Fodêreis

Eu gosto de palavras. Gosto do seu som, de seu significado, gosto de conhecer suas origens. Às vezes me perco na esquisitice de algumas, às vezes me encanto com a beleza de outras. Palavras têm vida, é só você querer dar alguma a elas.

Diante de algumas rio como uma criança diante de seu primeiro palavrão. E uma delas é exatamente isso, um palavrão: foder, do latim futere, “ter relações com uma mulher” segundo o Houaiss, com primeiro uso na língua datando do século XIII. Fode-se há muito tempo em terras d’além Tejo.

Não são os usos comuns da palavra, aqueles do dia a dia, que me fazem voltar à infância. É quando envereda pelo erudito, verbo regular e completo que é, que o foder adquire uma aparência de farsa diante da qual é impossível não rir. É engraçado imaginar a segunda do plural no pretérito mais-que-perfeito: fodêreis. Eu juro, nunca ouvi alguém falar essa palavra; na verdade, nem mesmo no presente do indicativo essa pessoa tem vez: fodeis. Ou no pretérito imperfeito, o único passado que realmente existe: fodíeis.

Elas me fazem rir pela incompatibilidade que parece existir, nos meus horizontes limitados, entre um palavrão e suas aplicações na língua culta.

É, foder é um verbo regular, o que está em nítido contraste com a sua natureza. Por definição não pode ser assim, previsível, certinho, porque ao se tornar cotidiano se transforma em mera manutenção, rotina de casais que se conhecem bem demais para ver alguma novidade nos corpos uns dos outros.

Mas a palavra tem uma força insuspeita. Se em sua origem patrícia, rodeada de cônsules e centuriões, era nitidamente homofóbica — é explícita a referência a “ter relações com uma mulher”, pelo menos no Houaiss –, sua força não podia ser contida por convenções sociais preconceituosas, e já no final do século XIV ela estendia sua universalidade ao mundo do amor que não ousa dizer seu nome, dando origem a fodidincul, que significa “pederasta passivo”.

O foder é democrático, popular, não tem preconceitos. Fodem os ricos, fodem-se os pobres. O foder parece dizer a todos: “Eu sou assim. E quem não gostar, foda-se”.

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