“Das coisas que me irritam”, ou “Vai trabalhar, vagabundo”

Médico reclamando do Estado e dos planos de saúde.
Eu confesso: desenvolvi um preconceito invencível contra médicos. Não gosto deles como categoria profissional — na verdade não é um simples desgostar, é desprezar, mesmo.

Poucas coisas me irritam mais que ver médico do Estado ou da Prefeitura, que na hora de prestar concurso faz fila de dobrar a esquina, se recusando depois a trabalhar e justificando sua canalhice profissional com a alegação de que os salários são baixos.

Fazem isso porque podem, porque contra o Estado tudo parece ser permitido.

Nas últimas décadas, com o surgimento do SUS, o Estado ampliou bastante a estrutura de saúde pública no país. Algumas cidades, como Aracaju, têm cobertura de quase 100%. Mas a ampliação da estrutura não significou necessariamente melhoria dos serviços, e o principal calcanhar de Aquiles do sistema público de saúde é justamente esse: a qualidade no atendimento.

O mundo está cheio de médicos que deveriam ser expurgados de profissão que se pretende tão nobre. Profissionais que não atendem direito os pacientes, gente que faz exames em 3 minutos sem sequer olhar para o doente à sua frente. Isso, claro, quando vão trabalhar, porque o salário do Estado é garantido, eles podem simplesmente faltar e cuidar de outros empregos.

Quando alguém tenta fazer esse bando de vagabundos trabalhar, a coisa fica feia. Recentemente, um hospital público de Aracaju instalou um sistema de biometria para checar a frequência dos médicos. Colocaram cola nos leitores ótico.

E quanto aos planos de saúde, que segundo eles pagam muito mal, é simples: basta ter vergonha na cara e evitá-los. Montem seu consultório. Mas não: eles precisam dos planos de saúde para fazer algum nome, conquistar alguma clientela.

Médicos me irritam por uma questão de dignidade, se não profissional, humana. Eu tenho a impressão de que eles acham que, porque estudaram por seis, sete anos, merecem tratamento diferenciado em relação ao resto da humanidade. Como se o trabalho real fosse a faculdade, e o resto da vida uma aposentadoria confortável.

Jogador de futebol beijando a camisa do clube.
Ninguém jamais viu Pelé beijando a camisa do Santos, ou Garrincha beijando a camisa do Botafogo, nem Nilton Santos; ninguém jamais viu Zico e Júnior fazendo um gol e correndo para a torcida beijando para mostrar o seu amor ao time em jogaram suas vidas inteiras e com o qual até hoje têm ligações fortes.

Mas hoje qualquer jogadorzinho vagabundo recém-contratado, depois de uma passagem por uns 20 clubes, faz um gol e sai beijando a camisa do time, exatamente como beijará a camisa do próximo, e do seguinte.

Devem fazer isso para mostrar que quando forem contratados por outro clube vão defender a outra camisa com a mesma empolgação.

Mas não precisa disso. Basta fazer a sua parte. Jogue bem, o melhor que puder. E não finja amor, que amor por um clube tem são os idiotas que, por razões absolutamente irracionais, resolveram torcer por um time de futebol.

Publicitário reclamando de cliente.
Essa é clássica, e eu mesmo já fiz isso nos meus verdes anos. O redator reclama que o cliente achou seu título engraçadinho inadequado. O diretor de arte reclama que o cliente achou seu leiaute confuso.

É uma arrogância típica da profissão, de gente que se acha artista em vez do que verdadeiramente é: mascate. Talvez seja uma arrogância necessária, mas nem por isso correta.

Uma das coisas que aprendi na vida é que normalmente o cliente sabe mais sobre seu público consumidor do que publicitários podem sonhar em saber. Então publicitários aparecem com ideias bonitas, que às vezes só interessam a eles mesmos — olha que leiaute bonito! Olha que título engenhoso! –, e depois reclamam quando o cliente, que sabe quanto custa em seu bolso e em sua caixa registradora uma campanha mal-feita, ou inadequada, reclama que aquela ideia não vende o suficiente.

Isso num mundo ideal, claro. Na realidade, hoje em dia o mercado anda tão ruim, é tudo tão objetivo e mediano, a cópia de modelos já existentes é tão pervasiva, que se algum publicitário reclama que o cliente não gostou de sua cópia, ele é um caso perdido de falta de vergonha na cara.

Professor universitário fazendo greve e dizendo que é para melhorar a educação.
Professores, ao contrário do que gostam de dizer, não têm os piores salários do país. Pode checar: confira o valor do salário mínimo e compare com a média salarial de professores do ensino público estadual e municipal do lugar onde você mora.

Pode ser maior? Pode, sim. Na verdade, o salário de todo mundo pode ser maior. O meu certamente deveria ser. Mas não são os salários mais baixos do mundo. Na verdade, graças ao papel do Estado como principal empregador de professores, o salário médio de professores subverte a lei da oferta e da procura.

A greve é um direito inalienável de qualquer trabalhador, e ninguém deve sequer questionar isso. Eu, particularmente, acho que no caso dos professores há outras maneiras de fazer greve; por exemplo, dar aula normalmente mas não baixar notas ou frequência, por exemplo, que é o que conta para a burocracia do Estado. Mas a prática é mais complicada. Os professores fazem greve por 3, 4 meses pedindo, digamos, 40% de aumento salarial e cuidam de meter na pauta de reivindicações uma vaga “melhoria das condições de ensino”. No final, aceitam quaisquer 0,5% de aumento — em três vezes sem juros — e, para os alunos que ficaram sem aula, passam um trabalho vagabundo qualquer que valeria as notas perdidas.

No fim das contas sobra para os estudantes. E eu tenho a impressão de que uma das causas da decadência do movimento estudantil foi justamente o fato de DCEs e uniões secundaristas embacarem alegremente no vagão das greves de professores, esquecendo de defender os seus próprios direitos.

Professor botando a culpa no aluno.
Há muito tempo este blog se pronuncia contra a escola pública. E uma das principais razões disso são os professores. Há problemas de gestão, também, e muitas vezes a falta de segurança é um problema real para muitos professores da rede pública.

Mas quando um professor reclama da falta de interesse de seus alunos e utiliza isso como justificativa para o baixo nível da educação, está dando uma prova de incompetência absolutamente vergonhosa. Não há muito o que discutir. A questão é tão simples que até assusta: se os alunos estivessem dispostos a aprender sozinhos, não precisariam de professor.

Policial reclamando de salário.
O sujeito quer ser puliça para bater no povo e ser otoridade. Faz concurso para ganhar mil, 2 mil, 3 mil reais. E depois reclama que é mal pago.

Ah, vai sentar em cima do seu cassetete.

Não reconheço em nenhum, absolutamente nenhum funcionário público o direito a utilizar seu salário como desculpa para não trabalhar. Ele sabia quanto ia receber quando foi alegre fazer o concurso. Não está satisfeito? Vá embora. Peça demissão.

12 thoughts on ““Das coisas que me irritam”, ou “Vai trabalhar, vagabundo”

  1. Rafael,
    Em 13 de agosto de 2009, compareci à Academia de Polícia do Estado de São Paulo para a realização da última e mais temida etapa do interminável concurso público para a carreira de Investigador de Polícia: a Prova Oral. Éramos apenas 400 convocados dos 120mil inscritos disputando 1400 vagas. Enfim, antes da prova propriamente dita, há uma entrevista com um delegado. O Dr. Bittencourt, na entrevista, me fez a pergunta mais difícil que se pode fazer a um candidato a policial: “Por quê?”. Só tergiversei um pouco, mas o delegado ficou satisfeito. Falei em cumprir e fazer cumprir a lei, no papel disso na sociedade e tal. Politicamente correto e sem mentir.
    Não tem porquê. Você quer ser policial e pronto. Ninguém tem ‘O’ motivo para querer ser policial. Cada um tem vários. Os meus são o fascínio por alguas disciplinas, mais especificamente aquelas que compõem a mais ampla e multidisciplinar de todas as ci?ncias humanas: a criminologia. Também há outros motivos, como o desejo de extrair da ACADEPOL todo o conhecimento que ela puder me dar em seus diversos cursos. De armas a atendimento ao cidadão. Na entrega dos documentos, que realizei em fevereiro, essa pergunta é feita novamente na entrevista com a psicóloga. Nessa, deu pra ser mais específico.
    Tem gente que entra para as polícias (qualquer uma) com motivação criminosa e obscura, desde o começo. É minoria. Se eu não acreditasse que é minoria, não entraria para a polícia.
    Enfim, o que quero que voc? deduza de toda essa ladaínha é que não existe outra escolha. Você vai ser polícia porque quer ser polícia e pronto. E só vai pensar no salário depois do dia quinze do segundo mês de trabalho. O ramo da segurança pública é de competência exclusiva do Estado, pelo menos enquanto o LIBER não ganhar uma eleição e implantar o anarco-capitalismo (Robocop?). Ou você faz o concurso público – ciente ou não de todas as adversidades – , ou passa o resto da vida com pena de si mesmo e sentindo um formigamento cerebral a cada vez que passa uma viatura que poderia estar dirigindo…
    Salário? Não é tão simples assim. Interior e preriferia, São Paulo sertaneja e Brasil profundo, ouve-se histórias de policiais que pagam o cartucho/tonner de impressora do próprio bolso pra manter o DP funcionando. E cada um tem N histórias de quem faz ‘bico’. Data venia, quem trabalha no interior recebe menos, pois o Adicional de Localidade (ou lotação, tanto faz, é o ALE) é pago na proporção da população do município.
    E isso é o mais grave. O puliça, normalmente, tem família pra sustentar e uma extensa lista de dívidas. A maioria sofreu perdas salariais ao longo do tempo – e formou família, ora pois. E, já não bastando a carga horária extensa dos plantões (que só são12/36 em tese), ainda muitos fazem outra jornada, privada, de pelo menos mais 6 horas para fugir da fome. Tô falando sério.
    Tudo isso gera um estado de debilidade física e mental que vai se acumulando e modificando o perfil daquele que já foi um policial dedicado e satisfeito. Como é comum em todos os ramos do funcionalismo público, muita gente trabalha com ódio do povo, do Estado, do Governo, da sociedade. É uma coisa que vai se formando ao longo do tempo e se torna perigosa. Gente armada e mentalmente transtornada, e portanto com mais chances de errar. Gente armada não tem o direito de errar, você não acha? Eu acho.
    Bater no povo? Isso é pobre batendo em pobre. Entra no velho e complexo tema da luta de classes. Eu mesmo, após acompanhar a ação absurda da PM/DF na repressão às manifestações e a surreal greve da PC/DF em apoio a Arruda, passei a pensar se o aumento salarial repentino sem uma revisão e uma reciclagem na visão dos políciais em relação a seu papel na sociedade e no Estado não geram na verdade um (digamos assim…) aumento na arbitrariedade da ação policial porque houve a transposição de classe social do policial e, assim, a extinção de qualquer ’empatia’ que o policial como indivíduo e trabalhador pode ter para com manifestantes do povo e pessoas que lutam pela moralização política e por seus direitos. Claro que reservo essa minha idiossincrasia para o campo da mera possibilidade e do papo com um povo de esquerda – e se possível, muito de esquerda. Se o governo oferecesse aumento de 2mil para 5mil, eu pensaria na possibilidade de passar a odiar pobre porque deixaria de ser pobre? Claro que não. Vou ali financiar uma Yamaha Drag Star.
    Pedir demissão? Não. Você já entendeu que polícia é só aquela do Estado. Se um policial pede exoneração, o melhor que vai poder fazer é outro concurso, talvez para um cargo melhor remunerado. Eu nem tenho essa opção. Fui aprovado no último concurso de Investigador que não exige ensino superior. Só tenho o 2º grau.

    Os médicos? Caso parecido, eu acho. Não adianta generalizar. Tem médico, principalmente na esfera municipal, que faz concurso da prefeitura pra comparecer meia vez por semana no plantão ou turno do SUS. É pra garantir aqueles 850 a mais, pra financiar um carro de uns 60mil sem mexer no orçamento. Mas a maioria dos médicos do SUS e até mesmo dos convênios sofreu, assim como a maioria dos funcionários públicos, perdas salariaris graves e defasagem, além da degradação das condições de trabalho. Não vá ser lulista demais e enalecer aquela fantasia do SUS que funciona. Funciona nas capitais. Se eu tomar uma bala no centrão de SP, posso ir parar nas Clínicas, ou Mandaqui, Vila Alpina, Pedreiras… e minhas chances de sobrevivência são boas – e de tratamento digno idem. Se eu for mordido por um cão aqui na canina Pindamonhangaba, posso sofrer amputação. Normalmente, tudo isso é responsabilidade Estadual e Municipal. Mas o SUS (Federal) é que define os salários dos médicos. Mais um motivo para sermos, ao menos, solidários com as categorias que estão entre as mais mal pagas e desprezadas do funcionalismo – pois só dão gasto.
    Enfim, é preciso que você entenda, Rafael, que a lógica da greve e da manifestação é atrapalhar. Lembrar à sociedade que você existe. Interromper o trânsito. É assim mesmo.
    Se eu pretendo fazer greve? NÃO, até que se prove a necessidade e a legitimidade do contrário. Principalmente pelo fato de que ainda vou para a Academia (estabilidade, e tal), aguardarei a orientação do(s) sindicato(s) quanto a isso, e aposto que a orientação é ‘não’ mesmo. E nem quero. O que quero mesmo é vida digna para a categoria sem esses piquetes. E convenhamos que piquete de policial é algo surreal: um bando de gente armada vestindo preto (se forem Civis) e gritando palavras de ordem contra o Governo e em apologia a uma corporação armada. Acredito, até que relevante jurista me diga o contrário, que o policial enquanto tal não constitui membro da sociedade civil. Ou seja, piquete policial cheira a golpismo. O problema é que ali também estão cidadãos trabalhadores que querem ter uma vida digna enquanto fazem o que gostam sem ter na mente o ódio gerado pelo desespero finaceiro. É pela segurança da sociedade.

  2. Eu nunca entendo direito o que é ser de “Direita e Esquerda” no Brasil. Nos comentários sempre tem alguém te “acusando” de esquerdista e alguns até de “comunista”. Nunca entendo também porque, para argumentar, é preciso primeiro tacar na cara do sujeito um: você é de direita ou esquerda. Enfim, isto é só para dizer que se você é mesmo comunista? É o meu comunista favorito. Tô até pensando em comprar um camiseta do Stalin. Abs. Rodrigo.

  3. Rafael, você se irrita fácil.
    Quem sabe não é da porta de uma escola ou hospital ou sei lá que lugar, que surge um novo sindicalista que pode ser o próximo presidente da república (um porreta igual ao nosso).

  4. O Comentário do Caetano foi perfeito, Rafael. E melhorar salários também é melhorar a qualidade do atendimento. É a velha história: o Estado finge que paga e o sujeito finge que trabalha. Se o Estado realmente pagar, o sujeito poderá ser cobrado.

  5. Salve Galvão.
    Já fui professor da rede pública, faz uns vinte anos. Desisti depois de mais uma greve. Concordo com voce ao dizer que salário não deve ser desculpa para nenhum funcionário público ou privado. Enquanto professor o salário era ruim mesmo, porém, ao compara-lo com os salários de meus irmãos que não eram professores não podia reclamar não. Mas a máfia dos médicos é imbatível.

  6. “Vai trabalhar, vagabundo”
    Caro Rafael, seu texto sinceramente deveria resumir-se ao título, por que a sua falta de argumentos e de lógica é deplorável. Melhoras no próximo.

  7. Acho que a greve, hoje, perdeu muito de seu poder de persuasão. Nos setores públicos, então acho uma bocagem: joga a população contra a classe fortalecendo a posição Estado empregador. O desgaste dos grevistas é enorme (a mídia é invariavelmente contra) e os ganhos sempre parcos.
    Mas continuo favorável as greves de fome dos dissidentes cubanos. Adelante, muchachos, hasta la victoria final!

    ps mais um punhado de Caetanos no meio da meganhada e eu até começo a torcer pra polícia…

  8. Caro Galvão: os bons pagam pelo maus. Não convém generalizar essas situações. Conheço pessoalmente bons médicos públicos e bons professores também. Olha, todos tem direito a greve, quando uma situação é notória e injusta , como no caso dos salários pagos aos professores em vários estados brasileiros, e também a penúria das PM’s . Sinto muito, nesse caso não posso concordar com você.

  9. Sou filha de uma professora de Cabo Frio, RJ. Lembro bem de que o salário dela quando entrou era de 330,00 brutos, ou seja, com os descontos era ainda menos do que isto. A contratação foi em 1998, e você pode alegar que 330,00 valiam mais naquela época, mas ainda assim era uma miséria, utilizada para sustentar mais duas filhas pequenas… Por que ela tentou esse concurso? Por que ficou desempregada com a privatização da telerj e não havia outra opção. Por que estou dizendo isso? Me senti profundamente ofendida em minha história quando li este texto, por mim e por vários outros professores que além de ganharem mal, tomam porrada da polícia quando fazem greve e sequer são valorizados por educarem SEUS filhos. Pense no seguinte:

    Por 2000 reais você lutaria contra traficantes no morro do alemão, na rocinha ou na maré? E se eu acrescentasse que eles estão em maior número, mais bem armados e talvez até mais organizados que você?

    Por pouco mais de 500 reais você trabalharia de segunda à sexta sob condições de trabalho precárias das escolas públicas brasileiras? E se eu acrescentar aí que a escola referida fica numa comunidade carente, seus alunos estão sendo recrutados para o tráfico e até ameaças de morte você recebe?

    Já foi em um hospital público? Eu já fui em alguns. Você pode reclamar que o salário é “bom” e considerando a renda média do brasileiro eu não poderia discordar, mas você é capaz e imaginar a que tipos de condições de trabalho eles estão submetidos? O nível e contaminação dos hospitais publicos é bizarro pra dizer no mínimo. Falta medicamentos, equipamentos, assepsia adequada… Sem contar a situação de um médico socorrista: eles trabalham por plantão (normalmente é um recém-formado) e atendem todo tipo de enfermidade: unha encravada, baleados, doenças infecto-contagiosas, bêbados, moribundos de todos os tipos. Então tá: você trabalha em um local onde TUDO é urgente e você precisa saber resolver todos os tipos de enfermidade, está sujeito à várias doenças infecto-contagiosas, está sempre a um pulo de ser agredido pelos familiares dos pacientes, vê gente morrendo todo dia ou quase e ainda vem um sujeito que não faz idéia do que é isso dizer que você está “aposentado”! Então ta! Por quanto você encararia isso? Eu mesma já quis e desisti…

    E o que dizer dos professores universitários? Muitos de fato estão bem obrigada, afinal estão dando aulas em instituições pagas ou em pós-graduações pagas que funcionam dentro das universidades públicas…Tem professor ganhando a partir de 30 mil reais por mês…

    Mas daí eu vou para a minha universidade em particular, a UFF: A engenharia vai bem obrigada, mas o campus de humanas é mais ou menos assim: Os prédios são velhos, elevadores quase nunca funcionam, os banheiros estão quase sempre sujos, pois se economiza até no material de limpeza e no papel higiênico… O material de escritório muitas vezes é pago pelos próprios funcionários num esquema de “vaquinha” e como o quadro de professores é cada vez menor, cada um deles assume uma carga cada vez maior de trabalho. No caso da psicologia por exemplo, os professores se dividem entre dar matérias obrigatórias, optativas, estágio supervisionado obrigatório, matérias de outros cursos e ainda administrar em várias instâncias o departamento, a coordenação, os estágios. Podemos ainda incluir aí a pesquisa e a extensão. Em um prazo de 10 anos o quadro de professores caiu de 55 professores para menos de 40. os professores que se aposentaram, pediram demissão ou morreram não foram substituídos e os concursos que aconteceram recentemente não tem o propósito de curar a defasagem, mas sim, ampliar o número de vagas no curso com o menor custo possível.

    Daí você argumenta que uma pessoa que é contratada com um salário X, não pode reclamar depois, afinal, ninguém o obrigou a prestar concurso, porém os servidores federais para dar um exemplo, tiveram perda salarial de aproximadamente 70% desde o Sarney. Você aceitaria ficar com menos 70% do seu salário?

    Parece que para o senhor, contribuir para o desenvolvimento do conhecimento (científico, artístico, cultural) de seu país não é importante. As Universidade públicas estão em decadência, existe uma morte anunciada há tempos, cada vez mais as Universidades se transformam em meras fábricas e seus professores e demais funcionários se tornam cada vez mais proletários.

    Acho que em cada um deles o que incomoda mais não é o salário, por que este ainda é privilegiado, mas sim o fato de estar perdendo espaço para cursos à distância, turmas inchadas, mercantilização do ensino…

    O ensino virou mercadoria e não há mais volta. Uma pena, eu queria ser professora universitária e contribuir para a produção de conhecimento do meu país e quem sabe fazer a diferença. Não será possível, vou ter que ir fazer a diferença em outro lugar, quem sabe?

    Resumindo o que eu disse: sou do interior do Estado do Rio de Janeiro, freqüentei escolas públicas, hospitais públicos, meus pais passaram privações no governo Collor, ficaram desempregados no governo no FHC, minha mãe é funcionária pública, eu freqüentei uma universidade pública (e ainda faço mestrado), mas sou uma mera garçonete atualmente. Daí eu não tenho como não me revoltar com um texto tão pornograficamente reacionário como este, afinal, fora minha biografia proporcionar isto, tua própria visão é burguesa, provinciana e pueril. Não te respeito mais e é por causa destes dois textos.

  10. Rafael,
    Como médica formada há 25 anos, que trabalha em três hospitais, 12h por dia de segunda a sexta, mais três noites por semana (isso mesmo, virando noite e dia, sem descanso) mais escala de fins de semana e feriados, agradeço a sua generosa opinião sobre a minha classe. Só gostaria de ter encontrado a aposentadoria da qual você fala – após ter estudado 6 anos, mais residência médica de 3 anos, mais mestrado….. e de ainda ter que permanentemente continuar estudando, pois médico que se preza estuda a vida inteira. Muitos de seus argumentos são corretos, eu, por exemplo, jamais aceitei fazer concurso para a rede pública o que , em minha opinião seria “prostituição profissional”, agora generalizar sem conhecimento da realidade é preconceito irresponsável. Só mais uma coisa , sou filha, com orgulho de operários honestos.
    Um abraço.

  11. O amigo faz críticas sem conhecimento de causa quando o assunto é a classe médica que trabalha em SUS. São realmente 6 anos de muita dedicação na faculdade, fora o tempo para se atualizar constantemente, incluindo gastos com congressos e cursos. Tudo isso faz parte.

    Mas que tal trabalhar num SUS onde há falta de equipamentos, de pessoal, que paga R$3,00 por consulta com uma fila imensa de pacientes aguardando atendimento. Gaste mais do que 10 minutos com um paciente e a fila aumenta, alguns ameaçam médicos e enfermeiros (um paciente ou parente de algum enfermo que morre de dor é capaz de muita coisa nessas horas) e a culpa recai obviamente apenas sobre os profissionais. Jamais sobre o governo que sucateia a saúde. Raros são os hospitais SUS que têm condições de atender enfermos com qualidade e dignidade (o hospital escola de Jundiaí – SP é um dos poucos que ví).

    Há sem dúvida uma infinidade de médicos que atendem porcamente, sem sequer olharem pro paciente. Culpa de faculdades de esquina, da falta de disciplinas sobre a humanização do atendimento médico-hospitalar e até mesmo do desejo de se formar médico não por amor à profissão mas amor ao dinheiro (ledo engano). Assim como há muitos que reclamam dos planos de saúde – que cometem SIM abusos com profissionais da área – mas não largam o osso.

    Sorte nossa (sua também) que ainda há médicos decentes que escolhem trabalhar no SUS como exercício pleno da profissão e do juramento que fizeram um dia. Mas como qualquer cidadão, eles também precisam sustentar famílias e são invariavelmente “obrigados a se prostituir” em troca de um bom salário. Assim como fazem publicitários, advogados, engenheiros…

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