Os filhotes de Bento XVI

Ih, rapaz, o Pedro Sette Câmara se doeu com o último post.

Num blog chamado “O Indíviduo“, que emana um certo cheiro de Olavo de Carvalho e tem como epígrafe uma frase do papa Bento XVI, o sujeito começa dizendo que eu sou feio — se é que entendi bem a ironia, porque nunca se sabe se ele está falando sério ou não.

E, poxa, essa me baqueou. No fundo do coração. Porque o Pedro não sabe, mas essa foto aí em cima é a melhorzinha que eu tenho. Tenho outras ainda mais feias. Isso dói, meu filho; o padre devia ter te ensinado a não magoar as pessoas assim. Vou bater a cabeça na parede assim que acabar de escrever isto aqui. Na verdade, só estou respondendo ao seu post por causa disso.

Mas vamos lá.

O melhor mesmo é o adjetivo que o Pedro usa mais abaixo para definir a minha atitude: “mentalidade mimada”. É prima da “superioridade” que ele julga, talvez freudianamente, ver em nós ímpios. Argumento fácil, bobo, que tenta transferir para nós, depravados sem fé, uma noção que na verdade é deles. São eles que julgam que a sua fé nos ditos da Igreja os tornam superiores a essas tentações carnais do demônio, e são eles que pregam soluções imbecis como a “abstinência” em detrimento de medidas preventivas como o incentivo ao uso da camisinha. Pior: dão à camisinha um poder que ela não tem. É nessa tergiversação e nessa inversão da realidade que o proselitismo desses desvairados traz problemas.

O post do Pedro me deixa com um problema nas mãos porque, como disse nos comentários ao post anterior, eu não discuto seriamente com esse pessoal. Não discuto porque é lhes dar uma legitimidade intelectual que eles não têm; não discuto porque, em seu proselitismo fanático, eles tentam impor ao mundo uma visão irreal e prejudicial. Não por ignorância, mas por obscurantismo. Há 400 anos, era esse pessoal que fazia Galileu voltar atrás e dizer que o sol girava em volta da terra, porque se o Homem era o centro da Criação era assim que as coisas tinham que ser. Sua postura atual contra o uso de preservativos é só a versão recauchutada — e, graças a Deus, menos poderosa.

Traduzindo: eu não discuto a sério porque não reconheço inteligência nos seus argumentos. Mais que isso, eu os acho absolutamente nocivos: misturam questões de saúde pública com uma noção específica e inalcançável do mundo que só diz respeito a eles.

Esse tipo de militante religioso é deletério por ser obtuso e por querer tornar sua obtusidade universal.

Embora reconheça ingenuidade no Bruno, ele basicamente repete os mesmos argumentos. Tem o cuidado de citar sua namorada, coitada, que não tem nada a ver com a história, talvez para evitar que eu o chame, também, de “donzelão” (mas me deixa com outras perguntas, também). O que é engraçado, porque se eu sou o “donzelão dos argumentos”, os deles são mais rodados que Maria Madalena; a vida é engraçada. A base deles é a seguinte: “a camisinha incita à promiscuidade”. A única diferença é que o Pedro estrutura sua argumentação de maneira formalmente mais sofisticada, inlusive usando a palavra-mãe de todas as argumentações, “ora”. Pedro, eu acho esses “oras” podres de chiques.

Quanto à citação que o Pedro me acusa de fazer sem saber (Mater et Magister em vez de Mater et Magistra), na verdade não vem da encíclica papal, que nunca li (mas confesso ter tido uma queda impressionante por pornografia na adolescência, Pedro). Vem de uma escola com esse nome. Mas fiz uma busca rápida no Google, e as 12 páginas com resultados que citam a encíclica indiscriminadamente pelos dois nomes talvez ponham um pouco de dúvida na certeza cheia de fé do rapaz. Mas eu é que não vou brigar por esse detalhe, nem tampouco ler tudo isso só para provar que o Pedro fez uma correção errada. Se estou errado, tudo bem. Essa simples página do Vaticano, usando as duas expressões, talvez seja o suficiente para mostrar uma coisa: que eles têm uma tendência a encarar o seu jeito de ver as coisas como o único existente.

P.S.: Pedro, adorei os “sonhos erótico-profanadores”. Ui.

24 thoughts on “Os filhotes de Bento XVI

  1. Caríssimo,

    Bastava perguntar ao dito cujo o que ele acha da “modernidade”.

    Só pelo prazer de vê-lo fazer isso tendo de recorrer a ela própria.

  2. Seria oportuna uma visita à Africa onde a igreja vem fazendo um otimo trabalho de disseminaçao da Aids, impedindo a distribuiçao de camisinhas. Mas me parece que uma nova era de obscurantismo já começou. Sempre que mudanças radicais nas relações sociais e de produção ocorrem, os pobres que se sentem perdidos e não aceitam as dúvidas naturais frente ao novo se refugiam no fechamento intelectual e uma das armas recorrentes é a repressão da sexualidade. Já pensou o que é viver com medo do próprio pinto? Horror!
    Pra finalizar Rafael, acho você um gato.

  3. Mimado você não me pareceu ser mas desoriginal sim. Estruturou seu texto todo,num argumento que leu nas páginas amarelas da veja. Precisamente na de Richard Dawkins.
    De intelectual tu não tem nada mesmo. É melhor fugir covardamente do debate como você tem feito. Pois se entrar levará uma surra feia.

  4. Thiaguinho,

    Eu até basearia orgulhosamente os argumentos no Dawkins, se tivesse lido a tal entrevista e se gostasse de literatura científica.

    Não acho que tenha dito aqui nada que não seja propriedade do senso comum nem vi, aqui, nenhuma tentativa séria de argumentação, além de noções tão óbvias que chegam a ser vergonhosas que ainda sejam contestadas sem sucesso por vocês. O que só mostra 2 coisas:

    1 – Vocês têm o Dawkins em alta conta, talvez porque ele lhes exponha a um certo ridículo. E vocês estão tão desesperados por um debate que lhes confira alguma seriedade que promovem este post a algo sério. Eu, hein. Não se pode mais nem debochar de papa-hóstias em paz.

    2 – Isso é TUDO o que vocês sabem? Olha, fora das cartilhas da igreja e um ou dois filósofos carolas (filosofia já é um saco; beata, então…) tem mais coisa nesse mundo.

    Desculpe. Não há discussão com vocês. Vai se confessar que amanhã é dia de missa, e depois a gente se fala.

  5. Rafael,

    Não dá para levar a sério um sujeito que defende a Igreja Católica ao mesmo tempo em que utiliza a Astrologia para, entre coisas, saber se um determinado filme estará disponível ou não na locadora (não é brincadeira!).

    Sem entrar nos méritos da Astrologia (afinal de contas, cada um acredita no que quiser), o Catecismo da ICAR afima expressamente que “todas as formas de divinação devem ser rejeitadas”. Afinal de contas, o primeiro mandamento já diz que “não terás outro Deus que não Eu”, ou algo parecido.

    Mas esse é apenas mais um exemplo dentre os vários que vemos no dia-a-dia, de supostos Católicos que pregam o “façam o que digo, mas não o que faço”…

  6. Rafael,

    você é MUITO ingênuo! Dizer que eles promoveram teu post a algo sério porque tão desesperados por uma discussão é foda! Na verdade, você caiu na armadilha deles, já que o texto do Pedro na verdade é humorístico, um conto a la cocadaboa. Eles é que tão tirando onda contigo e você achou que eles falam sério.

    Só pode ser isso, porque eu tô rindo até agora com os argumentos do indivíduo. Eu gosto de ler essas coisas surreais.

    Antes que eu esqueça, que deus se compadeça da sua alma.

  7. Tsc. Esses religiosos são muito tarados. Quando vêem camisinha só pensam em sexo??? Pois saibam eles que camisinhas dão ótimos balões. Pegajosos e especialmente difíceis de fechar, o que ironicamente os torna mais divertidos.

  8. Entre insultos ao Bruno, deboches ao Catolicismo e afetações de superioridade aos argumentos do Pedro e do Bruno, você até agora não demonstrou os motivos deles dois estarem errados. O máximo que conseguiu foi humilhar publicamente uma pessoa, fugir das palavras da outra e insultar a fé não só deles dois, como a de milhões de pessoas. Tivesse você, mudando aquilo que deve ser mudado, insultado nesse tom gays ou pretos, não seria nenhum pouco absurdo imaginar alguém movendo um processo contra ti. Mas parece que você não liga muito quando o insultado é católico, havendo ameaça ou não de processo.

    Por que você não argumenta que nem um sujeito responsável, ao invés de, acusando os católicos de se acharem superiores, afetar um desprezo enorme ante o que duas simples pessoas disseram? Que nariz empinado é esse? Você virou realmente o Donzelão da inteligência e dos argumentos, não ousando sujar as patinhas no lodaçal? É um sujeito bem casto, se for desse modo, o que suponho não ser verdade, pelo modo com que lidou com uma simples discordância de opinião.

    Da mesma forma, todos aqueles que te aplaudem pela tua conduta compartilham os teus erros, sendo aplicado a eles tudo o que estou dizendo para ti, que nunca vi mais gordo.

    É tão difícil discordar das pessoas no tom que estou usando contigo, demonstrando onde elas erraram? Precisa encarnar o Dr. Freud e analisar a vida sexual das pessoas, como um perfeito imbecil? Por que é mania de todo idiota, aliás, se imaginar um dr. Freud em pessoa e passar a analisar a mente de alguém? Perceba bem que estou sendo muito educado contigo, dadas as permissões que você se deu no instante que humilhou o Bruno, que também nunca vi mais gordo e só o conheci pelo que escreveu por aqui. Isso sem contar aos insultos contra o Catolicismo.

    Você deveria não apenas reconhecer para si mesmo que errou, e feio, do início ao fim, como fazer três simples coisas: pedir publicamente desculpas ao Bruno, apenas admitir publicamente que errou quanto ao nome da encíclica “Mater et Magistra” – erro banal, mas que, ao invés disso, você preferiu se esquivar e arrumar uma desculpa esfarrapada que, essa sim, foi ridícula – e, finalmente, explicar, não digo formalmente, mas decentemente e como uma pessoa normal, os motivos do Pedro e do Bruno estarem tão errados e cegos quanto a algo tão óbvio quanto o uso de camisinhas, e você tão certo.

    Sabe, no fundo sei que tudo o que escrevi não vai adiantar nada para te fazer pensar, nem mesmo aos teus amigos. Foi menos para ti que por mim mesmo que me pus a isso. Eu não poderia ficar quieto. No entanto, quem teria mais a lucrar com o que eu disse seria você mesmo, pois eu não ganharei nada, saindo apenas no prejuízo, como gastando tempo num comentário enorme e inútil, além de possivelmente receber de bônus deboches e outros descaramentos, enquanto você poderia consertar teus erros graves e ser uma pessoa mais humilde. Mas enfim, receber insultos ao tratar seriamente alguém que definitivamente não o é parece ser o preço a se pagar por alguns poucos e bem-intencionados. Melhor sofrer que cometer uma injustiça, aliás.

  9. O motivo deles estarem errados? Que tal todas as mortes de aids na África? A Igreja, simplesmente por se recusar a aceitar o fato de que pessoas adultas gostam de fazer sexo, se posiciona contra uma medida barata e eficaz de reduzir drasticamente a tragédia que acontece por lá…

  10. Era só o que faltava: insultos ao catolicismo.
    Quanta comédia!

    “você até agora não demonstrou os motivos deles dois estarem errados” MEU D’US! Onde esse mundo vai parar? Em uma nova Idade Média?

    Definitivamente estas discussões me entristecem só de saber que ainda existem – e muitos – indivíduos cegos diante a doutrina católica.

  11. Quanta besteira, foi escrita e mal interpretada do meu texto. Hoje que eu descobri que o texto que mandei para vários sites, recebeu um único comentário. Esperava que quando isso ocorresse fosse um comentário sério, não uma ironização destas. Mas digo que não me senti humilhado, pois não responderam nada, usaram ironia, “humor” etc.
    Quando escrevi este texto não foi somente centralizado no que a Igreja recomenda, mas na minha vivencia na área de saúde como enfermeiro, nas conseqüências que eu a cada dia vejo nos hospitais, de um sistema pregado pela cultura que a cada dia vem fazendo mais e mais vítimas da aids, logicamente que tenho meu lado religioso, e que não vai de encontro a nenhuma realidade. Não caiam nesta cultura, não pense que sexo seguro e com camisinha, tive um vizinho garantiu que sempre a usou, mas contraiu a aids e morreu. Não era religioso, vivia na prostituição. Se quiserem ver e ouvir a realidade desliguem a televisão e vá em qualquer hospital que tenham portadores de hiv, conversem com eles pergunte sobre o passado, como contraíram a aids, etc. A televisão é fantasiosa e manipuladora. Não sei se o comentarista do meu texto somente quis abusar do texto ou se reflete o pensamento do mesmo. De qualquer forma foi bom tê-lo comentado, uma vez que jamais alguém o tinha feito. Para quem acha que castidade, fidelidade, etc é uma coisa utópica, envio um exemplo real vindo de Uganda um pais subdesenvolvido de África, e que a televisão não mostrou. Por que?

    UGANDA: EXEMPLO BEM SUCEDIDO DE LUTA CONTRA A AIDS

    Uganda é um país que se tornou um exemplo raro de sucesso na luta contra a Aids na África, ao reduzir significativamente a incidência que já foi das mais altas do continente.

    “Se outros países tivessem seguido o exemplo de Uganda, milhões de vidas teriam sido poupadas.”, afirma Rand Stoneburner, ex-epidemiologista da Organização Mundial de Saúde (OMS).

    Enquanto alguns outros países baseiam suas políticas de combate à Aids unicamente em custosas campanhas de distribuição de preservativos, com eficácia duvidosa, Uganda apresenta uma fórmula de sucesso que tem despertado a atenção de especialistas de todo o mundo.

    A revista Seleções Reader’s Digest, por exemplo, em sua edição de Janeiro de 2004, publicou a reportagem “Contra a Aids” mostrando que enquanto a epidemia devasta o sul da África, matando milhões, Uganda está mudando esse panorama. E que é possível, sim, mudar a mentalidade de toda uma nação.

    Seguem alguns trechos dessa reportagem, com alguns trechos sublinados:

    Julius Lukwago e Fiona Kyomugisha têm 24 anos e formam um jovem casal moderno – com uma diferença: são e pretendem continuar virgens até o casamento. É assim que o amor funciona na Uganda de hoje: prudentemente. Motivo? A Aids.

    O vírus HIV está devastando os países vizinhos, no sul da África, onde se estima que 2,4 milhões de pessoas tenham morrido no ano passado e quase 30 milhões estejam infectados. O vírus compromete a produção de alimentos, superlota hospitais, reduz a expectativa de vida e gera milhões de órfãos.

    Em Uganda, no entanto, o índice de mortes e de infecção vem decrescendo. Agindo com cautela, mantendo-se fiéis e recusando-se a lidar com a Aids como uma vergonha pessoal, os ugandenses estão se tratando com uma poderosa e eficiente “vacina social”, segundo Rand Stoneburner, ex-epidemiologista da Organização Mundial de Saúde (OMS).

    “Ela provavelmente é mais potente do que as vacinas biomédicas que os cientistas esperam desenvolver no futuro”, acredita Stoneburner. “Se outros países tivessem seguido o exemplo de Uganda, milhões de vidas teriam sido poupadas.”

    É interessante notar como foi possível mudar o comportamento de grande parte da sociedade ugandense. Com os atuais níveis assustadores de pornografia na sociedade, em geral as pessoas tendem a achar que trata-se de um quadro irreversível.

    A reviravolta é conseqüência de mudanças de comportamento. “O trunfo da abordagem ugandense foi não ter se concentrado apenas nos remédios ocidentais e no uso de preservativos”, diz Edward Green, pesquisador sênior de Harvard e membro do conselho presidencial para a Aids. “Custa muito pouco. E mostra que, com medidas firmes e inteligentes, a Aids pode ser evitada.”

    Quando o presidente Yoweri Museveni subiu ao poder à frente de um exército rebelde, em 1986, herdou um país entorpecido por 15 anos de ditaduras, terror e guerrilha, onde mais de meio milhão de pessoas havia morrido. Os serviços de estradas, energia, água e saúde estavam arruinados.

    Enquanto isso, todo mês, milhares morriam de doenças relacionadas à Aids, como tuberculose e pneumonia. Ainda criança, Fiona Kyomugisha foi ao enterro de cinco parentes vítimas da doença. Embora soubessem que algo estava terrivelmente errado, as pessoas tinham medo de falar.

    “Os médicos me disseram que a doença não tinha cura, mas fiquei aliviado”, lembra Museveni. “A Aids não é tão contagiosa quanto a Sars ou o Ebola. Não se pega no ônibus ou num aperto de mão. A Aids é uma doença de estilo de vida, disseminada principalmente pelo sexo desprotegido. Se as pessoas soubessem disso, poderiam evitá-la. Então batemos os tambores e demos o alarme.”

    O rufar dos tambores – o tradicional sinal de alarme das aldeias – anunciava boletins informativos do rádio e da televisão sobre a Aids várias vezes ao dia, sempre martelando a mensagem: A Aids é transmitida por relações sexuais… Você precisa se proteger… Não vale a pena morrer por sexo.

    O programa de prevenção se resumia a um trinômio: Abstinência, Fidelidade ou Camisinha. Museveni tirou o problema das mãos dos profissionais de saúde e montou uma unidade especial no seu gabinete. Agora batizada de Comissão de Aids de Uganda, a unidade foi a primeira do tipo em todo o mundo. Seus veículos tinham o lema “Voltinhas Zero” pintado na lateral. Criado pelo presidente, significa “fique com seu parceiro”.

    Todos os segmentos da sociedade se envolveram, de equipes esportivas a grupos musicais e curandeiros tradicionais. Ensinavam-se fatos sobre Aids em quase todas as salas de aula. As igrejas lançaram campanhas para convencer os jovens a adiar a experiência sexual.

    “Eu sabia de tudo aos 11 ou 12 anos”, recorda Julius Lukwago. “Aprendi a usar camisinha em seminários de conscientização sobre a Aids na própria aldeia, mas não parecia certo fazer sexo porque nosso medo da doença era muito grande.”

    O resultado dessa franqueza foi extraordinário. “As pessoas acordaram e pararam de se arriscar”, diz Lawrence Marum, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, que trabalhou em Uganda durante a década de 90. “Isso provocou mudanças radicais num lugar fundamental: o quarto.”

    Estudos realizados por diversos especialistas em saúde pública mostraram mudanças dramáticas. Numa escola, o número de meninos com idade entre 13 e 16 anos que faziam sexo despencou de 61% em 1994 para 5% em 2001, enquanto o número de meninas sexualmente ativas caiu de 24% para 2%. “A abstinência é difícil”, admite Fiona Kyomugisha. “Tive várias oportunidades de ter relações sexuais, mas não cedi. Os riscos eram grandes demais.”

    Fidelidade virou norma – A “vacina social” usada por Uganda, além de não ter contra-indicações, produz um efeito benéfico em toda a sociedade, como por exemplo a maior estabilidade do matrimônio. Ao passo que as campanhas de difusão do chamado “sexo seguro” produzem o efeito contrário: erotização da sociedade, aumento das doenças sexualmente transmissíveis, dos casos de gravidez indesejada e dos casos de separação entre os casais por infidelidade. Por essa razão, o exemplo de Uganda desperta sobressaltos naqueles que lucram com o mercado da pornografia.

    Em 1995, pouco mais da metade dos adultos era fiel a seus parceiros, segundo a Pesquisa Demográfica e de Saúde de Uganda. Em 2000/2001, eram fiéis 97% dos homens casados e 88% das mulheres casadas, um pouco menos entre os solteiros. “Dos estudantes que conheço, cerca de três quartos se abstêm ou são fiéis aos parceiros”, garante Julius.

    O número de homens que admitiam ter relações sexuais casuais entre 1989 e 1995 caiu em mais de 50%, segundo o Programa Global de Aids em Genebra. Mesmo grupos sexualmente ativos como jovens soldados ficaram mais cautelosos.

    No começo, como não eram muito acessíveis, os preservativos não tiveram papel fundamental no programa de prevenção ugandense, exceto entre grupos de alto risco, como as prostitutas. “Ouvimos que há apenas uma borracha fina entre nós e a morte de nosso continente”, disse Museveni numa conferência da OMS em 1991. “No entanto, em países como o nosso, a mãe às vezes precisa andar 30 quilômetros para conseguir uma aspirina e dez para encontrar água. Então os problemas práticos de obter e usar camisinhas talvez jamais se resolvam. Os preservativos desempenham um papel importante, mas por si só não bastam.” Com efeito, os países africanos que ofereciam maior acesso aos preservativos, como Botsuana e Zimbábue, têm hoje os índices mais altos de Aids.

    Com o número cada vez maior de pessoas querendo saber se estavam infectadas, um grupo de profissionais de saúde e assistentes sociais criou um serviço de exames na sala de um hospital, em 1990. O Centro de Informações sobre Aids, como foi batizado, logo se tornou uma rede com mais de 80 unidades.

    Nos arredores de Entebe, acompanhei William e Patience [nomes fictícios] quando foram fazer o exame, pelo qual pagaram dois dólares cada um. Durante a meia hora de espera pelo resultado, eles contaram sua história a uma conselheira.

    Eles haviam se conhecido e se apaixonado na igreja, mas se abstiveram de ter relações sexuais porque ambos tinham segredos. William, 23 anos, jardineiro, mantivera relações com algumas mulheres anos antes. Patience,19 anos, empregada doméstica, fora estuprada pelo patrão. Eles mal conseguiam olhar quando o envelope pardo chegou do laboratório. A conselheira leu os documentos. “Os exames dos dois deram negativo”, disse ela. O casal riu de alívio. “Agora podemos ser fiéis com segurança!”, alegrou-se Patience.

    As pessoas infectadas são encaminhadas à Organização de Apoio à Aids, também criada por voluntários, que luta contra o estigma da doença e ajuda os pacientes a viver de forma positiva. Anne Kaddumukasa – funcionária da Organização cujo marido morreu de Aids – afirma: “Quando as pessoas infectadas com o HIV cuidam de outras vítimas da doença, elas vivem mais, permanecem no trabalho, cuidam da família durante mais tempo e ainda ajudam os outros dizendo: ”

    Turmas escolares recebem tablóides mensais gratuitos com títulos como “Papo direto” e “Papo jovem”, que discutem a saúde sexual. Eles se vinculam a programas de rádio transmitidos em cinco línguas. A abordagem é franca.

    Reconhecimento internacional:

    “Nós enfatizamos as opções do trinômio, mas nunca nos esquivamos às perguntas”, garante Betty. “O mais importante é estar aberto e deixar os jovens falar. Tentamos convencê-los de que ter desejo sexual não significa que precisam se apressar em ter relações sexuais.”

    Embora aclamada pelas Nações Unidas como o maior sucesso da África, Uganda ainda tem muitos problemas. Um milhão de pessoas morreram, deixando um milhão de órfãos. O índice de Aids foi reduzido em dois terços, para 5%, mas ainda contrasta com o de 0,3% da Europa Ocidental. Mais de 250 ugandenses são infectados todos os dias.

    Entretanto, a situação é muito pior em outros países do sul da África. Segundo números do Programa de Aids da ONU, 20,1% das pessoas com idade entre 15 anos e 49 anos na África do Sul, 33,7% no Zimbábue e 38,8% em Botsuana estão infectadas.

    O presidente Museveni não entende por que o exemplo de Uganda foi ignorado por tanto tempo pelos outros países. “Como a Aids é um problema sexual, as pessoas têm vergonha de enfrentá-lo”, diz ele. “Mas o que é pior: ficar constrangido ou morrer?”

    Um exemplo que passa a ser seguido por outros países:

    Outros países, como Quênia e Zâmbia, passaram a seguir o modelo ugandense e a mesma medicina moral está começando a dar resultados entre as gerações mais novas.

    No começo, Uganda ganhou poucos admiradores entre as agências humanitárias ocidentais que promoviam a expedição de preservativos para combater a Aids. Isso, porém, está mudando agora, quando se vê que os programas que preconizam mudanças de comportamento, como fidelidade e abstinência, podem de fato funcionar.

    Como diz Peter Piot, diretor-executivo do Programa de Aids da ONU: “Conquistas como a de Uganda mantêm viva a esperança de que o mundo não está impotente diante da epidemia.”

    Durante a 15ª Conferência Internacional de Aids, realizada em julho/2004 em Bangcoc na Tailândia, o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, reafirmou que a abstinência sexual, não o uso de preservativos, era a melhor maneira de impedir a disseminação do vírus da Aids. E ele tem um exemplo concreto para provar isso.

  12. É uma pena, mas é justamente por conta desse tipo de discussão tola e infrutífera em busca de gente certa ou errada, metade do oriente médio está brigando há anos.

  13. … e como se a Igreja é que fosse detentora dos direitos autorais de fidelidade, abstinência sexual e coisa que valha.

    Não questiono os dados postados, mas duas camisinhas usadas juntas devem reduzir ainda mais a probabilidade de contaminação por algum vírus.

    Agora, pergunto-me se, por um acaso, um lindo casal apaixonado em que só um dos dois indivíduos é HIV positivo, como é que ficaria a história. A Igreja vai negar o amor e consequentemente proibir o casamento? Vai negar a camisinha?

    (Não entendi a relação entre ironia e humor com uma falta de resposta)

    Bora ver o jogo do Brasil!

  14. Temos que aprender a respeitar a diversidade. Se alguém não acredita que a camisinha consegue prevenir a aids, por que querer obrigar essa pessoa a usá-la? Qualquer um que tenha bom senso entende que a abstinência é o método mais seguro. Se você quer ser promíscuo, por que querer obrigar a todos serem também promíscuos? Para aliviar a sua consciência?…

  15. Algo não está batendo: o cara viola 100000000 de mandamentos da Igreja e justo na hora de furunfar ele pensa: “- Não posso usar camisinha porque a Igreja não deixa”. Fala sério!

    Que argumento tosco! Parece coisa da Miriam Leitão.

    Agora dá licença que eu vou violar um mandamentozinho…

  16. Porque eles não dizem logo: “cinto de castidade, é isso que está faltando no mundo”. Francamente, Uganda está com uma bola danada no campo conservador. Já virou exemplo de liberalismo econômico na África e de “sucesso” cristão. Só falta dizerem que é o paraíso na terra, ao invés de mais um pobre, corrupto e miserável país africano com um índice de 5% de AIDS e infecções diárias. Dá-lhe Bento!

  17. Entrando a sério na conversa: eu acho que a promiscuidade que vem tomando conta do mundo é algo muito preUcupante, já que é um desrespeito ao que Deus fala sobre a castidade. Então, cheio das ONI-um monte de coisas, deus pai todo poderoso criou a aids pra nos lembrar de sermos castos. Aí é que tá a questão: a promiscuidade é que é a doença, a aids é o antídoto.

  18. Coitado desse Bruno. Tá na cara que já foi Católico, mas algum padre mau fez ele ser o que é hoje. Se bobear, esse Bruno já foi até seminarista. Coitado, que Deus o ajude.

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