Sobre a liberdade de escolha

O Bia e o Idelber estão discutindo as qualidades ou defeitos do novo panorama musical e tecnológico. O Bia se queixa do excesso de informação. O Idelber gosta disso.

A razão, na opinião deste blog, está com o Idelber; o Bia ainda não se convenceu de que é um velhote saudosista e conservador, incomodado com o fato de que os objetos a que se apegou ao longo de três décadas estão desaparecendo porque surgiu uma nova forma de distribuição de conteúdo, muito mais eficiente.

Esse — as vantagens e desvantagens de novos canais de distribuição — parece ser o principal ponto discutido por eles.

A resistência ao novo que se encontra no Bia é relativamente comum, e se manifesta às vezes como pura implicância. Em pleno início do século XXI pessoas ainda reclamavam que a qualidade dos graves em CD era inferior à dos LPs (o que podia não ser mentira nos primeiros tempos do CD nos anos 1980, mas dificilmente verdadeiro hoje). Agora elas reclamam da dispersão de atenção causada pelo MP3, do fato de tudo ser superficial. Muita música disponível.

Isso é bobagem. Não é porque posso achar facilmente a discografia completa de Richard Clayderman que vou passar a ouvi-lo tocar Pour Elise; mas o mesmo mecanismo que o torna disponível faz com que se possa achar, por exemplo, gravações importantes da deusa. Eu, por exemplo, não tenho e não pretendo ter um iPod. Não ouço música na rua. Não consigo escrever ouvindo música. Para gente como eu, o fato de haver tanta oferta não aumenta, necessariamente, a minha demanda. Mas aumenta a chance de achar o que eu quero ouvir.

O Bia esquece outra coisa: que a verdadeira comparação a ser feita, nesse caso, não é com os antigos LPs ou mesmo com os CDs. É com o rádio. Ali, também, se ouvia muito, de muita coisa. Nem por isso as pessoas deixavam de prestar atenção ao que realmente gostavam — roqueiros narigudos como o Bia ouvindo Lou Reed, ou mineiros trotsquistas barbudinhos como o Idelber ouvindo sei lá quem (talvez entrevistas do Telê Santana em cassete, sei lá…).

A questão da possibilidade de escolha é importante, claro. Nos anos 80, era virtualmente impossível achar muito do que se queria ouvir. Ficava-se restrito ao que as gravadoras queriam ou podiam oferecer. Hoje, com alguns cliques e palavras-chave pode-se encontrar o que quiser. Para beatlemaníacos como eu, que se sentiam iluminados por terem o único Decca Tapes da cidade e orgulhosos pelo fato de ele correr de mão em mão para ser gravado em fita cassete, a possibilidade de ouvir o que quiserem é algo fantástico. É revolucionário.

O LP foi inventado em 1948, como lembra o Idelber, mas foi só a partir dos anos 60 que passou a ter relevância. Foi inventado para suprir as deficiências que os formatos anteriores tinham: discos de longa duração poderiam acondicionar peças maiores, principalmente eruditas.

No que diz respeito à música pop, no entanto, o LP era pouco mais que um suporte ao que realmente importava: os compactos. Até o rock se afirmar como música “madura” (se é que isso não é uma contradição em termos), LPs eram normalmente coletâneas de compactos. Era para eles que se dirigia a capacidade criativa do artista e os maiores esforços de relações públicas das gravadoras. Por isso a música pop se organizou em torno de canções com no máximo três minutos.

O produto não podia ser mais simples: sete polegadas, 45 rpm, uma canção, às vezes duas. Sem capa ilustrada. Sem nada além da música. As pessoas não compravam o compacto porque a capa era bonita ou porque achavam estar conseguindo uma melhor relação custo/benefício. Compravam porque aquela música era boa.

Foi a geração dos anos 60 que deu ao LP uma dimensão, digamos, mais respeitável. Artistas como os Beatles, que ao gastar uma soma espantosa na capa do Sgt. Pepper’s (que custou mais que toda a gravação do seu primeiro álbum) deram um valor intelectual até então inexistente ao LP (valor que, a propósito, nunca seguiram ao pé da letra. Com exceção do lado B do Abbey Road, os Beatles nunca fizeram nada realmente conceitual. Aliás, nem mesmo o Sgt. Pepper’s. Aliás aliás, eles só compunham para álbuns sob pressão, quando precisavam completar um disco por imposição da gravadora. Sua luta verdadeira era sempre para compor o próximo compacto, e a maioria das canções que completavam o LP eram consideradas, por eles, apenas fillers).

A coisa piorou, e muito, a partir dos anos 80. O casamento entre música e vídeo promovido pela MTV praticamente destruiu o valor intrínseco da música. Lixo, muito lixo musical foi empurrado goela da sociedade abaixo por ter, como trunfos, um bom diretor e um bom relações públicas. Para usar como exemplo o rei dos videoclipes, o comunista Michael Jackson, é sintomático que as pessoas lembrem mais de Thriller, uma canção medíocre, do que de Billie Jean, bastante superior. Apenas porque o seu videoclipe era melhor — ou mais impactante.

Mas as novas facilidades de distribuição não são a questão verdadeiramente fundamental, na minha opinião, no que diz respeito ao produto cultural.

A ascensão do MP3 e das redes peer to peer, finalmente, libertam a música de tudo o que é acessório. Dos artistas gráficos, dos diretores de vídeo, do poder de marketing das gravadoras. A canção pop passa a ser importante por si mesma. As pessoas deixam de comprar um disco influenciados por sua capa ou porque, de doze canções, há três de que gostam e que os forçam a levar, de contrapeso, nove canções ruins. Em vez disso, ouvem a música pelo seu valor real, livre de boa parte de outras condicionantes. Não foi à toa que o pessoal do Metallica, em sua diatribe ludita contra o a troca de arquivos, disse que lojas como a iTunes “matam o formato do LP”. Como se formatos fossem mais importantes que a música (no caso deles, talvez tenham razão. Mas mesmo eles acabam de se render à realidade).

O MP3 e o P2P trouxeram liberdade de escolha às pessoas. Mais do que nunca, elas podem ouvir apenas o que é bom. Agora podem voltar a realmente ouvir música, e a escolher o que lhes parece bom, sem que o mercado lhe imponho de maneira tão ostensiva gostos e padrões. Essa liberdade é insubstituível, e não tem preço. E se para conquistá-la é preciso jogar fora os velhos vinis e CDs sem personalidade, que se jogue. Que façam como os bobões que queimaram discos dos Beatles quando Lennon disse que eram mais famosos que Jesus Cristo. Os verdadeiros fãs de música agradecem.

18 thoughts on “Sobre a liberdade de escolha

  1. “Agora podem voltar a realmente ouvir música, e a escolher o que lhes parece bom, sem que o mercado lhe imponho de maneira tão ostensiva gostos e padrões.”

    Rafael, acho q vem aih uma nova forma de marketing, nao? Muda o formato, aumenta o poder de escolha, mas continuam as grandes gravadoras/empresas a empurrar o som q lhes convem. Soh q hoje em dia atraves de posts em blogs, visitas no myspasce, primeira pagina da loja do iTunes, etc. Hah escolha, concordo, mas o mercado de certa forma continua impondo. Nao eh tao preto no branco assim, pelo menos em minha opiniao.

  2. Bem, eu baixo muita música da internet, mas ainda me sinto preso ao formato atual. Baixo o disco todo e ouço ele na ordem, do modo como eu faria se estivesse com o CD físico.

    O que mudou radicalmente foi a maneira de eu conhecer artistas que eu não conheço. Não sinto a menor necessidade de ler revistas ou ouvir rádio. Eu simplesmente vou no Allmusic ou sites semelhantes, e procuro aquela parte “se você gosta do artista X, então você vai gostar desses artistas aqui”. Dou uma olhada muito rápida na discografia, só para identificar o(s) disco(s) mais representativo(s), e baixo pra ouvir.

    Foi assim, por exemplo, que eu conheci o Jeff Buckley. Fiquei quase um mês ouvindo “Grace” todos os dias, tentando entender se o cara era um babaca eclético ou um gênio. Só depois de ser conquistado pelo disco é que eu fui procurar saber quem ele era. Pensei que ninguém conhecia, e quase caí pra trás ao ver que ele era tão influente quanto Thom Yorke, e que, como todo mito, morreu jovem.

    Para quem tem curiosidade, e sabe usar a internet, descobertas como essa podem ser feitas todos os dias.

  3. Tá boa essa discussão, e todos vcs até agora falaram de coisas com as quais concordo mto e outras das quais discordo. Na verdade acho que fico num incômodo meio termo: não abro mão da disponibilidade da música hoje, e da facilidade que tenho em garimpar o que quero (estou ouvindo agora mesmo discos do Jorge Ben que nem em catálogo estão mais). Ligo mto pouco para o encarte do cd ou a arte do LP, mas confesso ter um certo receio de passar a sentir a música como algo descartável demais, efeito-colateral dessa nossa maravilhosa sociedade da informação. O fim do seu texto é genial, mas vejo nele algo que ainda é futuro. De certa forma vejo como a Lucia Malla, mas acho que a mudança do modelo de negócio da industria da música é inevitável e bem vinda.

  4. Um “sergipano” morando no Rio de Janeiro, um cara que incomoda quando fala ou escreve o que pensa (o artigo sobre Neópolis), esse deve ser o Rafael da UFS….

    Grande Abraço

    Téo

  5. A vantagem dos LPs em relação aos CDs não está no formato, mas no fato de que LPs são mais antigos — ou melhor, no fato de que antigamente a masterização tinha mais amplitude dinâmica de volume. Os instrumentos que eram baixos tocavam baixo, os que eram altos tocavam alto; se o cantor sussurrava, o som saía baixinho. Hoje a moda é ampliar os sons suaves, de forma que se você ouvir uma música no volume 10 tudo toca no volume 10. Deixa a música mais marcante à primeira ouvida, mas no fim dá aquela sensação de canseira, de não conseguir ouvir o disco todo. E o pior de tudo é que o CD tem mais capacidade para volume dinâmico que vinil (90dB contra 75), mas a capacidade não é explorada por puro modismo. É a chamada guerra de volume (as Loudness Wars; este artigo é bem informativo).

  6. Rafael, com licença? Vim parar aqui por sugestão do Idelber. Olha, preciso discordar de voce e o faço. Meu ponto principal na disputa LP x CD – parece que no fundo é isto, uma “finalíssima de consoantes” – é a questão das capas. O visual dos LPs fazia parte do prazer de ouvi-los. Olhar as capas nas lojas já era sonhar com o prazer que os álbuns trariam. Que nem cartaz de filmes, ou roupas nas gentes…Este prazer, este está se indo. “Gone With The Wind…” Que nem aqueles prazeres que parecem extintos, tal qual almoçar lendo rótulo de lata de ervilha ou de pacote de sucrilhos, agora come-se na frente de um computador. Bom, que nem o Gil em “Extra”: “…resta uma ilusão…”, talvez – não vejo porque, pra citar o artigo “estopim”, Robinson não possa passear em Babel de vez em quando, com ou sem I-Pod, até comprar 78 rpm, que em Babel tudo se acha. Abraço.

  7. eu AMO o rafa.

    hermenauta: só para matar olavetes.

    o rafa tem essa QUALIDADE de resumir bem o que eu digo.
    eu me queixo que o excesso de informação está ao alcance de uma fatia muito pequena e que essa fatia, APESAR do acesso, provavelmente não presta atenção nele, tão CONFORTÁVEL que está em TÊ-LO.
    o MP3 e o P2P dão a IMPRESSÃO que o acesso existe, mas 20% de quem tem acesso caseiro a internet (10% da população), baixa filmes e vídeos de maneira satisfatória. isso é MUITO DIFERENTE do rádio.

    não sou saudosista e não defendo a “ARTE DA CAPA E ENCARTE” do discos de vinil – e nem defendo os próprios. a síndrome de babel que nomeei se refere a pessoas SORTUDAS que navegam nesse MAR de informações sem se atentarem SEQUER às canções.

    excelente discussão, espero que continue nesse nível.
    :>*

  8. Quanto ao comentario do mauro sobre as capas dos lps e da curtição que era admirá-las eu concordo e também sinto falta. Mas analisando por outro prisma isso combina com o avanço dos tempos mesmo. Quase tudo no mundo vem sem capa agora. A mulherada nao anda mais chiquerrima como a Jackie O.
    O lance é ver de biquini e ja levar pro abate. Pra que perder tempo? Come logo! Quer dizer: ouve logo!
    O romantismo está morto, viva o pragmatismo… Fazer o que? 🙁
    Beijos!

  9. Vou repetir o que já falei pro Bia e pro Idelber, há muita informação, sim, e nem todo mundo sabe usá-las de modo adequado. Tudo tem o seu lado bom e o seu lado ruim. O mp3 por permitir que o fã de determinado artista baixe apenas o que ele quer, é uma maravilha. Mas prejudica o próprio artísta na questão de direitos autorais. A MTV prejudicou um pouco a música porque muitos artistas passaram a quase que serem obrigados a compor já pensando no vídeo. Mas não acredito que tenha sido tão vilã. Ela serviu para promover artistas aos quais nós aqui no Brasil, por exemplo, não tínhamos acesso. Isso além de produzir vídeos que foram verdadeiras maravilhas. Como da Madonna, que postei há dias no Bala. Temos que combinar que a qualidade da música americana na época em que ela surgiu não era das melhores.
    E não tão mais medíocre do que Billie Jean. E esta última fez até muito mais sucesso do que a primeira.
    gd ab

  10. Bem, nada tenho a acrescentar ao que você disse.

    Eu sou ligado em música, adoro música, e pra mim esse negócio de “formato” ou a questão das capas é totalmente irrelevante.

  11. Rafa, eu gosto mesmo é de cd de loja … dá prazer rasgar o plástico … Dos lps, saudade das capas, tb.
    Bjo,

  12. Minha opinião… A evolução já bateu à nossa porta faz tempo. Veio em forma de CD, DVD, iPod, Home Teather, microondas, freezer, computador de bordo em automóveis, computadores, enfim, eletrônicos. Tanto faz LP, CD, compacto simples ou duplo. O “seu” gosto não vai mudar pela forma em que lhe é apresentada. Se você gosta de Adriana Calcanhoto, vai continuar gostando; Andrea Boccelli, também. Do mesmo jeito que rock, sertanejo, samba… O que chamamos de “evolução” já passou do limiar de nossa porta.. Não adianta remar contra… O que eu acho que deveria estar em discussão é o preço absurdo de um CD, de um DVD, quando do seu lançamento. Quem não pode baixar estas músicas e fazer seu próprio CD, como nós que temos acesso à internet e temos computador em casa com todos estes recursos, este sim, deveria cobrar dessas gravadoras, um preço decente! Eu não pago R$ 45,00,
    R$ 50,00, por exemplo, num DVD ou CD de lançamento! Alugo na locadora para assistir, caso não tenha visto no cinema, e espero o preço baixar (ou entrar em promoção) para comprar, ou compro já “previamente” visto na Blockbuster… No caso de CD, ou baixo, ou peço emprestado e faço cópia ou espero entrar em promoção.

  13. Nunca dei valor a capas de disco. No máximo lia os encartes para procurar a letra das músicas.

    Acho que música deve ser vendida como shareware. Você baixa e escuta. Se gostar, paga. Se não gostar, deleta.

  14. Bem, se o proprietário do Blog e moderador permitir que eu faça uma réplica e uma tréplica a mim mesmo – já concluo, agradeço à vossa excia – deixa concordar com tudo que a Sandra falou, com todo mundo que falou bem das capas dos LPs e com o segundo parágrafo do comentário do Biajoni. Sabem, o receio que às vezes volta é de acontecer tal qual tempos atrás fizeram com os filmes preto e branco: “colorizaram”. Acho que até essa palavra foi inventada especialmente pro triste evento. Ou como fazem nos grandes centros, onde há um afã de se mudar fachadas de casas, prédios, lojas, parece que o “mercado” enjoa-se rápidamente de si mesmo. Ou sei lá qual a razão. Não nos iludamos, estamos todos sintonizados com os novos tempos, cada qual com seu arsernal, não se trata de Progresso X Atraso. Mas, minha simples pergunta é, tal qual perguntaria o Biajoni se bem o entendi: quantidade é qualidade? Babel não é tão Babel assim? Pra viver precisa da obsolescência planejada? Não dá mesmo pra comprar um 78 rpm por aí, tem que quebrar tudo?
    Boa terça pra todas e todos, obrigado, Rafael, pela paciência e permitam-me(tal qual faço nos outros blogs) compartilhar com todo mundo o que estou ouvindo- que aliás patéticamente convido a aderirem à prática, não requer engenho nem arte – que é Carmen Miranda em “Touradas de Madrid”. Antes, Black Eyed Peas, em Shut Up.

  15. Mauro, nem quantidade e nem qualidade. Diversidade é a palavra. Por que?
    Porque qualidade em música não é um conceito universal. E porque quantidade produzida pela grande mídia deu no que deu: repertório popularesco, apelativo, homogêneo (um grande nivelamento por baixo, imho).

  16. eu juber rodrigues gostaria de ganhar uns lps do jerrey adriano devo tudo a voçe.o italianismo. da jovem guarda; elvis presley .os bitos ;pode esta mau consevado .mais da para ouvir;meu telefone e033.99.59.86.76.ou poderia mine screver, morro na cidade de governador valadares .mg.no distrito baguari .rua coronel roberto soares ferreira numro 40

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