Estamos bem mesmo sem você

Ultimamente, ir ao cinema tem sido basicamente uma boa experiência de lazer. Filmes no máximo razoáveis se sucedem, precedidos por elogios hiperbólicos da crítica que parecem emergir de um grande lago de baixos padrões. Oferecem hora e meia, duas horas de suspensão da descrença, como produtos eficientes da indústria cultural que são — e quase todos eles vão se diluindo na memória a partir do momento em que saímos do cinema.

Uns poucos nos últimos tempos, nos últimos dois anos, por exemplo, conseguiram o contrário, crescer à medida em que se pensa neles. Coloque-se aí nessa pequena lista “A Professora de Piano”, uma tour de force de Isabelle Huppert dirigida por Peter Haneke, e “Medos Públicos em Lugares Privados”, de Alain Resnais; talvez mais um ou dois. O resto é esquecível — e aqui incluo mesmo filmes elogiadíssimos como WALL-E e The Dark Knight.

Mas quanto mais penso em “Estamos Bem Mesmo Sem Você” (Anche Libero Va Bene, 2006), mais ele revolve na minha cabeça.

O filme, estréia do ator Kim Rossi Stuart na direção, conta a história de Renato (o próprio Stuart) e seus filhos, Viola (Marta Nobili) e Tommaso (Alessandro Morace). A mãe das crianças, Stefania (Barbara Bobulova), os abandonou. Mais tarde ficaremos sabendo que esse é um comportamento recorrente dela, sempre abandonando a família quando conhece um homem rico — e sempre voltando arrependida para eles, depois do término de sua aventura.

Sem a figura materna, aquela pequena família se ajustou perfeitamente. É uma família moderna comum, como tantas outras, longe do ideal clássico familiar mas, de certa forma, perfeita em suas imperfeições.

Então Stefania volta, no que é uma das cenas mais competentes do filme: a surpresa de Renato ao encontrá-la em casa com os filhos não é mostrada imediatamente. Um diretor menos competente mostraria o susto no rosto do marido abandonado. No entanto, Stuart mostra apenas a ansiedade de Stefania e dos filhos, angustiados diante da expectativa sobre a reação de Reanato.

A decisão de aceitá-la de volta é conturbada, mas pertence a toda a família. Aceitar Stefania de volta é um peso que Renato não quer carregar sozinho. Viola a aceita sem reservas, feliz por ter a mãe novamente ao seu lado, algo perfeitamente compreensível em uma pré-adolescente. Mas Tommaso se retrai. Ele sabe o que vai acontecer: “Ela vai embora de novo”, diz para o pai, e no fundo todos sabem disso.

Agora estamos diante de uma pequena tragédia anunciada, mas em função do bem-estar da família, e da sua adequação ao modelo que eles julgam ideal, a esperança daquela pequena família precisa vencer a certeza da derrocada certa; e esse comportamento é mais claro em Viola. Há aí uma pequena inversão do modelo familiar tradicional: é a presença materna que se transforma em um elemento de desagregação familiar. Mas, ao mesmo tempo, essa nova situação deixa perceber que aquela tranqüilidade do início talvez não fosse tão tranqüila, que no quebra-cabeças que parecia harmonioso havia uma peça faltando, ainda que não se notassse claramente.

Mais tarde, Tommaso vê a mãe conversando com um homem numa festa, e o espectador percebe sua angústia crescente. Tommaso sabe o que vai acontecer, sabe que ela vai embora novamente. E isso acontece quando pai e filhos estão voltando para casa. Da rua, Tommaso vê as luzes do apartamento apagadas. Já no elevador ele fala para o pai e a irmã: “As luzes estão apagadas”. A pergunta a ser feita não é dita. Sobra apenas agonia, medo. E ali estão eles, na porta de um apartamento escuro, com medo de entrar para descobrir o que já sabem. É uma das mais belas cenas do filme.

O diretor Stuart não cai no erro de condenar explicitamente Barbara por seu comportamento. Mostra o seu esforço sincero em se adaptar à vida familiar. Seu amor por seus filhos é legítimo, e talvez também seja legítimo o seu amor por Renato. Stuart se revela um diretor competente e sensível, embora sem muitos arroubos estilísticos. Talvez por isso, por deixar que a história se conte por si mesma, ele permita que o grande trunfo do filme acabe sendo o desempenho fantástico de Alessandro Morace no papel de Tommaso. Morace consegue transmitir as emoções de Tommaso com facilidade e economia, e acima de tudo com uma verdade e naturalidade raras em atores infantis.

Um dos poucos críticos a reclamar do filme classificou-o como melodrama. Como se melodrama fosse algo ruim — alguém pode classificar, por exemplo, “Rocco e Seus Irmãos” como mais que isso, com suas mulheres se jogando aos pés de filhos mortos, com amantes se matando? A tradição operística italiana não pode prescindir do melodrama. Mas mesmo essa crítica é injusta com o filme. Dono de uma sensibilidade rara nos dias de hoje, em que o bombardeio dos sentidos se tornou a norma no cinema — mesmo em filmes inteligentes como “Onde os Fracos Não Têm Vez” –, “Estamos Bem Mesmo Sem Você” consegue ser delicado sem ser afetado, e tirar de momentos grosseiros a poesia necessária. Isso o ergue acima do melodrama comum.

É essa relação entre o menino e o seu universo que faz o filme. O esforço em contemporizar, em agradar o pai ao mesmo tempo em que tenta levar adiante a sua vida da maneira mais normal possível — um dilema expresso pelo título original do filme — acaba se tornando o cerne do filme. “Estamos Bem Mesmo Sem Você” é uma história de compromissos: consigo e com a família.

***

E é isso. Feliz Natal e um grande Ano Novo para todos.

8 thoughts on “Estamos bem mesmo sem você

  1. Rafael,

    Eu assisti.
    Não lembro o dia, lembro que não fui só…
    E quando sai do cinema eu queria chorar…
    Chorar muito…
    Assim como chorei…agora…ao ler seu post.

    Laura

  2. Olá Rafael, eu vi mas acho que verei novamente, pois acho que quando fui ao cinema para vê-lo não estava em um bom dia.
    Rever o filme entrará para a lista das prioridades para 2009.
    Mas entrei aqui para desejar um grande ano para você e seus familiares, e por que não, para todos que frequentam este blog.
    abraços.

  3. Já faz tanto tempo que um filme não me toca emocionalmente que nem me lembro qual foi o último.Espero que a crise mundial faça bem ao cinema, tornando diretores e roteiristas mais humanos.
    Um 2009 nota mil
    abração

  4. Meu caro,

    Não vi o filme, ainda, mas o verei.

    Concordo que cada vez mais o cinema tem se tornado fútil e compartilho sua sensação de esquecer aquilo que acabei de se ver assim que as luzes se acendem (sem ter medo de estar com Alzheimer ou algo do tipo).

    Antigamente assistir a um filme era um acontecimento. Mesmo
    sabendo que há muitos anos o Cinema é a grande indústria americana, acho que ficou fácil demais ganhar dinheiro e com isso filmes memoráveis, com roteiros inteligentes estejam mais escassos.

    Pode ser que esteja aos 37 me tornando um velho rabujento.

    Mas não sei. Outro dia estava pensando nisso. Tá tudo muito fútil.

    Talvez a exceção esteja nos Europeus, com algumas produções francesas e alemãs (viu A Vida dos Outros?).

    Acho que o alto orçamento deixa as pessoas insensíveis.

    Será?

    Um abração e Feliz Natal e Ano Novo.

  5. Rafael

    O último filme que eu assisti no cinema foi o do Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona. Filme do caralho. Estou até hoje tentando convencer minha mulher a fazer o que o pintor fez (pegou as duas e ao mesmo tempo – Penélope Cruz e Scarlett Johansson), mas ela está irredutível.

    Neto

  6. Rafael,

    Aqui em Natal o filme passou a semana passada….Concordo com os seus comentários e só reitero o desempenho do garoto: é fantástico e emocionante. Belo filme.

    David

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