A insustentável agonia do viver

Era começo de setembro e eu tinha comprado uns livros na Amazon.

Normalmente compro mais de 10 livros por vez, para diluir um pouco o custo do frete e tornar o negócio um pouco mais vantajoso. Ia demorar mais de um mês para que os livros chegassem, um pouco menos que isso até chegar a fatura. É uma espera agradável, essa, que só quem gosta de livros como objetos pode entender.

E então estourou a crise americana e o dólar disparou, e teve início o meu padecer.

A cada variação para cima eu via o o fim dos tempos à minha frente, a cada variação para baixo sentia um alívio desconfiado e temeroso. Antevia um cenário apocalíptico em que eu acabaria pagando mais de 100 reais de diferença.

Não que 100 reais sejam quantia suficiente para fazer alguém entrar em desespero. Também não é pouco, ao contrário do que o rico leitor aí possa dizer com um eventual franzir de sobrancelhas e lábio torcido de tanto esnobismo. Com 100 reais eu poderia pegar ônibus para o trabalho durante quase dois meses, mais se tivesse vale-transporte; poderia comer algumas vezes no McDonald’s; poderia alugar uns vinte filmes; pagar pouco menos de um mês de TV, comprar mais uns dois ou três livros na Amazon. Mais que isso: investindo 100 reais, dizem os mesmos especialistas que levaram o sistema americano à bancarrota, eu poderia chegar a um milhão em sei lá quantos séculos.

Mas não importa o valor de 100 reais. O caso é que compro livros na Amazon porque, afinal, eles oferecem melhor relação custo/benefício: hardcovers na língua original por um preço semelhante às brochuras traduzidas aqui, sem falar nos livros disponíveis apenas em inglês. Preço é fator determinante na Amazon, portanto, e porque o sistema americano pediu concordata eu teria que pagar mais que isso.

Justo eu, periférico do sistema, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes; justo eu, que passei toda a minha vida criticando exatamente aquele sistema que ora se esboroa em hipotecas. Nada poderia ser tão injusto, e era essa injustiça que me incomodava, que me fazia mais triste e mais angustiado: a perspectiva de pagar um ágio que acima de tudo me parecia indevido, uma ironia macabra semelhante ao atleta abstêmio que é atropelado por um caminhão de cerveja.

É nessas horas que podemos ver como funcionam os grotões da mente humana, e é um funcionamento estranho, esse. Porque algo inexplicável às vezes nos faz querer prolongar e intensificar uma agonia além do necessário, além mesmo do saudável; mente estúpida, essa, que parece achar que se eu me angustiar ainda mais o motivo da aflição vai passar mais rápido. Foi por isso, para acalentar esse pequeno purgatório, que instalei um gadget no sidebar do computador para acompanhar em tempo real a cotação do dólar.

E isso é tão estranho, porque me lembra que eu nunca quis ser operador da bolsa. Sempre olhei intrigado para aqueles moços alucinados se esgoelando e levantando as mãos em atitude súplice, coitados, e achava que havia meios mais dignos de ganhar a vida. É a fidalguia atávica dos Galvão, essa coisa de se achar cool demais para se prestar a cenas públicas de desespero e vexame, não importa o quanto isso renda, porque o recato e a compostura são mais importantes que dinheiro, é isso o que a gente leva desta vida, o dinheiro se bem utilizado ficou com aquelas moças ao longo dos anos.

Mas aquelas cotações mudando constantemente na minha frente me tornaram um operador silencioso e fracassado da bolsa — não, me tornaram algo muito pior que eles; porque enquanto eles ganham rios de dinheiro em troca de sua dignidade, eu estava descendo a esse ponto tão baixo por uns 100 reais, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais, mas de qualquer forma insuficientes para me fazer abrir mão daquela dignidade que deveria ser o meu ideal de vida.

A cada subida ou descida do dólar eu fazia questão de anunciar em alto e bom som os novos resultados. O Paulinho e o Edson, na minha frente, riam do meu sofrimento com descaso superior, preocupando-se em escrever os textos da campanha, que a gente tinha um prefeito para eleger. Enquanto isso eu, eterno desocupado, ficava pensando no meu prejuízo. Não exatamente no prejuízo, para ser franco, que franqueza é o que me resta a esta altura: mas no ultraje que seria pagar 100 reais a mais por uns poucos livros vagabundos. Não era o dinheiro que importava, pelo menos não muito: eu tinha firmado um trato com a Providência, estabelecido as regras do jogo com suficiente antecedência; mas ela, de repente e sem aviso, descumpriu o acordo, tirou um ás roubado da manga, e impôs novas condições sem sequer me consultar. Isso não é coisa que se faça. Há que se ter um mínimo de retidão e de caráter nesse negócio de viver, e minha ruína foi achar que essa regra não se aplicava apenas a mim, mas também às Parcas, aquelas vadias.

A campanha acabou, eu fechei o meu computador e só fui abri-lo dia desses. Aquelas poucas centenas de dólares dos livros foram pagas, e até agora não fiz questão de saber de quanto foi o ágio que covardemente me obrigaram a pagar. Tem coisas na vida que é melhor deixar para lá. E pensando assim, talvez algum dia eu esqueça que fui humilhado e obrigado a pagar 100 reais, talvez mais, talvez menos, por causa de uns livrinhos.

11 thoughts on “A insustentável agonia do viver

  1. eu também participei da farra do dólar baixo na amazon, comprando uns livrinhos a baixo custo que precisava para estudar. o fato é que eu já estava com as mãos coçando para comprar uma câmera fotográfica nova pra mim, já que existem algumas lojas associadas a eles que vendem para o brasil. aí o dólar disparou.

  2. Todas as alternativas acima… quero dizer todos disseram alguma coia que eu diria.
    Rindo com o que o Hermenauta disse;-), eu repito outras pessoas, delícia de *crônica*, beleza feita de angústia , algum sofrimento. Crônica feita pra er.. entendidos no assunto e nem sequer diz quais são, pra gente morrer de inveja, e nem diz se agora, depois de quase tudo, vc olha e diz, vocês, livros, têm de valer:-)
    beijo
    M.

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