Prestação de contas

Há tantas coisas de que, se não me arrependo, certamente não faria de novo: ficar pendurado no capô de um Maverick a 100 por hora em um carnaval, mandar gente demais à merda, mergulhar de lugares altos demais, caminhar sozinho de madrugada pela Saúde, não ter dito “não” mais vezes, estar ao lado de uma amiga prestes a jogar um coquetel molotov na polícia, ser grosso com umas pessoas e não ser com outras, viajar de Aracaju a Petrópolis com 500 cruzados — equivalentes a 20 coca-colas –, namorar quem não devia, não namorar quem devia, pegar um táxi no aeroporto de Veneza, dormir ao relento na entrada de Aracaju com a bunda para baixo por medo dos travestis que rondavam o lugar, montar uma égua chucra e ser jogado, humilhado, a alguns metros de distância, ser expulso de bares por comportamento impróprio, entrar no fosso dos jacarés, acordar sem saber onde estava, explicar a uma militante da UJS o trotskismo na visão do PCdoB em um ônibus cheio de professores paulistas trotskistas da Apeoesp, não ter feito a campanha de 1998, fazer um strip-tease coletivo no Cine Palace durante um filme dos Trapalhões, sair correndo do bar porque o sujeito que estava com aquela moça tinha um revólver na mão, vandalizar todo o condomínio com requintes pirotécnicos, mandar o sujeito que me assaltou tomar no olho do cu; e no entanto, à medida que o tempo vai passando e o corpo não quer mais que um sofá confortável com suco de mangaba e uma ruga fica cada vez mais tempo entre as sobrancelhas, isso é tudo o que sobra, porque de todo o resto eu esqueci, as coisas de que me arrependo e as que faria de novo, as coisas que deveria ter feito e fiz, e nenhuma delas me faz sorrir, hoje.

Originalmente publicado em 22 de fevereiro de 2006

7 thoughts on “Prestação de contas

  1. Nostalgie.
    Os tempos eram outros. Se fizesse qualquer coisa dessas hoje ou muito menos, talvez não estivesse vivo para contar.
    Boa semana! Beijus

  2. JAMAIS me arrependi de ter sido expulsa de um bar por comportamento impróprio…JAMAIS!!!!

  3. Lendo este texto, lembrei de um texto de Cony que mudou minha vida. Ele escreveu entre parágrafos de boa literatura que o único arrependimento que guardou do alto de sua idade já avançada para os padrões ocidentais, foi ter se preocupado demais com as coisas. Por que no fim, tudo se ajeita. Tudo passa, até as maiores tragédias. De lá para cá, venho lembrando sempre desta passagem e a vida tem ficado mais leve. Funciona.

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