O ocaso de um homem

De vez em quando a política adquire aquele tom de tragédia universal e homens chegam ao fim de suas carreiras de maneira patética, melancólica. É um momento que adquire proporções épicas, porque então os mecanismos da política não são suficientes para explicar os acontecimentos. Tudo se resume ao homem, ao indivíduo, e é essa dimensão que coloca a política acima de mesquinharias humanas e de quaisquer justificativas históricas.

Nos últimos meses, a grande questão política sergipana era o destino do ex-governador Albano Franco, do PSDB, homem que parecia ser o fiel da balança em uma eleição que se prometia polarizada desde o início. De um lado o governador João Alves Filho, do PFL, em busca de um quarto mandato, tendo ao seu lado a máquina do Estado e uma disposição férrea para desafiar quaisquer limites, éticos ou legais, a fim de garantir sua reeleição. Do outro o ex-prefeito de Aracaju Marcelo Déda, recém-saído de uma administração elogiadíssima e representante de um sentimento de mudança que não é tão forte há exatos 12 anos, quando um fenômeno político chamado Jackson Barreto foi candidato ao governo.

Albano Franco seria o elemento decisivo nessa eleição, e por isso foi cortejado por ambos os lados. Com ele iriam vários prefeitos, vários candidatos que poderiam representar a diferença entre a vitória e a derrota.

Depois de ir e vir durante meses, há duas semanas Albano Franco atendeu à vontade de suas bases, que queriam, em sua absoluta maioria, a adesão do PSDB ao PT de Déda. Anunciou que o PSDB não faria coligação com o PFL e que sairia sozinho, o que na prática significava uma coligação branca com Marcelo Déda. A questão parecia definida.

Mas na semana passada Albano Franco deu para trás em sua decisão, e voltou para os braços de João Alves. E se o povo costuma perdoar pequenas traições, se costuma perdoar até mesmo um certo nível crônico de falta de comprometimento, não perdoa, jamais, que se assuma um compromisso público com ele e depois volte atrás.

Foi ali que Albano Franco morreu. O enterro, no entanto, se deu na última sexta-feira, no dia das convenções partidárias. O deputado federal Bosco Costa, homem que durante toda a vida foi ligado a Albano Franco e já tinha dado provas de lealdade absoluta, como ao renunciar à sua candidatura a governador em 2002, declarou que não aceitaria o que Albano pretendia fazer. Estava abandonando a presidência estadual do PSDB e saindo do partido. A partir dali, apoiaria Marcelo Déda para governador.

Na coletiva de imprensa em que anunciou seu rompimento, Albano estava ao seu lado, chorando e olhando para o céu como em busca de uma resposta que, ele devia saber, jamais viria. Ali, naquele momento, sua carreira política chegava ao fim, pelo menos no que realmente importa: ali Albano deixava de ser um líder político fundamental. Seu poder se esvaía. Ainda deve se eleger; mas a era dos Franco em Sergipe acabou.

Junto com Bosco Costa saíram as principais lideranças do PSDB: José Teles de Mendonça, Jorge Araújo, Ulices Andrade. E assim, em uma tarde, o PSDB de Sergipe implodiu, destruiu-se sozinho. Quando a eleição terminar, vença quem vencer, haverá uma nova ordem política, e o grupo de Albano Franco passará a orbitar necessariamente em torno do novo governador de Sergipe.

O que interessa, aqui, não é uma discussão sobre os tão alardeados republicanismo e unidade ideológica do PSDB, tão fáceis no discurso oposicionista mas tão ausentes da prática política — em Sergipe, como se vê, e também no Ceará, onde Tasso Jereissati abandonou o candidato do PSDB e deverá apoiar o candidato do PSB. Não é sequer a constatação de que Marcelo Déda conseguiu, de mão beijada, tudo o que precisava de Albano Franco — suas bases e prefeituras no interior — sem precisar levar, de contrapeso, a figura controvertida e prejudicial do próprio Albano, cujos oito anos no governo de Sergipe foram marcados por denúncias de irregularidades e uma sensação de desmoralização da própria corrupção.

Albano Franco morreu politicamente por não ter a coragem de utilizar o poder que tinha em suas mãos. E poder, quando não utilizado, costuma se voltar contra os seus donos, sempre com crueldade e descaso absoluto pelos seus destinos. O poder e a história não perdoam os fracos, os covardes. Homem afável no trato, até mesmo democrático, Albano se revelou pusilânime e inepto na política. Dizem que a indecisão de Albano, homem milionário, se devia à expectativa de que alguém pagasse os custos de sua campanha — e por isso voltava aos braços generosos de João, homem que o humilhou incansavelmente, impondo condições e fazendo declarações que, em outros tempos e para outros homens, seriam motivo de duelos e tiroteios.

A mim a cena lembrou outra, de alguns anos atrás. Uma senhora, que sempre tinha caminhado ao lado de Albano Franco, vendo sua candidatura fazendo água por falta de apoio desse homem por quem tinha sacrificado sua eleição anterior, sentou na minha frente e chorou. Chorou muito, por mágoa, por desencanto. Por uma candidatura que se apresentava derrotada, mas principalmente por uma profunda decepção pela falta de lealdade de alguém a cujo lado caminhava havia 30 anos.

A visão de um homem chorando normalmente inspira pena. É inevitável não sentir dó de um rei Lear em desgraça por decisões equivocadas e pela ingratidão de suas filhas. Mas, ao mesmo tempo, é impossível ter alguma pena de Albano Franco porque, ao contrário do personagem de Shakespeare, ele só pode se queixar de ter abusado da gratidão e da lealdade de seu grupo. A diferença entre a tragédia do rei Lear e a do flébil Albano Franco é que aquele pagou pelas decisões que tomou, enquanto Albano sofre por não ter a coragem de tomá-las.

O maior sintoma dessa tibieza foi o fato de esse choro patético ter sido mostrado no telejornal local de sua própria emissora de TV, retransmissora da Rede Globo. Se um homem não consegue controlar o que é exibido em sua própria televisão, não pode querer que esperem dele pulso suficiente para controlar um partido político, ou que tenha algum controle sobre os votos de centenas de milhares de pessoas.

Foi assim, por suas próprias mãos, que Albano Franco foi enterrado na última sexta-feira. Assistindo de corpo presente e aos prantos à eulogia feita por Bosco Costa, ele não chorava pelo fim de uma amizade ou de um projeto político, e o que poderia ter sido sublime se revelava apenas patético. Albano chorava pela própria incompetência, e não teve sequer a dignidade de enfrentar sua queda com o queixo erguido. Naquele momento, faltou a um humilhado Albano Franco a capacidade exigível a qualquer um: a de ser homem.

4 thoughts on “O ocaso de um homem

  1. “E se o povo costuma perdoar pequenas traições, se costuma perdoar até mesmo um certo nível crônico de falta de comprometimento, não perdoa, jamais, que se assuma um compromisso público com ele e depois volte atrás.”

    Mais ou menos, né.

  2. Cara, excelente texto, muito bom mesmo. Nada a acrescentar, só elogiar mesmo! Deixa até mais interessado na política e nas relações (e favores) em que é baseada.

  3. Faço coro com o Roger, não sei nada sobre a política sergipana mas o texto, como sempre, tá sublime.

    Pelo jeito tinha hombridade , o Albano.

    Característica da família Franco : P

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