O fisiologismo somos nós

O resultado da enquete do início da semana não me surpreendeu. Eu imaginava que a maioria estaria dividida entre o voto nulo e Lula (a única surpresa foi a aparição de Heloísa Helena; mas essa eu também considero voto nulo).

Sem nenhuma credibilidade científica, essa enquente serve, de certa forma, para que se tenha uma visão do que anda pensando a classe média. E parece simples: ela está decepcionada com Lula, mas ao mesmo tempo não consegue ver muita diferença entre as alternativas existentes.

É aí que está uma das duas conclusões, se é que alguma pode ser tirada, dessa enquete: mesmo decepcionando seus eleitores, e mesmo sem conseguir agradar aqueles que não votaram nele, Lula ainda é o candidato da classe média identificada com a esquerda. Nesse setor a força de Lula está no fato de, ainda que tenha feito o que identificam como uma guinada à direita, à sua esquerda existir um vácuo que o PSOL e o PSTU não conseguem ocupar, pelo arcaísmo e sectarismo de suas posições.

Se eu fosse fazer uma previsão, diria que boa parte dos indecisos, e até alguns que esperam votar nulo, devem acabar votando em Lula. A não ser que no último debate presidencial pela TV ele dê um tiro em seu oponente, é praticamente impossível que ele perca a eleição. Mas isso importa pouco. Não é a classe média que elege presidentes. Por outro lado, seus adversários não estão mortos. A taxa de rejeição do Serra, 37%, não significa muita coisa. São apenas os seus primeiros seis meses de governo. Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte; o que parece improvável, apenas, é que a ponte caia.

Mas o comentário que mais me chamou a atenção, por colocar as coisas no devido lugar, foi o do Fred Silva.

Costumamos nos preocupar com a eleição presidencial a partir da posse. Enquanto isso, deixamos passar as eleições proporcionais. Em uma situação como esta, em que as provabilidades de reeleição são enormes, estamos perdendo uma oportunidade de avaliar com mais atenção os candidatos à Câmara e ao Senado.

Pode ser ingenuidade minha, mas acredito que nenhum presidente, se pudesse escolher, gostaria de entrar nos jogos de troca tão a gosto do Congresso. O Congresso é o melhor retrato da sociedade brasileira, é a mais perfeita representação dos nossos conflitos de interesses. E isso pode se dar de maneira honesta, através da ocupação legítima de espaços políticos, ou a forma abjeta materializada no mais baixo fisiologismo. E essa escolha é nossa.

Somos nós que elegemos os Ildebrandos Pascoais e depois reclamamos que o governo é obrigado a ceder aqui e ali. Esquecemos que fomos nós que demos o poder a eles. O fisiologismo somos nós.

(Vale a pena ler os posts, sobre o mesmo assunto, do Rei Açúcar (que, repito, é uma grande novidade), do Me, Myself and I e do Uivemos!.)

11 thoughts on “O fisiologismo somos nós

  1. Disse-o bem: “O Congresso é o melhor retrato da sociedade brasileira, é a mais perfeita representação dos nossos conflitos de interesses.” O duro é descobrir(-nos) extremamente fisiologistas. Um corolário dessa reflexão é eleger você presidente. Com uma filha menor e ex-mulher, creio que teria poucas chances de ocupar todos os cargos com parentes.
    …Só espero que você não esqueça os amigos. 🙂
    Ciao

  2. Ao ver o fisiologismo do governo Lula, e as reiteradas justificativas de que seria a única forma de encaminhar as matérias de interesse do governo, acaba “absolvido” o Fernando Henrique por ter feito a mesma coisa.

    Seria preciso bastante arrojo pra quebrar esse tipo de relação dentro de um clima realmente democrático — por isso ainda acho melhor essa relação que um caudilhismo à Hugo Chávez…

  3. Justifica-se o fisiologismo pela governabilidade. No entanto, sendo que a grande maioria das leis sancionadas são originadas pelo Executivo (MPs e matérias orçamentárias) e a agenda de votações na Câmara é quase determinada pelas vontades do presidente, é no mínimo intrigante essa distribuição desenfreada de cargos. Creio que uma das grandes inexperiências do atual governo se reflete na dificuldade de realmente assumir o poder, como os outros presidentes o fizeram nesse último período democrático brasileiro.
    Obrigada pela referência, Rafael. Acho que precisamos “pipocar” essa discussão por aí.
    Abraço.

  4. Putz…
    Pior que ultimamente eu tenho preferido o caudilhismo do Hugo Chavez às torpezas dos “representantes do povo” brasileiros que precisam ganhar um mapa para saber onde que o país fica. Preferiria que o Lula batesse com o pau na mesa e desse uma guinada à esquerda do que ficar se sujeitando à negociata fisiológica de cargos e otras cositas de sempre.

  5. Já procurei no “Aurélio” , “Houaiss”, etc…,mandei e-mail para o jornal “Folha de S.Paulo” – e não consigo entender o siginificado do uso da palavra : FISIOLOGISMO ( em política).
    Poderia ajudar-me ?
    Antecipadamente agradeço.

    Silvia Erbolato.

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