O crime da rua Campos

Há algumas semanas — ou meses, que o tempo em um blog é a prova sobralense de que Einstein estava correto — eu falei, num post sobre Aracaju, sobre o crime da rua Campos, coisa de quase 50 anos atrás e que até hoje é o crime mais fantástico já ocorrido em Sergipe.

Parece que as lembranças estão no ar, porque uma revista local, na edição que começou a circular na semana passada, publicou uma matéria sobre o crime. Hoje, em sua coluna no Jornal do Dia, o jornalista Luiz Eduardo Costa publica um comentário a essa matéria.

Luiz Eduardo é uma das pessoas que mais conhecem o crime da rua Campos, pelo menos que eu saiba. A outra é minha avó. A diferença é que minha avó não escreve, ao passo que Luiz é o dono de um dos melhores textos de Sergipe.

Graças à revolta de Luiz Eduardo, que resolveu corrigir a série de erros factuais que encontrou na matéria publicada pela revista (e no post original, sem saber: eu datei o crime de 1954, quatro antes), agora posso atender a um pedido feito por Viva, e contar aqui, através das palavras de Luiz Eduardo Costa, o básico da história do Crime da Rua Campos (ou rua de Campos, como chamam em Aracaju).

FRAUDE, FALSIFICAÇÃO E JORNALISMO AVILTADO

A revista Sergipe Mais, que agora volta a circular, viveu excelente fase quando era editora a jornalista Mônica Dantas, profissional moderna, competente, que Sergipe perdeu para o Paraná. Nessa segunda fase a revista tem tudo para continuar fazendo sucesso. Basta ler o expediente e nele identificar nomes como o do diretor, o jornalista televisivo Nestor Amazonas, os colaboradores, onde figura gente da primeira linha do jornalismo sergipano, como Ivan Valença, Osmário Santos, Cleomar Brandi, Paulo Lobo, Newton Porto, Sacuntala Guimarães, Amaral Cavalcanti, Luiz Eduardo Oliva, Amália Roeder, Euler Ferreira, e poetas, pintores, fazedores de arte, como o primoroso poeta Araripe Coutinho, Leonardo Alencar, Lineu Lins, e tantos outros.

No segundo número dessa nova fase, a revista resvala pelo abismo da desinformação, da falsificação da história e da fraude escancarada, tudo em conseqüência de um arremedo de reportagem que deveria merecer ao final do ano o troféu Lixo da Imprensa.

Alinhavada por um terapeuta que se apresenta como autor da Teoria da Identidade, a reportagem é a antítese do jornalismo, algo que poderia ser apresentado nas escolas de comunicação como o exemplo do que nunca deve ser feito por um profissional que pretenda merecer um mínimo de credibilidade.

Sob o título “Aracaju Já Não Se Emociona Mais — Traição e Morte do Dr. Firpo”, o terapeuta que decepcionante e vergonhosamente envereda ousado e fraudulento pelo jornalismo faz uma deturpação rasteira da história do mais rumoroso crime passional ou político que já teria ocorrido em Sergipe.

A editoria da revista deve ter sido envolvida pela leviandade do terapeuta Gélio Albuquerque, e publicou fotos de um aviador alemão, de um hidroavião Dornier, que nunca amerisou em águas do rio Sergipe, e os leitores se transformaram em vítimas da fabulação de um terapeuta que, se for tão descuidado em relação a Freud, Lacan, Foucault e outros luminares da psicanálise como se mostra irresponsável em relação às regras do jornalismo, que se cuidem os seus possíveis e desavisados clientes.

O crime da Rua de Campos, como ficou mais conhecida a tragédia que envolveu a vítima, o médico Carlos Firpo, e como autores sua esposa Milena Mandarino Firpo e o coronel aviador Afonso Ferreira Lima, aconteceu na madrugada de 28 de maio de 1958. O amante, ao contrário do que diz o “terapeutista”, mistura vulgar de psicanalista com fraudulento jornalista, nunca chegou pelas “asas da Panair”. Em Aracaju a Panair operou até meados da década dos quarenta com hidroaviões Catalinas, jamais com aquele que é mostrado na foto, um Dornier alemão. O homem fardado não é o coronel Afonso, mas um aviador alemão. A Ponte do Imperador, apresentada como local dos ansiados encontros, nunca foi ponto de amarração dos hidroaviões, que acostavam num flutuante situado quase na frente da Capitania dos Portos, e o prático Zé Peixe nunca manobrou avião nenhum, mesmo porque ele é prático de navio, coisa que, o “terapeutista” deve saber, é bem diferente de avião.

O Crime da Rua de Campos, complexa e também instigante trama de amor, de interesses econômicos, de disputas políticas, envolvendo importantes famílias, nomes de projeção nacional, atraiu a atenção da imprensa brasileira. O jornal Última Hora publicou sucessivas reportagens assinadas pelo repórter Pinheiro Júnior sobre o crime em Aracaju; também outros grandes jornais noticiaram o crime e acompanharam o desenrolar das tumultuadas investigações, a prisão dos indiciados principais, o assassinato do suposto executor do crime pela polícia e, depois, a impronúncia dos acusados pelo Supremo Tribunal Federal.

A NOVELA DA RUA DE CAMPOS SEM FRAUDES

Milena Mandarino Firpo era fascinante, belíssima e sedutora mulher. Vive ainda hoje e reside em Salvador, onde casaram e também moram suas duas filhas. Quando em agosto de 42 os navios brasileiros Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo e mais um veleiro foram torpedeados entre o sul de Sergipe e as praias do norte baiano, os estudantes e trabalhadores saíram às ruas em Aracaju e invadiram a casa do italiano Nicola Mandarino, rico homem de negócios que não escondia suas inclinações fascistas e admiração pelo Duce Benito Mussolini. Um vestido de noiva esfarrapado pelos manifestantes foi lançado de uma das janelas do casarão, que é hoje a sede do Arcebispado, no Parque Olímpio Campos. A noiva era Milena, filha de Nicola, suspeito de espionagem para o Eixo e de ter passado pelo rádio informações para o submarino alemão U-504, que efetuou o torpedeamento. O noivo, o médico Carlos Firpo. O coronel Afonso Ferreira Lima, então um jovem tenente, acabara de concluir o curso da Escola de Aviação, e se incorporara à recém criada Força Aérea Brasileira, a FAB. Afonso era irmão de criação de Milena, vivera com ela na infância quando chegou de Glória na Bahia, trazido pelo seu irmão, o promotor público que também se chamava Afonso Ferreira Lima, e que era concunhado de Nicola.

Quando o crime aconteceu o coronel Afonso integrava a ala da FAB considerada nacionalista, que se defrontava com a oficialidade golpista e lacerdista que patrocinara em 1954 a tentativa de deposição de Getúlio Vargas na chamada República do Galeão, que culminou com o suicídio do presidente. Em maio de 58, Afonso era prestigiado Secretário do Conselho de Segurança Nacional e tinha ligações com o presidente Juscelino, mas, em Sergipe, seu círculo de amizades era quase todo formado por udenistas. Afonso viajava freqüentemente a Aracaju. Quando chegava, sempre festivamente recebido pelos amigos, logo começava a participar das rodadas de pôquer no sítio de Dona Vivinha, uma conceituada comerciante que tinha na rua João Pessoa a principal loja de modas da cidade.

Afonso hospedava-se sempre na casa do casal Milena-Carlos Firpo, inclusive quando o médico estava ausente, o que gerava entre restrito círculo de amigos alguns comentários maldosos. No casarão da Rua de Campos, onde é hoje a sede da Associação dos Supermercados, também vivia o velho Nicola, pai de Milena.

A fascinante Milena era pessoa de hábitos recatados, muito religiosa e freqüentadora de missas; daí, quando foi acusada, terem saído em sua defesa integrantes do que havia de mais seleto entre o catolicismo aracajuano, como as respeitadas irmãs Galrão, dirigentes do Colégio Salvador.

Depoimentos de pessoas que moravam perto da residência do casal, como o do comerciante Antônio Fontes, revelaram certas intimidades, que eram bem conhecidas pelos vizinhos, entre o coronel Afonso e a esposa do médico.

Quando foi assassinado, Carlos Firpo revelara a amigos que seria candidato de qualquer maneira ao cargo de vice-governador, e que se fosse impedido faria terríveis acusações contra alguns políticos sergipanos, próceres udenistas, partido ao qual era filiado.

Dois dias após o crime (Carlos Firpo foi esfaqueado enquanto dormia, Milena estava em outro quarto com as filhas), o pistoleiro Timóteo e o funcionário da CHESF Pereirinha foram presos em Paulo Afonso e trazidos a Aracaju. Durante um interrogatório ocorrido nos ermos escuros da estrada da Cerâmica, próximo a onde fica hoje o Distrito Industrial, Timóteo foi morto a pancadas pelo agente policial Alemão, notória figura da pistolagem de mando.

O cenário do interrogatório era iluminado por faróis de dois jeeps. O então deputado federal Seixas Dória e o irmão de Milena, o agrônomo Humberto Mandarino, deixaram o local por não suportarem a cena, mas antes teriam ouvido Timóteo confessar que fizera tudo a mando do coronel Afonso, que o trouxera de Paulo Afonso a Aracaju em avião da FAB.

O Secretário da Segurança Pública, o depois desembargador Antônio Machado, e o Secretário de Justiça, o depois senador Heribaldo Vieira, presenciaram a cena. Milena depois confessou ser apaixonada pelo coronel, mas os seus advogados alegaram que ela fora dopada com uma injeção de entorpecente.

A REPERCUSSÃO DO CRIME NO BRASIL

Pela posição do coronel Afonso, como membro do Conselho de Segurança Nacional, e as suspeitas de envolvimento político, bem mais do que passional, o crime tornou-se assunto polêmico que dividiu a sociedade sergipana, e ganhou amplo destaque nos noticiários nacionais. A esposa do coronel Afonso, Edna Bentes Ferreira Lima, era neta de um ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, e seu pai destacado advogado no Rio de Janeiro.

Funcionaram na defesa e acusação em Aracaju advogados famosos como Sobral Pinto e Evandro Lins e Silva, depois ministro do STF, que escreveu antes de morrer o livro “Salão dos Passos Perdidos”, onde relata alguns aspectos do Crime da Rua de Campos.

Milena Mandarino foi presa juntamente com duas empregadas, transitou entre a Penitenciária e a sede do antigo Departamento de Trânsito onde funciona hoje uma delegacia nos fundos da Secretaria de Segurança Pública.

Quando os acusados chegavam para depor no Tribunal, entre eles o coronel Afonso, ocorriam manifestações populares na rua, e houve necessidade das tropas do 28° Batalhão de Caçadores para garantir a segurança.

Milena e o coronel Afonso foram impronunciados pelo STF e não chegaram a ir a júri popular. Pereirinha foi condenado a vinte e cinco anos de cadeia e cumpriu quase todos na Penitenciária de Salvador. Morreu há dez anos em Paulo Afonso.

Os motivos do crime continuam até hoje nebulosos, mas não se levou em conta o desaparecimento de documentos que estariam guardados cuidadosamente pelo Dr. Firpo. Resta saber também se na verdade o comerciante Nicola transferira para seu genro Carlos os seus bens, antes que houvesse o confisco determinado pela ditadura de Getulio Vargas de todas as posses de cidadãos alemães, italianos e japoneses residentes no Brasil.

Nicola, acusado de espionagem, foi depois absolvido pelo Tribunal de Segurança Nacional, e morreu na primeira metade dos anos sessenta.

O coronel Afonso Ferreira continuou na FAB. Era comandante da Base Aérea de Salvador quando aconteceu o golpe de 64. Tentou resistir, mas foi preso e depois expulso da Força Aérea. No Rio de Janeiro, onde vivia com a esposa Edna e os filhos, tentou ser piloto civil, mas lhe foi cassada a patente de aviador. Morreu na década de 70, sem ter sido beneficiado pela anistia.

O volumoso processo sumiu, faz mais de vinte anos, dos arquivos do Tribunal de Justiça de Sergipe.

O senhor Gelio Albuquerque, se possuísse um mínimo de responsabilidade jornalística, teria, pelo menos, feito uma rápida pesquisa pelos jornais da época, que estão disponíveis para quem os procurar, antes de escrever tanta baboseira.

A Revista Sergipe Mais está a dever um pedido de desculpas aos seus leitores.

10 thoughts on “O crime da rua Campos

  1. Oi Rafael!

    Faz tempo que não “entro” no teu site e me diverti bastante hoje ao dar uma olhadinha nos posts passados. Principalmente a polêmica camisinha X pecado me fez rir um bocado. Agora tem um detalhe… eu sou de uma Igreja evangélica tradicional, apóio o uso da camisinha, o direito de cada um viver a sua sexualidade como bem entender, a pesquisa com células tronco, … E também conheço pessoas católicas comprometidas com a sua Igreja e que pensam de uma forma menos preconceituosa. Entendi que o assunto já está encerrado, mas queria te escrever para te dar alguma esperança no futuro das igrejas, pois nem todas as pessoas são “farinha do mesmo saco”. De qualquer forma, foi hilário ler toda essa troca de gentilezas, valeu a pena deixar para amanhã a tentativa de “fabricação” do meu décimo quinto filho…
    Bjjjj
    Taia

  2. Ei, já que hoje meus neurônios estão no stand by, ainda não li sobre o tal crime. O que sei é que houve um crime em Ouro Preto, coisa de antigamente, que envolvia gente da high, high, high, high, society.

    O Guto chegou a ir a Ouro Preto com a intenção de pesquisar e escrever sobre o crime que, no exato momento, estou com preguiça de identificar. Bom, a vida dele tomou outros rumos, mas… bom, mas depois eu leio seu post.

  3. MUITO BOM!
    comentário relacionado, assisti ontem esse ótimo documentário “na captura dos friedmans” que recomendo muitíssimo. um professor judeu e seu filho são acusados de pedofilia numa cidadezinha americana em 1988. caos, loucura, erros e acertos… um documentário fascinante.

  4. boa noite . sou estuadante de historia e soube desta trama atraves de um colega de classe e interessei-me pelo asunto é uma historia simplesmente fantastica e desconhecida da populaçao sergipana, ´pretendo formar um grupo de estudo para aprofundar essa historia nao acabada

  5. É por esse motivo q muitas vezes o impresso revista perde a credibiliadade enquanto fonte de pesquisa, e a deturpação dos fatos é uma falta de ética.

  6. Agradeço pelo esclarecimento sobre este terrível crime,pois sou sobrinha neta do dr.Carlos Firpo.Obrigada.

  7. Naquela época era muito comum repassar bens secretamente Milena foi vitíma de um plano secreto e os outros morderam a ísca houve chamtagens terriveis bens foram desviados, eu tenho certeza disso. Joeliton Bispo Cavalcante, Valeu Rafael !

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