A culpa é de Alckmin

Agora que a situação parece mais calma, dá para falar com mais senso de perspectiva sobre um aspecto da crise de São Paulo.

Desde o início, a imprensa alertou sobre a impropriedade de utilizar os acontecimentos como combustível para a campanha eleitoral. Mas haverá uma eleição em menos de cinco meses, e a incompetência no gerenciamento do problema da segurança pública deve, sim, ser um critério de julgamento dos candidatos. A crise do mensalão, por exemplo, é um critério para a avaliação do governo Lula.

Acima de tudo, é impossível negar que o caos que tomou conta de São Paulo tem responsáveis, e que estes não são apenas os membros do PCC. Se o terror chegou aos paulistas, foi principalmente pela má atuação das forças de segurança pública.

O fato é que a atuação de Alckmin foi um fracasso retumbante e inegável.

São quase doze anos de governo do PSDB em São Paulo — oito dos quais sob a presidência do tucano Fernando Henrique Cardoso. Caso tivessem alguma idéia de como lidar com o problema da segurança pública, não poderia haver circunstância melhor. Não houve quebra de continuidade, puderam planejar a longo prazo, e houve tempo mais que suficiente para executá-los.

No entanto, foi justamente nesse período que o PCC se solidificou. E a verdade é que o PSDB não soube enfrentar o problema. A opção de fazer acordos com a bandidagem — que já não tinha dado certo no Rio de Janeiro de Brizola — foi uma decisão equivocada desde o início, típica de uma administração fraca e sem autoridade. Ao não cumprir adequadamente seu papel repressivo, o governo paulista possibilitou o desenvolvimento da conjuntura que levou à tragédia dos últimos dias. É preciso ter perdido toda noção da função da pena para permitir discussões como visitas íntimas — que na prática acaba sendo pouco mais que uma permissão oficial para a prostituição dentro dos presídios — ou a distribuição de televisores na prisão. De repente, cumprir pena em um presídio paulista acabou não representando um castigo.

A irresponsabilidade, no entanto, não ficou apenas durante o mandato. O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, tem culpa por dar respostas insuficientes a uma crise de proporções gravíssimas. Mas não é o principal responsável por ela, tendo assumido o governo apenas há poucas semanas. A responsabilidade cabe única e exclusivamente a Alckmin, que passou seu governo apregoando a eficiência da polícia e do sistema carcerário paulistas. Como se viu na última semana, ele mentiu.

Em entrevista à Folha de S. Paulo o governador Lembo deixou claro que, durante a crise, a tal cúpula do PSDB — o ex-presidente Fernando Henrique, o ex-governador Alckmin e o ex-prefeito Serra — lhe deixou com a bomba nas mãos. O único com quem conversou regularmente sobre a crise foi o presidente Lula, que lhe ofereceu toda a ajuda necessária.

Lula não fez mais que sua obrigação como presidente. Mas o mesmo não se pode dizer daqueles que, de uma forma ou de outra, estiveram envolvidos com a administração paulista. O que todos eles fizeram, mas principalmente Alckmin, foi fugir às suas próprias responsabilidades da maneira mais burra e covarde, achando que o silêncio lhes preservaria eleitoralmente. Como uma criança que não diz à mãe que quebrou o seu vaso preferido.

E então o que houve foi um fenômeno esquisito: Lula, que fez o que manda o cargo, não aproveitou eleitoralmente o episódio, e mal não ficou. Alckmin, que não fez o que manda a ética, tentou um “aproveitamento pelo avesso”, e não se saiu bem.

Mesmo assim, durante a crise o comportamento da mídia foi, no mínimo, dúbio. O Jornal da Globo, por exemplo, tentou ridicularizar ao máximo a declaração de Lula de que tudo isso é resultado de más políticas educacionais, em vez de fazer o que devia: cobrar soluções efetivas ao governo de São Paulo, algo mais importante, inclusive, do que definir de quem é a culpa por essa vergonha. Mas aproveitamento eleitoral só não vale para o governo. Nesta semana a revista Veja, que já não sabe o que fazer para se desmoralizar ainda mais, continua sua descida ladeira abaixo: enquanto a Época e a IstoÉ trazem capas sobre o caos paulista, como manda qualquer cartilha de jornalismo, ela traz uma capa sobre estética. Assim como Alckmin, parece acreditar que se não tocar no assunto ele desaparece.

Mas as coisas não são tão simples. Simples é um fato óbvio: a responsabilidade sobre o descalabro da segurança pública paulista só pode ser creditada a um homem. Seu nome é Geraldo Alckmin.

18 thoughts on “A culpa é de Alckmin

  1. Pois é, a Veja publicou uma capa com o Marcola apenas para o estado de São Paulo, eu acho. Para o resto do país foi essa capa sobre estética.

  2. Eu apenas quero deixar registrado que eu continuo achando você partidário demais nesse assunto. E que a culpa não é só do Chuchu.

    (Marcus tem certeza que não foi a revista da semana passada que você viu não? Aqui no Rio é sobre o Marcola.)

  3. é verdade, aqui no rio a capa é o marcola. quanto ao post, os tucanos nunca irão admitir isso pelo simples fato de que quando as coisas dão certo, não é por causa das políticas do governo atual, mas sim porque este herdou iniciativas do governo passado. entretanto, se algo der errado a culpa será só do PT, sempre. os tucanos querem reivindicar os acertos, mas deviam, primeiramente, aprender a limpar sua própria sujeira.

  4. O Lula pode ter supersimplificado a questão, mas não errou. No estado de São Paulo, a quantidade de criminosos que entram nas cadeias menos os que saem são 800 presos ao mês! Então, ou você constrói um presídio a cada 15 dias ou começa a tomar atitudes para evitar que tantos criminosos apareçam. E educação é certamente um fator central a ser levado em consideração.

  5. E não deixa de ser irônico que os mesmos PFL e PSDB que pediam “dureza” no trato com a Bolívia tenham visto sua administração em São Paulo tendo que negociar diplomaticamente com o PCC.

  6. Concordo no essencial – sim, a culpa é do Alckmin, e a postura covarde dele e da cúpula do PSDB é absolutamente vergonhosa.

    Mas discordo em alguns pontos acessórios. Não consigo ver relação direta entre a visita íntima e essa crise. Que eu saiba, ela foi feita para diminuir o número de estupros dentro do próprio presídio, e, ao que parece, conseguiu esse intento. (Lembro de ter lido sobre isso há um tempão, mas não consigo lembrar a fonte.) Se bem que o sistema penitenciário bem que poderia dar uma regulada melhor (só dar o benefício pra quem comprovasse já ser conjugue antes da prisão, algo do gênero). Não ia acabar com a prostituição dentro dos presídios, mas ia ser um desincentivo razoável. E, claro, Marcola e seus comparsas nunca poderiam ter esse direito.

    Na verdade, o problema das prisões, mais do que leniência, é a falta absoluta de controle do Estado sobre os detentos. Ao invés de colocar uma TV em algum espaço do presídio para todos e regular o seu uso nos moldes do banhos de sol, preferem deixar as celas como depósito de gente, e em troca deixarem os presos que tem dinheiro comprar a sua TV para a copa.

    E como os bagrinhos presos por furto são misturados com os líderes do PCC, acabam obrigados a pagar dízimo e prestar favores aos líderes. Enquanto isso, sequer há uma definição legal do que é uma organização criminosa – os caras do Primeiro Comando são enquadrados por formação de quadrilha, como se eles fossem apenas um bando qualquer que se reúne pra assaltar de vez em quando.

    Nem tudo isso é culpa exclusiva do Alckmin e do PSDB (algumas burrices da legislação de execução penal, como a falta de critério para os indultos, por exemplo). Mas eles bem que poderiam ter se esforçado pra pelo menos cumprir uma parte essencial da Lei de Execuções Penais: a classificação e separação dos presos segundo os seus delitos. Não iria por si só demantelar o PCC, mas teria sido um bom começo.

    Ao invés disso, deixaram a situação chegar a esse ponto e agora fazem acordo com os bandidos. E assim dão espaço pra proto-fascistas como Bolsonaro, Jazadji e coronel Ubiratan deitarem e rolarem com o discurso anti-direitos humanos – durante a crise houve até “debates” na Rede TV que mais pareciam versões televisivas do Voelkisch Beobachter. É assutador ver a TV colocar um assassino como o coronel Ubiratan como “modelo de combate ao crime”.

    Que os tucanos recebam as devidas pauladas na campnha eleitoral. Mas o clime autoritário e paranóico que essa crise cria me precoupa bem mais.

  7. Faço um reparo ao modo desastrado como você critica as visitas íntimas. Tudo bem ser contra, mas dizer que permitir esse debate significa “perder toda a noção da função da pena” é simplesmente radicalismo de quem parece não ter argumentos.

    As visitas íntimas praticamente acabaram com a violência sexual “fisiológica” contra presos. Onde existe visita íntima, persiste somente a violação como forma de punição (contra estupradores, por exemplo). Se você acha normal que presos mais fracos e jovens virem objeto sexual de outros mais fortes, então você está pedindo que esse cara saia da prisão muito pior do que entrou. Se entrou por roubo, vai matar e violar quando sair.

  8. Perfeito!
    Quanto à revista V*** (não gosto de pronunciar seu nome), realmente é de uma incomensurável desfaçatez a opção pela atitude de avestruz que adota diante dos descalabros do PSDB e de envergonhar qualquer um a postura de imprensa marrom…

  9. Sinceramente, mesmo sabendo que o autor pertence à “esquerda histórica blogueira” (desculpe, Rafael, eheh…), não achei o texto nada tendencioso.

    A César o que é de César. O governo Lula não pode se esquivar da bagunça ética e institucional que vemos no Planalto. Ao mesmo tempo, sejamos realistas: no caos da segurança pública paulista, a responsabilidade da aliança PSDB-PFL é objetiva, não é questão de opinião.

    Quanto a VEJA, deve ter havido algo de muito peculiar na Redação neste fim-de-semana. Falou-se que a revista sairia com uma capa sobre Estética. Porém, para o assinante que vos fala, a revista só chegou no domingo a noite, atrasadíssima, com a capa estampando a cara do Marcola.

    Será que se arrependeram da omissão?

  10. é uma piuada né? muito engraçado o seu partidarismo deslavado. parece q vc é funcionário do PT. fala sério, rafael! a culpa? a culpa é da dona zelite, é de alckmin, é de serra, é de fernando henrique. e o lula? ah… lula não tem culpa, lula não sabe de nada, não viu nada. é uma piada né? aliás este é um blog petista. e eu q achava q a culpa era de pedro alvares cabral.

  11. O Elton disse tudo. Os mesmos que esbravejavam por mais “dureza” contra o “expropriador” Morales botaram o rabinho entre as pernas e foram encomendar as televisões exigidas pelo PCC.

  12. num falei? tava demorando aparecer alguém pra dizer isso. é sim, a culpa é do lula. também a destruição da camada de ozônio, os ataques da al qaeda, a queda ou alta do dólar: tudo culpa dele. ih, tem tanta coisa que é melhor parar…

  13. Rafael,

    Belo texto, heim? Embora tenha gente que não gosta. O que justifica a fala do presidente sobre a falta de educação que algumas pessoas que vivem lendo blog também possuem. hehehehe
    Agora para quem quiser ir ao blog do PT o endereço é outro, aqui desde quando o frequento tem sido um espaço de debates de alto nível.

    abs,

  14. Não sou governo nem oposição. Mas enfiaria todo o meu big stick* tanto no ladrão do Morales como na tchurma do PCC. Usando camisinha extra-resistente, é claro. =]

    *pra usar uma expressão ao gosto itamaratiano.

  15. É chato concordar com vc, mas neste caso é inevitável: segurança pública é atribuição do governo do Estado e isso é tudo. Após 12 anos de PSDB em SP não dá pra culpar o Esselentíçimo, a vontade divina ou o Maluf.

    Noto apenas que se os últimos 12 anos tivessem sido de governo PT em SP, vocês comunas (no sentido amplo e time-saving da palavra) estariam culpando não a (falta de) segurança pública, mas a miséria e desiguldade resultantes do modelo neoliberal/monetarista/financista/etc e tal. Mas faz parte do jogo – os tucanos não estão aí, criticando a atual taxa de juros?

    Abraços,

    Al

  16. A Culpa é do Alckmin mesmo ou será do nosso descrupuloso e arrogante Claudio Lembo (o Abel do Ursinho Puff…), pois caros internautas quando estourou a guerra civil do PCC já estava sobre o poder do Abel (Claudio Lembo). E outra se tem algum culpado, tal é a facção do PCC e indiretamente do Abel (Claudio Lembo). Mas agora colocar a culpa no Alckmin é mto facil onde as eleições estao ai e a grande parte da população brasileira é ignorante e medilcre, onde no governo federal estoura um monte de podridão e os idiotas ainda nao sabem ou desconhecem o assunto do dossie…Mas cada um tem o Governador que merece, mas infelizmente outros que descordem com essa corupção tenha que sofrer com a ignorancia e egoismo de outros. O Brasil precisa mudar, pois continuar nessa pouca vergonha nao dá mas.
    Alias o povo Brasileiro é tão supremo em sabedoria que tem como atual presidente da republica um governador ao qual subiu em seu trono sem se quer ter concluido a 8° serie.
    Agora tente um pai de familia, ou entao, um adolescente que nao terminou a 8° e tente um emprego razoavel nesse pais, nao dá, falta de experiencia, ou entao que é pior, nao terminou a escolaridade “necessaria”…
    Assim como eu, creio que ainda há como mudar o Brasil e realmente colocar que ORDEM É PROGRESSO e nao ORDEM e PROGRESSO…
    Obrigado

Leave a Reply

Your email address will not be published.