Cine Tamoio

Semana passada este blog recebeu um comentário de um estudante da Unibahia, fazendo uma pergunta sobre o cine Tamoio. Curiosamente, eu soube que o Tamoio tinha fechado (para se transformar — adivinha? — em uma igreja evangélica) por outro comentário, deixado aqui em fevereiro ou março.

Olá Rafael!
Apesar de você discorrer sobre o filme “Em algum lugar do passado”, não é este o motivo que me traz aqui. Sou estudante de jornalismo da Unibahia e estou fazendo um trabalho sobre o fechamento do cine Tamoio, como você cita sua visita a este cenema gostaria de contar com sua ajuda para desenvolver o trabalho. Você se importa em me relatar suas experiência no cine Tamoio e como você se sente por ele ter virado uma igreja evangélica?
Caso seja possível envie um e-mail para xxx@xxx
Obrigada pela atenção,
Cássia Carneiro.

Cássia,

Faz muito tempo desde a última vez que entrei no Tamoio. Foi em 1993, acho, para assistir a “Corpo de Evidência”, filme ruim com a Madonna e o Willem Dafoe. Na verdade, a época em que mais fui àquele cinema foi no começo dos anos 80.

Em primeiro lugar, o Tamoio é só mais um. Todos os cinemas do centro de Salvador fecharam as portas ou, com “sorte”, se transformaram em exibidores de filmes pornográficos, adiando um pouco o primeiro fim, que é inevitável. Um ou outro, esses foram os destinos do Excelsior, do Jandaia, do Pax, do Bristol, Liceu, Astor, Tupi, do Popular. Duvido que a maioria dos soteropolitanos na casa dos 20 anos sequer lembre de todos esses cinemas.

O problema é que não há saída para os cinemas de centro. Seu fechamento progressivo é o resultado de um processo de modernização das cidades, de migração da classe média consumidora para os shopping centers. Não dá para evitar. É até uma prova do valor desses cinemas, como elemento cultural urbano, que tenham sobrevivido tanto tempo mesmo décadas depois de todas as lojas chiques terem ido embora da rua Chile. O Tamoio sobreviveu à Sloper por muito tempo.

Para que esses cinemas sobrevivam é preciso fazer o que o Unibanco fez com o Glauber Rocha aí em Salvador. Mas mesmo esse não é exatamente um “cinema de centro”; está mais para um “míni-shopping cultural” no centro da cidade, com várias salas de exibição. Um exemplo melhor seria o que a Petrobras fez com o Odeon, no Rio. Em qualquer desses casos, é um investimento que tem pouco a ver com o mercado.

Há um outro lado, também. Eu acho meio irônico que, sempre que um cinema feche as portas (e quando é para virar igreja evangélica a grita parece ser maior, talvez porque a classe média católica se assuste com o crescimento das igrejas pentecostais entre os pobres), as pessoas reclamem, chorem suas saudades dos velhos tempos. Elas só não se fazem uma pergunta simples: há quanto tempo elas não iam para aqueles cinemas, preferindo o conforto e a maior adequação social dos cinemas de shopping? As pessoas parecem esperar que cinemas funcionem sozinhos, apenas para manter uma paisagem urbana familiar, talvez a sensação de que as coisas continuam como eram. Mas isso é impossível.

De certo modo há uma grande hipocrisia em tudo isso, como é típico da classe média.

De qualquer forma, eu acho melhor que um cinema desativado vire igreja do que estacionamento ou loja. Pelo menos eles continuam, de uma maneira meio torta, fazendo o que sempre fizeram: criando sonhos.

Um abraço, e espero que tenha ajudado,
Rafael

Originalmente publicado em 16 de junho de 2005

6 thoughts on “Cine Tamoio

  1. Rafael, sou aluno da UCSAL, e estou fazendo uma monografia sobre prostituição másculina, e soube que nos cinemas da Avenida JJ Seabra, quando exibiam filmes pornôs, muitos michês se dirigiam ao local.
    Gostaria de saber quando estes cines foram fechado, e também, a partir de quando passaram a exibir este tipo de película de baixo nível.
    desde já agradeço.

  2. Olá Rafael,
    Sou aluno de Direito e estou fazendo minha monografia com o tema: “Regulamentação da atividade de prostituição” o tema é abordado em uma visão Jurídica e com comparações a outros ordenamentos jurídicos.
    Caso tenha algo a este respeito e puder ajudar, agradeço, principalmente sobre leis em outros países.

  3. Infelizmente, patrimônios culturais de Salvador estão sendo perdidos e nada é feito. Concordo muito com o que Rafael disse no seu texto, muitos desses cinemas, simplesmente fecharam suas portas por falta de público, os cinemas não podem sobreviver ao tempo, sozinhos. Eu não vou nem muito longe, a filme Titanic (a versão nova), assistir no Tamoio com minha mãe, era pequena na época, mas recordo da imensa fila que nós duas enfrentamos para comprar o ingresso no Tamaio. É muito triste ver parte da história da nossa capital, fechando as portas ou como disse Rafael: “virando estacionamentos ou lojas”. Que virem, faculdades, prédios que sirvam para relembrar a história e divulgá-la e para esse fim, nada melhor que uma instituição de ensino superior no local.

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