Os fidalgos tupinambás

Um velho post do Alexandre sobre nosso egocentrismo é interessante. Concordo com a definição da nossa auto-estima. A gente se acha a última jaboticaba do deserto.

É quando o Alex reclama da nossa mania de “achar a nossa identidade” que as divergências começam.

Fazer comparações com os alemães e franceses é bobagem. Os sujeitos têm dois mil anos de história nas costas — nem um pouco plácida, por sinal — para terem ultrapassado essa fase, ainda que por cansaço. Eles não precisam discutir quem são porque se formaram aos poucos, com culturas semelhantes e que foram se adaptando umas às outras, ao longo de séculos. Mesmo que a Alemanha, como Estado Nacional, exista há menos de 150 anos, ninguém em sã consciência vai conseguir encontrar uma diferença significativa entre a cultura prussiana e a bávara.

Do outro lado, aqui está o Brasil, pouco mais de 400 anos de história (alguém leva a sério os primeiros 100?). Seus escravos foram libertados há pouco mais de 100 anos, até hoje a situação jurídica de seus índios é polêmica. Pior: uma parte importante de sua cultura, principalmente em seu maior centro, foi formada no último século, com uma influência descomunal de italianos e, em menor medida, japoneses. Sem falar nos alemães do sul.

Mas mesmo quando compara os brasileiros com outras culturas que conhece o Alex está exagerando, até porque seria duro bater os americanos nesse quesito — e ele sabe disso. Não se pode esquecer, inclusive, que os ianques têm algumas vantagens a mais — colonização do seu núcleo original feita de maneira razoavelmente uniforme, um sistema político revolucionário e extremamente sólido desde a sua emancipação, um processo de construção nacional traumático mas eficiente a partir de 1860.

Mas mesmo assim os Estados Unidos ainda estão mais ou menos na mesma situação dos brasileiros sem-noção. Os livros sobre os founding fathers abundam, às vezes com trocadilho, e cada geração faz questão de dar uma interpretação diferente, geralmente antagônica à anterior. Washington, Jefferson e Madison passam, a cada 20 anos, de santos a filhos da puta, e vice-versa. A escravidão continua sendo debatida, ainda tentam entender a questão índia. E eles fazem isso não porque são hiper-potência ou porque são provincianos: fazem porque ainda não tiveram tempo de deglutir a sua história.

Talvez o ponto central da argumentação do Alex seja um reconhecimento da maneira como aconteceu o modernismo no Brasil.

Se devemos algo — melhor dizendo, se os paulistas devem algo — ao futurismo italiano, nao dá para negar que o principal aspecto do modernismo no Brasil é justamente a busca da identidade nacional, porque era essa a resposta que aquela geração tinha que dar. É diferente do que aconteceu na maior parte da Europa, muito mais preocupada com aspectos da consciência e do tempo, além, claro, das questões formais da arte. (Analogamente, o futurismo italiano dizia mais respeito à necessidade de assimilar a unificação nacional, à qual aquela bobajada de Marinetti oferece uma resposta ao mesmo tempo que reconhece seu condicionamento por ela.)

De certo modo, a opinião mainardiana do Alex sobre nossa mania apenas ressalta o outro ponto de sua argumentação: a de que ele, como todos nós bons brasileiros, quer sempre mais deste pequeno país simpático.

7 thoughts on “Os fidalgos tupinambás

  1. A questão é mais sociocultural que outra coisa.
    Os Yankees ainda não tiveram tempo de deglutir a sua história mas são superpotência também porque tiveram método de colonização diverso do tupiniquim.
    Os amarelos foram literalmente “explodidos” na 2ª guerra e voltaram como potência mundial em menos de 50 anos. Tiveram tempo pra tal? Cultura milenar. Tiveram tempo antes; tinham raiz.
    A opinião do Alex é mainardiana; O país é bem simpático; mas depois dos desterros e da miscigenação sobrou foi muita indolência.

  2. Eu só queria que alguém me convencesse que essa tal “identidade” deva ser realmente encontrada, se é que ela exista de verdade. Para quê? A troco de quê? Nossa identidade, seja ela extremamente heterogênea ou não, serve para quê? Creio que identidade, no caso de um povo, esteja mais relacionado não com raízes, mas com o presente do que com o passado, aliás, coisa que nos falta e muito. A pergunta deveria ser: “quem somos e para onde iremos”, e não “de onde viemos e porque e como chegamos”.

  3. Rafa, concordo, em parte, c o Fernando Henrique: identidade n existe. É um processo. Está em construção. Como achar o q n está acabado?
    Beijo, querido!

  4. Rafael, desculpe a intromissão, mas segundo me lembro, Goethe tinha um declarado complexo de inferioridade pela juventude da cultura alemã em relação à francesa, à italiana e até à inglesa, e boa parte de seu esforço intelectual foi dirigido à construção de uma identidade germânica, no qual foi sucedido por vários, dos quais se destaca Wagner e sua temática mitológica. Construindo nossa identidade cultural também somos universais. Ah, muito bom o poste do Fantasma e Surfista Prateado.

  5. Quando se fala em modernismo brasileiro (o primeiro momento) é sempre um tanto constrangedor, porque, em 22, Eliot lançava Waste Land, Joyce, o Ulysses, e Rilke, as Elegias. Por outro lado, não havia, como vc disse, contexto para outro assunto, no Brasil, que não o da identidade nacional, já que as idéias mirabolantes cientificistas do século XIX tinham caído por terra. O que é lamentável é que, a partir dessa necessidade de se discutir a identidade nacional, Oswald de Andrade tenha se sentido no direito de escrever aqueles poemetos ridículos.

    Abraço.

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