvio, sobre pompéia, sobre a cidade de viena e várias outras coisas numa época sem internet (e sem pais com grana pra comprar livros) com os quadrinhos disney. claro que a gente cresce e aprende que a estrutura da família sem pais (oi, só tem tios e sobrinhos) tem a idéia de fortalecer o individualismo e que o tio patinhas é o arauto do capitalismo soprando as trombetas da danação eterna e blablabla, mas isso não importa. o fato é que eu aprendia coisas enquanto passava o tempo, e adorava aqueles desenhos. boa lembrança essa. 🙂

  18. Meus filhos, se e quando vierem a existir, serão amamentados esclusivamente com Disney.

    ( Research proposal: checar a correlação entre qtde de horas lendo Turma da Môniva e desempenho escolar (hipótese: rMeus filhos, se e quando vierem a existir, serão amamentados esclusivamente com Disney.

    ( Research proposal: checar a correlação entre qtde de horas lendo Turma da Môniva e desempenho escolar (hipótese: r<0). )

  19. Sou de um período mais recente e mais questionador, frente a tendência da época aliada a uma cultura paterna baseada na valoração do nacional, preferencialmente fui instigado aos quadrinhos do Souza. De fato que os quadrinhos de Souza apresentam uma simplicidade que a sociedade moderna e influenciada pela uniformidade cultural estadunidense já descartara. E este é um argumento positivo ao Souza, ao contrário do afirmado.

    A adequação das HQ’s de Souza em retratar um mundo infantil, não megalomaníaco e sem as ditas pretenções globalitárias, e sua busca pela estimada valorização de temáticas contemporâneas como o fator ecológico, são instrumentos temáticos essenciais na composição de futuros adultos socialmente respeitáveis. O não compromisso com tais valores, em qualquer das publicações voltadas ao publico infantil, é isentar-se de responsabilidade da formação dos seus pequenos leitores. Não adequar-se a tais exigênciais sociais refletem, por consequência, na decadência comercial de empresas não-adeptas do desenvolvimento sustentável, entre elas a Disney.
    Obviamente, é o EUA a nação mais poluente do mundo. Venhamos e convenhamos, o motivo precípuo para tamanha ocorrência fôra a isenção de responsabilidade da sociedade civil americana – o que inclui o setor empresarial – que resultou numa população exarcerbadamente adepta do irrefreável e imbecil consumismo utilitarista.

  20. eu gosto muito de revis satde quadrinho e gosto tbmaem de desenhar e estou montando minhas orppias tiras em quadrinho

  21. Eu amava as HQs Disney dos anos 70 e 80, principalmente as feitas no Brasil e na Itália e as do Carl Barks (nem sabia que esse homem existia) (odiava as americanas recentes e ignorava as dinamarquesas e francesas). Depois, pararam de publicar as histórias nacionais (que estavam ficando ridículas, pelas últimas que eu lembro de ter lido no Zé Carioca) e as italianas começaram a ficar medonhas. Nunca fui fã da turma da Mônica, mas gostava das histórias dos anos 70, quando o cenário era mais detalhado. E li o livro “Para Ler o Pato Donald” (na verdade, eu o comprei depois de ler na faculdade, como uma curiosidade médica). É uma bosta a análise dos dois autores, igual a qualquer análise “intelectual” de tudo, com mais erros do que acertos, mas capaz de convencer qualquer membro do PSTU ou do PSOL que eles tem razão… E as letras nos balões são de um amadorismo tenebroso, coisa de guri de três anos…

  22. Os do Mauricio são mesmo bem repetitivos e tradicionais…

    Outro ponto que merece ser destacado é: enquanto o Mauricio praticamente só trabalha com a Turma da Mônica, a Disney tem; além do Mickey e Sua Turma, um sem-número de variadas personagens; tais como: Os 3 Porquinhos, o Coelho Quincas, o Ursinho Pooh, figuras clássicas como Alice no País das Maravilhas, Peter Pan, Pinóquio e outras mais e, até mesmo aquela série chamada Kingdom Hearts!

    O Mauricio poderia ser mais dinâmico e versátil mas; ele acabou na mesma sina de Monteiro Lobato; quem também nunca se desvencilhou do Sítio do Picapau Amarelo, Ziraldo é quem é o cara aqui no Brasil: tem a Turma do Pererê, o Menino Maluquinho, o Bichinho da Maçã e, trocentas obras mais!

    Além disto, o Mauricio peca muito em pontos como: incontáveis repetições de histórias, muitos erros de Português, diversos erros de continuidade e, coisas assim!

    Mesmo assim, ele ainda detém o título de Walt Disney brasileiro; o qual nós convenhamos: é muito mais do que merecido; estou certo?

  23. Olá, Rafael.
    Tenho acompanhado seu blog há uns poucos anos, desde que me foi apresentado por minha esposa, que é fã devota. Gosto muito dos textos que escreve e este não foi exceção.
    Eu apenas reforçaria que esta oposição entre “particular” e “universal”, se tomados como tipos puros, só existe mesmo como abstração. Os quadrinhos Disney também tratam de modos de agir e pensar que podem ser associados a localismos, a modos de fazer humor bem determinados, relativos aos ambientes em que foram produzidos. Vale notar que muitos dos comentaristas aqui mesmo percebem claramente a diferença entre os que eram gerados na Dinamarca, Estados Unidos, Brasil…
    Já Mônica & cia., na mão oposta, também trazem algo de perspectiva geral, na medida que apresentam uma visão de infância que, concordando nós ou não, é um estereótipo disseminado.
    Quanto ao livro sobre o Pato Donald – não o estou defendendo, considero-o intragável – deve ser entendido como um produto de sua época e lugar. Foi escrito no Chile, pouco antes daquele triste 11 de setembro que sepultou Salvador Allende e traz consigo aquela postura que hoje nós entendemos como patrulha ideológica, com aquele jargão marxista que dominou a esquerda latinoamericana nos anos 60-70. Nem o Mattelard escreve mais deste jeito.

  24. Cláudio,

    Sua mulher tem excelente gosto. 🙂

    Os localismos dizem mais respeito a estilos de arte (e no caso da Itália, de roteiro, também) do que a visões de mundo. De modo geral, eles eram percebidos menos pelas diferenças que pelos códigos em cada primeiro quadrinho.

    E quanto ao “Para Ler o Pato Donald”, eu entendo sua razão de ser. Mais ainda, acho que eles estão cobertos de razão. Eu não digo que o livro é equivocado, pelo contrário. Os quadrinhos Disney são um retrato acabado do imperialismo americano da primeira metade do século, à la United Fruit. O problema é que tem horas que eu prefiro estar errado. 🙂

  25. Quadrinhos Disney sempre tiveram produção descentralizada, então há vários “universos” que pouco se misturam. Barks criou as aventuras dos patos pelo mundo em cenários grandiosos, no Brasil tivemos o Peninha-sitcom do Herrero e do Saidemberg dos anos 80, a cada semana tentando um emprego maluco novo, e na Itália, Scarpa, Rota e Cavazzano fizeram paródias que me apresentaram a grandes livros e filmes – tipo essa coleção “Clássicos da Literatura Disney” que vem sendo publicada agora em 2010.

    Da Turma da Mônica, as historias que mais gosto são as que abusam da metalinguagem, como as do Louco ou do Bidu, e as paródias de filmes. (E quem gosta das aventuras épicas dos patos, procure a minissérie Tina e os Caçadores de Enigmas, de 2007 ou 08, gostei bastante, é mais pra DuckTales do que pra Scooby-Doo.)

  26. Rafael:

    Agradeço a pronta resposta, fiquei cheio de moral aqui em casa…. Rs. Como sempre, sua retórica é impecável, uma aula de coerência textual.

    Gostaria só de dizer, ainda no espírito de contribuir com a discussão, que o problema que sinalizo no livro do Dorfman e do Matellard não é o fato de ele caracterizar os quadrinhos Disney como representação do imperialismo. É claro que eles o são. A questão é que esta é unicamente uma das facetas destas obras. É reducionismo ignorar todo o aspecto artístico, educativo, lúdico e maravilhosamente divertido que uma história de Carl Barks pode trazer a quem a lê, como você tão bem ilustrou.

    “Para ler o Pato Donald” parte do pressuposto de que a arte não engajada é necessariamente desprovida de qualidades, como se um traço necessariamente excluísse o outro e é a falta desta justa medida que torna a leitura difícil para mim, hoje.

    Ah, e, como sugestão de não-leitura para todos, recomendo uma outra obra do Dorfman, desta vez em parceria com o Manuel Jofré, contemporânea a esta sobre a Disney: “Super-Homem e seus amigos do peito”. Ao contrário do que o título e a capa sugerem, não fala de nenhum kryptoniano, mas sim confere o mesmo tratamento dado aos patos ao coitado do Lonely Ranger (que até hoje não sei porque cargas d’água resolveram chamar de Zorro por aqui). Tenebroso…

  27. Eu adorava ler as reistinhas da Monica e Cebolinha,Mickey,Pato donald , muito engraçadas sempre pedi para meus filhos ler mas nunca quiserão.um abraço Nara

  28. RESPEITO MAS NÃO CONCORDO COM O AUTOR DO TEXTO,A DISNEY É AMERICANA E SÃO VISTOS NO MUNDO INTEIRO ENTÃO LÓGICAMENTE QUE SEU UNIVERSO TEM QUE SER MAIOR MESMO.
    SE O MAURICIO FOSSE AMERICANO ELE SERIA MAS CONHECIDO QUE O W.DISNEY PORQUE SEUS PERSONAGENS SÃO MELHORES,AGORA O MAURICIO É BRASILEIRO E NÃO DÁ PRA COMPETIR COM ESSES AMERICANOS QUE 80% DO MUNDO CONSOMEM OS PRODUTOS DELES.

  29. A DIFERENÇA É QUE UM É AMERICANO E OUTRO É BRASILEIRO E TODO MUNDO SABE QUE AMERICANO É MESTRE EM VENDER TUDO ATÉ PORQUE SUA LINGUA É FALADA EM MUITOS PAISES,DIFERENTE DO PORTUGUES.
    O NOSSO AÇAI,CUPU,GUARANÁ,SÃO ÓTIMOS MAS O MAIS VENDIDO NO MUNDO ADIVINHEM,É A COCA-COLA.
    COITADA DA COCA-COLA SE ESSAS FRUTAS FOSSEM AMERICANAS.
    O COMERCIAL É A ALMA DO NEGÓCIO E ISSO O AMERICANO SABE FAZER MELHOR QUE TODO MUNDO.

  30. Como sempre, produto nacional visto como produto menor… Glória aos ianques!
    Há espaço pros 2

  31. O autor, um perfeito alienado fez uma crítica superficial demais. Não há dúvida que Carl Barks, do qual eu sou um grande fã, é um dos grandes mestres dos quadrinhos em todos os tempos. Mas daí, afirmar, por causa de um autor, que os quadrinhos disney são infinitamente superiores, temos um caso até patológico de alienação de culpa. “Sou um infeliz por não ter nascido na gloriosa nação americana”. Hugo Pratt não era norte-americano, nem José Luis Salinas.
    Quanto aos americanos, Bill Watterson, autor de Calvin, a quem admiro muito, nunca sai do “mundinho” mas é genial. Escrever sobre lugares longínquos não é sinônimo de qualidade.
    Só para encerrar: desafio ao “crítico” encontrar uma história disney, fora das criações geniais de Barks, uma história que tenha a mesma relevância e simplicidade. da história “Os azuis” de Maurício de Souza.

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