A balela do diploma dos jornalistas

Quando escrevia em jornal, aí pelos 17 anos, eu obviamente não era formado. Só escrevia porque qualquer cão sem dono pode escrever uma coluna. E diagramar (au, au, Tata). E fotografar. Se eu fazia outras coisas não documentadas é porque aquele pesssoal era contraventor. Não era culpa minha. Os safados eram eles.

Na época, eu era absolutamente contrário à exigência do diploma. Não era a posição do sindicato, claro, nem da maioria dos jornalistas. O único jornal que se pronunciava abertamente contra isso era a Folha de S. Paulo, que inclusive comprou briga ao empregar jornalistas que não eram formados (um deles era o Alon Feuerwerker, acho).

Ultimamente o assunto voltou à tona. Essa é a posição do procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, que encontrei no Just Think:

Ao declarar uma notícia, se mal formulada ou equivocada, o jornalista pode gerar grave comoção social ou danos de severa monta. Não estamos diante de uma atividade vulgar, que prescinde de conhecimentos técnicos. Banalizar a questionada profissão a ponto de considerar que não merece regulamentação específica é desmerecer a realidade comum dos fatos.

Certo.

Afinal, quem ele pretende enganar? Os argumentos são falhos.

Para começar, essa exigência é um absurdo que só existe no Brasil e em uns poucos países de pouca relevância, empurrada em 1967 (se não me engano) como medida de controle dos jornalistas por parte da ditadura. No resto do mundo, pessoas formadas em história ou em outras áreas podem ser jornalistas. Pessoalmente, acho que é mais importante para um repórter conhecer história, e poder analisar os fatos que conta, do que saber detalhes de diagramação. (E é mais importante para um diagramador ter noções artísticas e gráficas sólidas do que saber como se escreve um texto à la Folha de S. Paulo.)

A linha de argumento de Fonteles tenta se respaldar no aspecto social do diploma. Que não é um prêmio ao estudante, e sim uma defesa da sociedade. Diplomas servem para que saibamos que determinado profissional aprendeu o mínimo necessário e não vai nos ferrar. Ou seja, que um médico não vai fazer uma incisão no peito para operar uma apendicite, ou que a casa contruída pelo engenheiro não vai desabar. (A realidade é um pouco diferente, mas aí já são outros quinhentos.)

Acontece que aplicar esse princípio a jornalistas implica atribuir-lhes uma autonomia que não têm e nunca vão ter. A autonomia é do dono do jornal (Assis Chateaubriand a um funcionário: “O senhor quer ter opinião? Monte o seu jornal.”), e depois, em muito menor grau, do editor (cuja posição política é sempre a do dono, ou então ele perde o emprego). Curiosamente, eu não preciso de diploma para montar um jornal. Preciso é de dinheiro.

Finalmente, egressos da “academia” podem cometer o mesmo tipo de bobagem que um jornalista não-formado. Aliás, é lógico supor que ultimamente só formados cometem cagadas. Procure, por exemplo, os diplomas dos responsáveis pelo escândalo da Escola Base, de uns 10 ou 15 anos atrás. Você vai encontrar. Ou — no que considero um mal pior à sociedade — os diplomas dos sacanas que ficam nos empanturrando com notícias sobre a Luma e seu bombeiro cafajeste.

E quer dizer então que profissões que não exigem diploma são “banais”, hein? Suprema humilhação: publicidade não exige. Não vamos mais conseguir dormir à noite depois dessa constatação: somos banais. Nem o consolo de sabermos que elegemos presidentes nos restituirá o sono. Duda Mendonça não é formado em publicidade. Aliás, não é formado em nada. É banal. Pobre Duda.

Há 15 anos, quando o assunto me interessava, eu sempre discutia esse assunto com uma amiga jornalista e sindicalista. Entre outras coisas, ela dizia que a exigência do diploma era uma arma da “categoria” para garantir melhores salários. Outro argumento bobo: não consta que o piso salarial de jornalistas seja exatamente alto. Salários de publicitários banais, por outro lado, são. E não é preciso diploma para o exercício da profissão: basta ter talento. Banal, mas talento.

Segundo a ótica dos sindicalistas, o diploma funcionava como uma espécie de reserva de mercado. Mas hoje em dia, nem isso: as faculdades de jornalismo despejam no mercado, a cada ano, mais gente do que há empregada em redações. É natural que as únicas pessoas que procurem uma redação, hoje, sejam jovens que estão saindo aos montes das faculdades de jornalismo. Não foi a exigência de diploma que levou a isso, foram as leis de mercado. A defesa que o diploma oferecia acabou, porque hoje há mais recém-formados querendo uma vaga do que desocupados querendo uma boquinha há 40 anos.

Acho, inclusive, que a lei prejudicou o jornalismo durante muitos anos. Se antigamente gente com talento e com formação sólida em outras áreas podia acabar indo parar nas redações, melhorando o nível geral de conhecimento, a lei eliminou essa possibilidade. A escolha, hoje, tem que ser feita cedo demais. E a verdade é que muita gente com vocação para jornalista não tem o talento necessário, como em qualquer outra área. Agora isso diminuiu, mas durante muitos anos o nível caiu assustadoramente, e essas restrições foram um dos motivos.

Manter essa lei é um absurdo anacrônico e, hoje, inútil. Mas o Fonteles, que precisa desesperadamente das boas graças da imprensa, continua insistindo. Fazer o quê?

9 thoughts on “A balela do diploma dos jornalistas

  1. realmente qualquer um pode diagramar, eu por um acaso não tenho diploma. conheço ótimos e péssimos com diploma. assim como conheço péssimos de verdade sem diploma. mas enfim… só pra te contar uma coisa. a folha realmente não exige que seus repórteres sejam formados em jornalismo, mas eles tem que ter um diploma de alguma coisa. beijos!!!

  2. Tata, eu tava me referindo às modalidades em que se pode obter o registro profissional de jornalista sem ter o tal diploma, normalmente as gráficas porque os sabidos achavam que jornalistas de verdade eram só aqueles que escreviam.

  3. eu tenho registro de jornalista diagramador e conheço pessoas que têm o de ilustrador, por exemplo. antigamente, eles aceitavam tudo pra reportagem. há alguns anos tanto no globo como no dia, não sei no jb, o registro pra repórter tinha que ser o pleno, ou seja, o do diploma de jornalismo. eu vou ate correr la pra ver se posso transformar o meu em pleno com essa zoeira toda.. rs beijos!

  4. há controvérsias quanto a isso:
    E eu, pessoalmente, acho que é mais importante para um repórter conhecer história e poder analisar os fatos que conta a saber detalhes de diagramação. (E é mais importante para um diagramador ter noções artí­sticas e gráficas sólidas a saber como se escreve um texto à la Folha de S. Paulo.)
    realmente é mais importante mas…. depois eu volto e escrevo mais aqui que me deu dorzinha rs… beijos querido!

  5. Tata… Cá pra nós: é mais importante qualquer coisa a saber escrever os textos da Folha. Aquilo é horroroso. Eu tenho minhas dúvidas sequer se se pode chamar aquilo de texto. 🙂 Eu deveria reescrever o texto: “É melhor (…) à la O Globo ou JB. 🙂

  6. Diploma de Jornalismo?
    Ora bolas.
    Tenho 49 anos e sempre atuei na área de comunicação. Sim, comunicação, pois, quando comecei, nas redações aprendia-se de tudo. Fiz escola de past-up na Folha de São Paulo, com a Lubila. Diagramei jornais para o Shooping News. Trabalhei em vários jornais de bairro, tanto como jornalista, diagramador, contato publicitário, etc. Estes jornais eram verdadeiras escolas de comunicação, pois, para viabilizar a empresa, o cidadão fazia de tudo um pouco.
    Nos anos 73,74,75…já atuava em redações clandestinas, confeccionando jornalecos para os militantes estudantis, como forma de poder pagar um cursinho no antigo Equipe Vestibulares.
    Por problemas financeiros e políticos, fui obrigado a abandonar o sonho de cursar uma faculdade.
    Ao que tudo indica, Rui Barbosa, Castro Alves, Libero Badaró, Hélio Bicudo, e tantos outros, nunca cursaram faculdade de jornalismo e, nem por isso, foram medíocres em suas vivências pelas redações.
    Agora, GUGU, formado pela tão expressiva “Casper Líbero”, os jornalistas do caso “Escola Base”, Luciana Gimenes, Sérgio Mallandro, o medíocre humorista João Kleber (todos diplomados?), e tantos outros, entrevistam, opinam, condenam e absolvem sem ser molestados pelos sindicatos.
    Quando resolverem criar “Faculdades para escritores”, ai sim, estaremos perdidos mesmo.

    Piero Osna
    pieroosna@yahoo.com.br

  7. Tenho recebido muitos e-mails sobre minha opinião a respeito dos Jornalistas Precários.
    Não. Não sou corajoso porque coloquei meu endereço de e-mail no artigo. È que não tenho receio algum desta turma de sindicalistas que nada fazem, a não ser, legislar em causa própria. Pergunto: será que há nos sindicatos algum diretor capaz de ensinar-me a diagramar com medidas de pontos, furos, picas, cíceros…? Algum sindicalista, ou até mesmo membro da FENAJ, seria capaz de ensinar-me como reduzir uma foto para caber no espaço desejado na diagramação? Saberiam como fotografar e retocar (fotolito). Sabem como funciona uma rotativa? Sabem fazer roteiro de distribuição? Tenho certeza que NÃO.
    Já que os Sindicatos e Associações de Jornalistas estão tão preocupados com a reserva de mercado, poderiam, como manda a Lei de Telecomunicação, obrigar as emissoras de Rádio e TV a cumprir essa lei.
    A “tal” Lei de Telecomunicação, obriga as emissoras a produzir programas Jornalísticos, Educativos, de entretenimentos e de bom conteúdo.
    Não me parece que o que vemos nas telinhas e que escutamos no “dial”, segue essa primícia.
    Senão, vejamos.
    Sairiam do ar: Domingão do Faustão, Gugu, Silvio Santos, Luciana Gimenez, Sérgio Mallandro, Luciano Huck, Netinho (que hoje tem o Canal da Gente), Marcio Garcia, BBB, Programas Evangélicos, etc.
    No lugar destes, entrariam programas educativos e jornalísticos. Em contrapartida, os Jornalistas recém-formados e diplomados teriam uma fatia generosa do mercado de trabalho garantida (reserva de mercado).
    Seria mais ou menos como é feito o Canal Universitário. Bons programas, de conteúdo e de grande relevância para a população.
    Restaria saber se o Dr. Drauzio Varella, escritor (Estação Carandiru, Macacos, Nas Ruas do Brás, Por um fio, De Braços para o Alto…), médico oncologista, apresentador de um programa médico que vai ao ar no CNU poderia atuar. Ah! Também deveria ser questionada a participação dos entrevistadores Dr. David Uip, Dr. Adib Jatene, Prof. Pasqualle, Lobão, Rolando Boldrin, Jô Soares, Antônio Abujamra, e outros “NÃO JORNALISTAS”, mas com bagagens inquestionáveis.
    Os Sindicatos, Federação e Associações de Jornalistas, ao que parece, não se preocupam muito com o conteúdo de ensino das Faculdades de Jornalismo que proliferam no país.
    Quando estudante, eu sempre ouvia dizer que “para escrever bem, tem que ser bom leitor”.
    O que se vê é um enorme contingente de formados que todo o ano é despejado no mercado de trabalho, mercado este, muito pequeno para absorver toda essa turma.
    Escritores, Poetas, Compositores, Membros da ABL, Historiadores, etc, seus dias estão contado…
    Segundo o Dicionário Aurélio, “JORNALISTA: PESSOA QUE DIRIGE OU REDIGE UM JORNAL, OU QUE A ELE FORNECE COLABORAÇÃO”.
    Sendo assim, as grandes cabeças pensantes deste país, colaboradores de vários veículos de comunicação, estão a salvos.

    Piero Osna

    pieroosna@yahoo.com.br

  8. VEM AI MAIS ABSURDO

    Após passar por diversas Comissões, o PL 708/2003, de autoria do deputado Pastor Amarildo (PSB/TO), aguarda inclusão na pauta de votações do Senado.

    O PL 708/2003, de autoria do deputado Pastor Amarildo, altera dispositivos do Decreto – Lei nº 972, de 17 de outubro de 1969, que dispõe sobre o exercício da profissão de jornalista.
    Tal Projeto de Lei visa mais uma reserva de mercado aos diplomados, ou seja, dispõe sobre a atividade de assessoria de comunicação.
    Vale lembrar que esta profissão já vem sendo exercida há muito tempo por profissionais de Relações Públicas, Publicidade, Marketing, Jornalismo e tantos outros.
    Elaborar um release é tarefa rotineira para esses profissionais.
    Mas o que é um release?
    Um release nada mais é do que matéria publicitária.
    Release é um aviso, um comunicado, uma notícia que acabou de sair, uma novidade.
    Pode ser um texto divulgando um produto, uma empresa, um artista, uma banda, etc.
    Então estamos falando de um texto publicitário, de um comunicado dirigido a imprensa para que seja divulgado nos meios de comunicação.
    Muitas empresas contam, com um departamento chamado de Comunicação Social.
    ‘Assessoria de Imprensa’ trata da gestão do relacionamento entre uma pessoa física, entidade, empresa, órgão público e a imprensa. No Brasil, os profissionais que desempenham a função de Assessoria de Imprensa costumam ter formação em Jornalismo. Em outros países, a função não é reconhecida como jornalística, e sim como de relações-públicas. A assessoria de imprensa, cada vez mais, faz parte de um conjunto de atividades relacionadas à comunicação organizacional e que pode incluir comunicação interna, relacionamento com clientes, marketing, publicidade, internet.
    Uma Assessoria de Imprensa trabalha para um assessorado, que pode ser um cliente particular ou uma instituição. Empresas, pessoas físicas como “personalidades públicas”, médicos, advogados, músicos e instituições e organizações como empresas estatais, autarquias, governos, partidos, sindicatos, clubes, ONGs, ou indivíduos, entre outros costumam utilizar serviços de assessoria de imprensa. O interesse pela assessoria, em geral, é determinado pela geração de informações de interesse público. A prioridade de uma assessoria de imprensa é facilitar o trabalho dos jornalistas. Muitas vezes, entretanto (e infelizmente), a maior preocupação está em dar visibilidade aos clientes.
    Assessoria de Comunicação é uma atividade de Comunicação Social que estabelece uma ligação entre uma entidade (indivíduo ou instituição) e o público (a sociedade exposta à mídia). Em outras palavras, Assessoria de Comunicação é administração de informação.
    Os potenciais clientes das Assessorias de Comunicação podem ser empresas privadas, estatais, autarquias, governos, partidos, sindicatos, clubes, ONGs, ou indivíduos, entre outros.
    Há ainda outras atividades relacionadas a Assessoria de Comunicação que, no entanto, não devem ser confundidas por terem outras especificidades: Marketing, Endomarketing, Webmarketing, Marketing de Permissão, Comunicação Interna, Comunicação Empresarial, Jornalismo Empresarial, Pesquisa de Mercado, Auditoria de Imagem, Marketing cultural, político, educacional, esportivo, rural, de responsabilidade social.
    Se o Jornalista é contratado por determinada empresa para que preste Assessoria de Imprensa, este, muito provavelmente, terá de renegar todo o aprendizado obtido nos bancos escolares, pois, irá prestar um serviço de interesse único de quem o contratou. Não poderá, de forma alguma, falar mal de seu assessorado (pessoa física ou jurídica, produtos, etc).
    Ademais, com a desculpa de lutar pela reserva de mercado, os Sindicatos da classe, bem como a FENAJ, esquecem que irão invadir um espaço também reservado a uma classe de profissionais que “ESTUDARAM PARA ISSO”: Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Marketing, etc.
    Como disse o Sr. João Alberto Iaehez, presidente do Conselho Federal de Profissionais de Relações-Públicas (Conferp), “consideramos que o projeto de lei é um atentado às liberdades de diversas formas”. “O jornalista tem o direito de lutar para mudar suas leis, mas não dessa forma. Não é só o jornalista que tem que ter liberdade de expressão. Vamos viver uma ditadura do texto”, afirmou.
    Iaehez aponta também que os jornalistas já possuem diversas regalias previstas em lei, para que possam exercer seu papel de transmissor de informações. “Agora, eles não podem trazer para a iniciativa privada as mesmas regalias que valem para as redações, não podem querer trabalhar seis horas num ambiente que exige oito. Então, se quiserem trabalhar com comunicação corporativa, que abram mão de seus direitos como jornalista. É uma concorrência desleal”, argumenta.

  9. Rafael,
    atualmente concordo com sua opinião. Não é necessário diploma de jornalismo para atuar como jornalista, apesar de cursar o 8° período de comunicação/jornalismo. Só queria fazer um adendo, sobre a queda de qualidade da informação publicada, isso pode ser explicado de diversas maneiras. O ritmo acelerado de produção junto com o enxugamento das redações são as causas mais aceitas, mas é claro que a desatualização do jornalista moderno deve ser um fator relevante. Assim, tem-se um caldeirão pronto para explodir. Jornalista despreparados, tendo que produzir um número muito maior de informações que era produzido anos atrás, e sob a guilhotina de um deadline cada vez mais cruel e curto.
    Isso é tudo pessoal.

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