Todas as mulheres do mundo

Fui parar por acaso numa página da Cinemateca Brasileira que mostra algumas listas de 10 melhores filmes brasileiros ao longo dos tempos.

Eu gosto de listinhas (até já fiz a minha, devidamente desancada pelo Bia). Mas não poderia fazer uma lista dos melhores filmes brasileiros simplesmente por não ter visto muita coisa.

Por exemplo, de um dos preferidos de todos, “Limite”, de Mário Peixoto, só vi algumas cenas rápidas (e, sinceramente, do que vi não gostei). “Ganga Bruta”, de Humberto Mauro, nem isso. “Rio 40 Graus” vi há muito, muito tempo.

Mesmo assim, mesmo sem ter moral suficiente para criticar essas escolhas, eu discordo de quase todas. Falta um filme nelas.

As listas incluídas na página da Cinemateca têm uma característica interessante: sempre incluem um filme recente. É por isso que a lista de 1980 inclui “Tudo Bem”, do Jabor, e a de 1988 inclui “Memórias do Cárcere”.

É a única razão para “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira, com Leila Diniz e Paulo José, ser incluído na lista de 1968, e somente nela.

“Todas as Mulheres do Mundo” é certamente um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Enquanto “O Cangaceiro”, por exemplo, tenta recriar — magistralmente, a propósito, apesar dos péssimos atores e dos diálogos forçados — a estética do faroeste americano a partir do ciclo do cangaço, e “Limite”, pelo pouco que vi, é pouco mais que uma experiência hermética nesse sentido, o filme de Domingos de Oliveira é simplesmente uma história cotidiana deliciosamente contada. É brilhantemente carioca, doce sem ser piegas — Domingos de Oliveira jamais fez algo melhor. É, principalmente, um daqueles filmes que parecem despretensiosamente simples, que se tornam “brasileiros” justamente por não pretenderem fazer de sua nacionalidade um cavalo de batalha. É um filme carioca, muito mais que os “Rio Babilônia” da vida, mas poderia ser ambientado em qualquer lugar do mundo.

Provavelmente é essa a razão para o filme ser tão subestimado. Ele é deliberadamente simples em um meio em que a pretensão é condição sine qua non para que se conquiste respeito. Talvez, se o título fosse “Toda a Problemática das Mulheres do Terceiro Mundo”, o filme tivesse melhor sorte nessa história contada por poucos.

Também acho que “O Pagador de Promessas” lá atrás é um desrespeito a um dos mais brilhantes filmes já feitos no Brasil. Ao menos melhor que “Terra em Transe” ele é.

3 thoughts on “Todas as mulheres do mundo

  1. Vixe, você escreve muito, rapaz! Ainda não consegui ler tudo o que você postou recentemente, até porque o Alexandre Cruz Almeida também está aloprando na velocidade de posts novos.

    Dá uma passada lá no Velho do Farol, coloquei umas fotos daquele desfile maluco do Jum Nakao no São Paulo Fashion Week.

    Desculpe o jabá. Depois eu comento os outros posts.

  2. sacanagem falar que desanquei tua lista! puta lista! falei que é meio conservadora e talz – mas é ótima sim, undoubt. escuta: viste DOGVILLE? rapas, vi ontem e estou INACREDITÁVEL até agora! um dos mais importantes filmes da nossa ERA. depois falo dos filmes brazucas! ;>)

  3. Noite Vazia é um porre. Acho Terra em Transe melhor que O Pagador – que é muito formal, digamos. Nesse sentido, de inovação e tudo, o melhor é mesmo O Bandido da Luz Vermelha. É o nosso Cidadão Kane, com metalinguagem e tudo, vai dizer? Na lista eles podiam utilizar um dos PRINCÍPIOS HORNBY que impediria de ter dois filmes do mesmo diretor. Aí podia entrar o Todas as Mulheres do Mundo. ;>)

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