O homem que morreu de amor, depois de roubar minhas palavras

Poetas houve, nos tempos dos românticos, tempos idos em que a miséria era bela e o sofrimento desejável, que se diziam morrer de amor — e se diziam languidamente, “ai, que morro!”, com um levar das mãos à testa e um suspiro dolorido e afetado.

Suspirava-se muito naqueles tempos.

No entanto era tudo mentira, tudo fingimento; não era de amor que se morria, era de tuberculose.

Mas houve um homem que morreu de amor. E não foi naqueles tempos de tavernas azevedianas ou luzes mortiças de lampiões; mas ainda agora, há quase um instante, nos tempos da prensa, da televisão, da fissão do átomo, quando o amor parecia tão vulgarizado que para alguns era pouco mais que a desculpa por uma mão que passeia semi-percebida pela pele arrepiada de uma moça bonita.

Antônio Maria morreu de amor, mas antes deixou como prova desse amor, de todos os amores, algumas das crônicas mais belas vistas por este país, manjedoura de cronistas como Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta e Rubem Braga. O que há nelas de verdade, de universalidade, não pode ser compreendido por quem jamais viveu algo parecido com o que ele, diante de uma máquina de escrever em uma redação de jornal, soube descrever como ninguém.

Canção modal do homem que chama sua amada

Vem, se quiseres. Bebo álcool e fumo cigarros fortes. Gosto de música sem palavras, no piano de Peffer e no instrumento grave de Mulligan. Gosto das palavras sem música, como se sabia dizer Alberto Camus. De dia para dia, mais aquiesço à aridez dos sons.

Vem, se quiseres. Sou irascível, quando trabalho. Digo nomes feios, se me interrompem. Volto bêbedo para casa e não trago mais que a inocência, o cansaço e o hábito dos bêbedos. Tenho todos os defeitos que, nos outros, detesto.

Só uma disposição, em mim, é generosa — a do amor. Se um dia fores minha, ao ter-te, amar-te-ei demais, e mais ainda depois de ter-te. Vestirei o teu corpo com as minhas mãos e algumas vezes fecharei os olhos, para ver-te ainda mais bela. Haverá horas lentas de ciúmes, e um silêncio angustiado sufocará as palavras que nos faria negociar o perdão. Ah, o martírio dos amantes, que não se acreditam, que não se confiam, que não têm senão um cárcere de medos, onde afogam o sentimento espiritualíssimo da carne.

O corpo é espiritual. O espírito nem sempre.

Vem, se quiseres. Se crês numa alma oculta em minha rudez. Se não professas a abominável esperança esperança do amor eterno. Se acreditas, lucidamente, no “amor até quando” (?)… Se não te amas e se me amas, vem, e aqui te esperam séculos de sede e de dor, sem um momento de paz verdadeira, a não ser aquele, de lassidão, quando, depois de ter-te, amar-te-ei mais ainda…

15 thoughts on “O homem que morreu de amor, depois de roubar minhas palavras

  1. Então, Rafael. Não costumo copiar e colar textos alheios no meu blog, mas escolhi justamente um texto do Antônio Maria sobre futebol, mais especificamente sobre o título de 58 para postar em qualquer dia desses de Copa. Ele vai ser meu comentarista. 😉
    Na minha estante, coloquei o livro dele junto ao da Danuza, pra ver se fazem as pazes… 🙂
    Abraço.

  2. Então, Rafael, não me contentei com um só comentário. Sou capixaba, pretenso cronista, publico um blog e sempre tive o Rubem Braga como referência, pois nascido no Espírito Santo e com um lirismo quase pueril, foi inevitável. Nunca dei bola para o “Antônio Maria”. Agora vem você a dizer que o “cara” morreu de amor, depois de roubar suas palavras! Dei um jeito e já li agora algumas crônicas dele. Vamos combinar um negócio: “foi de mim que ele roubou as palavras!”

  3. Gostei muito.
    “Tenho todos os defeitos que, nos outros, detesto.” Quanta verdade numa frase.
    Julio, do Bala Perdida, me indicou seu blog.

  4. Eu fui. Ainda estou. Como um vício, doença, maldição que ao mesmo tempo se faz liberdade, cura e graça. Dói, redime, afasta e aproxima irremediavelmente. Fusão.

  5. Pois é, eu indiquei este blog para a Cláudia Palpiteira e sabia que ela não iria se arrepender.
    O post de hoje está tudo. Porque Antônio Maria é tudo. Pena que os 40 anos de sua morte, há 2 anos passaram em brancas nuvens.
    gd ab

  6. Rafa,
    Às vezes você me surpreende. Mas às vezes você me surpreende de verdade. Este é um dos textos mais bonitos de toda a blogosfera.

  7. Rafael, a primeira parte do texto (que está em itálico) é sua ou é citação? Se for sua, é uma das coisas mais belas que já li, vindo de você.

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