Lazio's last flower

Post n’O Biscoito Fino e a Massa, comentário no Liberal Libertário Libertino, e o assunto — que eu pensava que tinha sido esquecido e engavetado na seção “Leis que não pegaram” — volta à baila: o projeto de lei do hoje ministro Aldo Rebelo em defesa do idioma português.

Eu já ri muito do projeto, aqui, ali, e acolá. Mas o tempo passou e eu descobri alguns pontos curiosos.

Até terça-feira eu não tinha lido o projeto. Li seguindo um link no blog do Idelber.

Como está escrito é um primor de idiotice. É burro, mal escrito, faz ameaças que não pode cumprir, é contraditório. Algumas pérolas se destacam. O projeto reitera itens que já estão na constituição, entre outras bobagens e perda de tempo. Nem mesmo prevê punições.

Mas segundo um assessor do ministro, o verdadeiro objetivo do projeto era obrigar o Estado a controlar o uso do idioma português pelo seu próprio aparato. Ele deu um exemplo muito bom. O site do Banco do Brasil era repleto de expressões estrangeiras, como é comum no jargão bancário. Logo depois que a lei passou, o site apareceu escrito em português cristalino.

A questão: se havia palavras em português, por que um órgão do Estado tem que usar palavras inglesas? Não faz sentido.

Eu uso as palavras que quiser, e é esse problema da lei, querer controlar o que não pode. Mas até prova em contrário, a língua oficial deste país é o português. Espera-se que o governo redija seus documentos oficiais nessa língua. Foi isso o que me explicaram (estavam errados e condescendentes demais com uma lei estúpida), e é esse espírito que defendo.

Dizer que o Estado não deve se imiscuir nesses assuntos é só parcialmente verdade, como é também dizer que os EUA não estão preocupados com isso. Não estão agora, depois de terem obrigado seus índios a falarem o inglês, e de estabelecer com ministérios da educação de todo o mundo programas de divulgação da sua própria língua, e sentados confortavelmente sobre seu domínio econômico.

Há uns 15 anos, todos os lançamentos imobiliários em Salvador tinham nomes em inglês. Por exemplo, se o edifício ficava na 8 de Dezembro, uma ladeira na Graça, o prédio se chamaria Grace Hills (eu sei porque quem deu esse nome fui eu, um em uma lista imensa fornecida à construtora).

Aí podem alegar: poxa, deixe que a sociedade resolve. Mas isso não existe, é papo de liberal ingênuo. Porque a função do Estado é mediar conflitos, e sem ele manda quem pode: a construtora botava o nome que queria, mexendo de maneira definitiva no ordenamento urbano porque seus executivos, imersos no típico mundo colonizado das classes médias brasileiras, achavam esses nomes chiques; e o povo tinha que engolir — até porque está pouco se lixando: nego procura é o melhor apartamento que puder pagar, se chame ele Pumpkin ou Jerimum. Em vários casos, o discurso que busca uma analogia com as leis de mercado apenas mascara a imposição de uma classe imbecil que prefere dizer 50% off em vez de 50% de desconto, porque o off lhes faz sentir que estão em Caipirópolis — perdão, Miami.

A Câmara dos Vereadores acabou aprovando uma lei (e não, não foi iniciativa de um stalinista qualquer, foi de um bom e velho capitalista, mesmo) proibindo isso, por causa dos excessos a que chegaram. E o mais interessante é que em Aracaju, onde não houve lei semelhante mas se comporta como quintal de Salvador, os edifícios hoje são batizados de maneira bem mais sensata.

Moral: é a sociedade quem resolve o que fazer. Mas de vez em quando uma intervenção do Estado pode ser providencial.

No fim das contas, essa é uma discussão legal para a classe média, e só para ela. Porque o povo não está nem aí, ele que nem português sabe, quanto mais inglês. Enquanto a classe média, orgulhosa por freqüentar as casas de muamba de Miami, se irrita além do necessário (quantas pessoas, como eu, xingaram o projeto sem o ter lido?), a patuléia está que nem aquele português da piada, que não aprendeu o novo idioma e esqueceu o antigo.

Dois exemplos: montei uma agência, há muito tempo, e batizei como Zoo. Sem acento por questões de aparência gráfica; obviamente, todo mundo chamava a agência de Zu. Outra: minha filha chega para mim e diz: papai, sabe como se escreve Coragem [para quem não lembra, o Cão Covarde]? C-o-u-r-a-g-e.

O nível de leitura da minha filha é basicamente o mesmo de milhões de adultos brasileiros. E é por isso que, pelo menos em seus aparelhos, o Estado tem a obrigação de defender sua língua.

***

Há alguns meses, fui a uma recepção em que estava o Aldo Rebelo. Ele obviamente não tinha lido este blog, mas em conversas com seus correligionários eu não fazia questão de esconder que achava o projeto uma palhaçada. Na verdade, meu passatempo com o pessoal do PCdoB é dizer que estou esperando eles se tornarem sociais-democratas como eu, que sou a vanguarda do marxismo internacional e um dia eles vão perceber isso e erigir uma estátua para mim. Eu já tinha enchido tanto o saco do pessoal que era bem capaz que eles me dedurassem. Dei um jeito de me esconder do Aldo (claro, não estava preocupado comigo, nem sabia que eu existia, mas por que arriscar?), porque minha coragem não vai a tanto. E os salgadinhos, rapaz, estavam muito bons.

5 thoughts on “Lazio's last flower

  1. Soh acrescentando algo interessante a esses problemas de “anglicismo”… Minha experiencia, ok? Como diz a Monica, vou sentar no divan… Aqui na Coreia, boa parte das palavras q vemos nos letreiros ou pelas ruas estah em ingles – mas escrita utilizando os caracteres coreanos, portanto ilegivel para os q efetivamente sabem apenas o ingles, os estrangeiros… Nao deixa de ser uma visao distorcida do problema, pq a linguagem escrita coreana estah mantida, mas a oral vai se perdendo.
    Moral da historia: se vier para a Coreia, aprenda a LER coreano pelo menos. O resto vc se vira.

  2. Lucia, interessantíssimo isso que você contou sobre a Coréia. Começando a ler seu comentário, imaginei: ah, eles fazem isso para facilitar a vida dos estrangeiros. Que surpresa quando terminei de ler! Como se trata de uma língua em que até os caracteres são diferentes dos ocidentais, uma situação assim acaba sendo um exemplo incrível de como um outro idioma acaba sendo absorvido por certos povos. Pena aqui usarmos o A-B-C-D. Eu fico me roendo de curiosidade, tentando imaginar como seria por aqui se usássemos outro alfabeto.

  3. Ah, o meu lamento pelo nosso A-B-C-D só tem a ver com minha curiosidade. Eu adoro a Língua Portuguesa. Mas, de qualquer forma, é meio besta falar sobre a própria língua. Não existe distanciamento, né? A não ser, talvez, para alguém que seja fluentíssimo em outras. Sei lá. No fundo não faço idéia.

    Moral: é a sociedade quem resolve o que fazer. Mas de vez em quando uma intervenção do Estado pode ser providencial.

    Sobre esse trecho do texto, Rafa, tenho certos questionamentos, ou melhor, não consigo ter assim não é um daqueles em que o negócio é deixar o pau quebrar? Essa intervenção, eu acho, funcionaria mais se fosse feita através de melhorias no ensino, e não impondo que os nomes dos edifícios sejam assim ou assado. Já pensou se esse tipo de coisa é levado às últimas conseqüências? Os pais não poderiam mais colocar nos filhos nomes como Mary e o próprio Grace que você citou no caso do edifício. Se bem que os nomes que certos pais cometem pra cima dos filhos são, ai, uma covardia. Bom, vou ler aqui o projeto. Eu tenho mania de dar palpite antes de conhecer as coisas. 😉 Mas… vem cá. Sem querer provocar, Grace Hills? Eu prefiro o nome do meu predinho: Edifício Bem-te-vi, localizado no condomínio (melhor seria falar em conjunto habitacional, pois condomínio virou nome de coisa chique) Morada dos Pássaros. E o nome cai bem mesmo. É um verdadeiro pombal isto aqui.

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