Belle Époque

Cartaz francêsEste cartaz francês para uma marca de absinto, do início do século passado, é de uma crueldade absurda.

É como se o artista, morando numa mansarda em Montparnasse, revoltado por finalmente perceber que seus quadros nunca venderão e que como ilustrador ele jamais chegará aos ombros de um Toulouse-Lautrec, tivesse decidido demonstrar todo o seu desprezo à burguesia na sua encomenda. E com que prazer ele deve ter conseguido convencer aquele comerciante abrutalhado de que essa peça era sensual e lhe traria lucros estupendos. Com o dinheiro no bolso, dirigindo-se à casa de ópio, ele deve ter se sentido reconfortado por sua pequena vingança.

O honrado e elegante senhor parece estar dizendo com o olhar coisas indizíveis à moça que bebe com circunspecção e recato. Espera sua presa com uma calma antecipatória do prêmio. E traduz o lado obscuro da Belle Époque — ou talvez o mais brilhante deles.

Originalmente publicado em 10 de maio de 2004.

8 thoughts on “Belle Époque

  1. Beba minha senhorita, beba… Em breve a fada verde fará seu efeito e seus pudores se esvairão na nebulosidade da sua consciênca. HAHAHAHAHAHA!

  2. o sujeito tem uma grande cara de sem vergonha e esta bebida deve ter tido bastante saída, comprada por tipos cretinos que foram induzidos pelo rótulo. Bater a capa na mocinha.

  3. A moça bebe pensando: eu vou beber pra encarar. Ou será que bebe inocente, experimentando a primeira ousadia da vida? No caso do sujeito, a coisa é óbvia. Certamente é um anúncio destinado ao público masculino, inclusive aos “não bebentes”.

    Isso me lembrou uma coisa: no caminho entre Ponte Nova e BH, ali perto de Mariana, existe um posto de gasolina, bem simples, parece servir uma comida das boas. Só usei o estabelecimento para meus alívios fisiológicos (sede e xixi, a saber). Sempre que passo por lá, aproveito para olhar e cheirar o “self service”.

    Na área em que fica a lanchonete, há vários quadros com propagandas antigas de cigarros obviamente antigos. Tudo desbotado, confirmando o peso da passagem do tempo.

    Está lá o anúncio do Cigarro Iolanda. Ah, quando as finanças melhorarem vou tentar comprar pelo menos o quadrinho do “Iolanda”. Duvido que me vendam a peça, mas não custa tentar, só pra ter o charme do Adoniran Barbosa na parede da minha casa.

    Adoro isto aqui:

    Tocar na banda
    Pra ganhar o quê?
    Duas mariolas
    E um cigarro Iolanda

    Ô charme de canção!

  4. ERRATA:

    Faltaram as aspas (ou o itálico) no pensamento da menina.

    A moça bebe pensando: “eu vou beber pra encarar”.

    O Ismael Grilo falou, no blog do Guto, que sou neurótica. Eu não só confirmo como faço jus a minha característica. E, claro, já que o jeito é relaxar e gozar, dou um jeito de rir da coisa. 😉

  5. Da série: “Coisas que podemos imaginar ao olhar uma gravura”. Você costuma ser aprovado em psicotécnicos?

  6. não sei noq a moça está pensando nem me importa se o desenhista tinha veleidades anti-burguesas, mas q a gravura revela um ‘insight’ brilhante, isso sim! parece uma reedição do velho tema mitológico do sátiro e a ninfa adaptado para a propaganda de forma brilhante!

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