O dia em que Sergipe quase se tornou uma potência camaroneira

O texto abaixo é um pedaço da coluna desta semana de um jornalista e imortal sergipano, Luiz Eduardo Costa.

Em 1964 chegou a Sergipe um americano que se dizia poderoso empresário do setor pesqueiro. Ele havia constatado que Sergipe possuía uma das maiores reservas camaroneiras do mundo. O crustáceo estava ali mesmo na costa sergipana. Era preciso apenas que alguém se dispusesse a pescá-lo. E isso ele queria fazer, trazendo para ficar baseados em Aracaju os barcos da sua imensa frota. O gringo falava pessimamente o português, mas era sempre entrevistado na Rádio Liberdade pelo repórter Silva Lima, que no seu calamitoso inglês portuário conseguia traduzir para a opinião pública as intenções do megapescador yankee.

Logo hospedado com todas as honras na suíte presidencial do Hotel Palace, o americano ampliou contatos, procurou a Federação das Indústrias, o Banco do Brasil, e ao governo manifestou a sua única reivindicação: queria que os velhos trapiches do Lima em Aracaju, e outros na Barra dos Coqueiros, fossem adquiridos pelo governo do Estado e transferidos para a sua multinacional pescadora.

Enquanto isso, começou a fazer compras no comércio, de roupas principalmente. Tornou-se alvo das atenções, das deferências na acanhada província que festejava alguém chegando assim, tão disposto a investir e a gerar empregos, explorando aquela enorme e insuspeitada riqueza. Alguns, com aquela ânsia puxasaquista que dominava a época, começaram a atribuir a vinda do empresário norte-americano ao novo clima existente no Brasil, com a vitória da “revolução democrática e redentora de 31 de março que livrou o Brasil do comunismo ateu que ameaçava a pátria, a família e a propriedade”.

Organizou-se uma visita às praias da Barra dos Coqueiros, onde o americano demonstraria o potencial que, breve, tornaria Sergipe a “terra do camarão”.

No dia da visita lá estavam as autoridades civis, militares e eclesiásticas, como era de praxe nessas circunstâncias assim tão especiais. O americano, cercado por muita gente embevecida com tanta competência camaroneira, abaixou-se, apanhou um punhado de areia molhada da praia e proclama: “Aqui está, é camarrrraaão purrro”.

Todos retornaram confiantes na nossa capacidade para capturar e exportar camarões. Mas houve um pequeno contratempo: o repórter Silva Lima, mais uma vez entrevistando o americano, perguntou-lhe o que seria feito com os peixes que viriam nas imensas redes de arrasto puxadas pelos barcos camaroneiros, e ouviu a resposta em inglês que logo traduziu: “Todo o peixe será doado às pessoas pobres”. No outro dia, a Associação dos Criadores de Sergipe publicava nota nos jornais advertindo para a crise que inevitavelmente desabaria sobre a pecuária sergipana, diante daquela imensa oferta de peixe a custo zero.

O empresário dos camarões, enquanto isso, tentava depositar no Banco do Brasil um cheque visado de um banco americano, mas insistia em receber adiantado uma parcela. Naquele tempo as comunicações eram precárias e ninguém conseguia uma ligação rápida com o Rio de Janeiro. Um funcionário do banco, já desconfiado, insistiu muito e conseguiu a confirmação de que aquele cheque a ser descontado era simplesmente falso.

Nesse meio tempo, o empresário americano fazia rapidamente as malas, desocupava a suíte presidencial do Hotel Palace e sumia, levando apenas as roupas que comprara a prazo usando o seu incontestável crédito.

Anos depois ele apareceria morto num dos apartamentos do Hotel Boa Viagem, no Recife.

Tratava-se de um agente da CIA que vendera informações secretas à União Soviética e andava fugido, aplicando golpes pelo mundo, até que agentes o encontraram e estraçalharam a sua cabeça.

8 thoughts on “O dia em que Sergipe quase se tornou uma potência camaroneira

  1. Vale um filme dirigido, roteirizado e produzido por Rafael Galvão (e depois dirão que todos os méritos cabem ao assistente, este que vos fala).

  2. Quero ser chamado pra atuar nesse filme, Rafael, quem sabe no papel do repórter. Recuso fazer teste do sofá! E não quero ninguém insinuando q só porque sou seu conterrâneo que ganhei o papel, quero vencer pelo meu talento e não apenas por ter um corpo bonitinho! hahahaha

  3. Pow!! Que agente burro! Foragido e aparecido!
    Temos histórias pitorescas de antigamente, sempre envolvendo gringos que, chegavam por aqui pensando ser o brasileiro fácil de ser enganado. Na minha terra, um gringo quis vender máquina de fazer dinheiro.
    Boa páscoa!! Beijus

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