As vozes da taba

No caderno Eu&Fim de Semana do Valor de sexta-feira passada, Wanderley Guilherme dos Santos escreveu tudo o que eu queria dizer sobre eleições americanas mas não tinha tido saco.

Num artigo intitulado “Nem Obama nem Hillary. Não sou americano”, Wanderley resume bem a situação. Faz notar o seu espanto diante da extensão do envolvimento do que chama a intelectualidade nacional com a campanha eleitoral americana. E nota um equívoco primário na expectativa de que “a vitória de um ou de outra trará modificações de espetaculares conseqüências para o resto do mundo e, portanto, para o Brasil”. Wanderley aponta para o que chama de sunken costs para lembrar que as mudanças, se vierem, serão gradativas, não importa quem ganhe. Porque os Estados Unidos são muito maiores que seus presidentes.

O artigo de Wanderley me lembrou que essa situação é a exatamente a mesma na blogosfera. A discussão das eleições americanas é talvez o principal tema nos blogs brasileiros atualmente. E nisso o equívoco é ainda maior. Porque enquanto Hillary e Obama jogam seu xadrez político, no Brasil começam a se definir os cenários das eleições em milhares de municípios.

Goste-se ou não, reclame-se ou não da falta de glamour nas eleições em João Pessoa ou Chapecó — nem de longe comparáveis à briga pela eleição do grande imperador ociental –, elas são de importância fundamental para o país. Em outubro se definirá uma parte significativa da configuração política nacional para os próximos anos. Muitos dos candidatos a prefeito ou vereador serão candidatos à Câmara ou ao Senado Federal em 2010. É essa configuração que definirá a correlação de forças naquelas eleições, é ela que vai influir pesadamente na política de alianças de todos os partidos nos próximos dois anos; e se não fosse por isso, é daí que vão sair os pedidos de verbas, quando menos. Eleições municipais são o varejo da política, digamos assim; mas o mundo não vive de atacadistas.

Do ponto de vista interno, essas eleições municipais são muito mais importantes do que a eleição de Clinton ou Obama, até mesmo que a eleição de McCain. É essa política de varejo que cria a política nacional. É ali, nos municípios, que em última análise se definem os avanços e os retrocessos deste país.

À grande mídia nacional, claro, isso importa pouco. Centra-se fogo nas eleições das duas maiores cidades do país, às vezes incluindo Salvador e Belo Horizonte, e sem contar Brasília. E só. Enquanto isso, dezenas de outras capitais, e milhares de pequenas cidades e redutos eleitorais de políticos nacionalmente importantes, simplesmente não existem.

É esse vácuo que a blogoseira poderia aproveitar. Ao se debruçar sobre o seu universo local poderia fazer diferença, oferecendo ao mundo uma perspectiva que, normalmente, apenas jornais locais oferecem. Mas esses jornais locais têm limites de circulação, coisa que um blog não tem. A partir de pequenos pedaços, a blogoseira poderia enriquecer o debate nacional e a cultura política do país.

No entanto, de modo geral parece perder tempo se limitando a reproduzir ou, no máximo, interpretar o que a mídia — e por mídia entenda-se também os grandes blogs — diz. Desempenha apenas o seu papel de caixa de ressonância. Um papel legítimo, nada desprezível — mas muito inferior ao que poderia exercer.

Talvez isso reflita uma certa alienação da tal “intelectualidade” tupi, que se contenta em refletir o mesmo comportamento antigo, e que diante de um meio novo e cheio de possibilidades, o utiliza apenas para repetir as mesmas coisas. Os índios da taba continuam repetindo o que ouvem o branco falar.

7 thoughts on “As vozes da taba

  1. Rafael,

    Seu texto me lembrou uma declaração do José Paulo Paes: “Numa cultura de literatos como a nossa, todos (os escritores) sonham ser Gustave Flaubert ou James Joyce, ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie”. Creio que é a mesma sina dos comentaristas políticos e blogueiros tupiniquins. Ninguém quer analisar a própria aldeia. Todos, como o Ratinho Cérebro, querem dominar o mundo. Êta pensamento mais provinciano.

  2. Nessas manifestaçoes de entusiasmo pela campanha nas primarias americanas, a gente vai tambem revelando a mesma inocencia [oou sera hipocrisia] com que analisamos a vida politica nacional. Me explico: o Brasil elegeu por duas vezes Lula com votacoes consagradoras [depositando grandes esperanças de mudanças] e ao mesmo tempo um congresso com maioria conservadora e fisiologica. E depois ficam muitos por ai reclamando dos “conchavos” e “concessoes” e “traicoes” do projeto do presidente da republica. Mas como governar com esse congresso sem concessoes? Como seria um governo em que o PT tivesse um numero de deputados proporcional aos de Lula? Esse voluntarismo grandiloquente que imagina uma especie de presidencia imperial que resolve tudo por decreto so pode mesmo dar em amargura [hipocrita]. Que congresso e que judiciario vao acompanhar um hipotetico Obama presidente?

  3. e como pautar o que está fora da pauta, para quem quer ser pauta dos jornalões? 😉

    queria ler o artigo, mas o valor cobra assinatura para leitura on line, e na última sexta não comprei o quase sempre imperdível caderninho.

  4. É o típico comportamento do colonizado. Brasileiro prefere falar sobre o que acontece no exterior do que se debruçar e analisar aquilo que acontece debaixo do próprio nariz.
    Por isso que esse país é a merda que é. Com os blogs não acontece diferente. É quase como acontece com galinhas num galinheiro. Uma franguinha começa a cacarejar aqui e rapidamente o barulho se espalha entre as outras galinhas, nenhuma delas sabendo porque está gritando, mas como gritam essas franginhas virtuais. Galinha é bicho que tem cerébro muito pequeno.

  5. Tenho a maior preguiça de ler/saber/me informar sobre as eleições americanas.
    Fale sobre quatis, por favor.
    Toda vez que vejo lembro da história das chaves.

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