Hemingway

Minha primeira experiência com Hemingway foi — vamos usar um eufemismo — inauspiciosa.

Aí pelo meio da adolescência, veio parar nas minhas mãos um livro de capa rosa chamado “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores”, obra de 1950 que li diligentemente, porque na época eu me impunha terminar tudo o que tinha começado a ler e porque já sabia que Hemingway era um bambambam e eu precisava conhecer o sujeito.

Conforme se viu mais tarde, perdi um tempo que, se não era exatamente precioso, poderia ter sido aproveitado com coisas um pouco melhores — o que não era difícil porque até caminhar a esmo pela cidade seria melhor do que ler aquele livro horrível. “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores” era tão ruim que me deixou pensando como alguém capaz de escrever aquilo era tão glorificado. A única resposta possível era a de que os outros livros deviam ser tão bons que levava as pessoas a fazerem um esforço sincero, ainda que enorme, para esquecer que Hemingway tinha sido capaz de perpetrar essa bisonhice.

Mas daí talvez tenha vindo, também, uma eterna má vontade em relação ao escritor e aos seus personagens. Ou não, não era bem isso: talvez fosse mais adequado afirmar que eu encontrava mais facilmente uma característica peculiar aos seus protagonistas, um certo modo de ver a vida e o mundo que fazia de seus personagens uns grandes chorões, beirando a chatice. Um a um, pobre ou rico, jovem ou velho, choram todos os personagens de Hemingway: lamentam a inocência perdida, o amor perdido, a juventude perdida, o ideal perdido — ou, no caso de Jake Barnes, algo ainda pior, que ele deixou nos campos da Bélgica.

Alguns anos depois de ter conseguido terminar aquilo que fez John dos Passos se perguntar como um homem em sã consciência conseguia colocar tanto lixo no papel, comprei “O Sol Também Se Levanta”, em busca daquela resposta que eu tinha adivinhado uns tantos anos atrás. Não era possível que Hemingway fosse tão ruim como eu achava; ele tinha que ter algo bom, e “O Sol Também Se Levanta”, afinal, era o grande livro da tal geração perdida.

Talvez fosse a tradução. Talvez fossem os dias. Mas aquele livro não me empolgava. Ainda assim, li até a cena de uma viagem de trem que empacava na descrição de uma barata no chão. Só isso, mais nada. Uma barata. Não havia razão para a barata no piso do trem, mas ela estava ali, alheia a Jack Barnes, alheia a Hemingway e, principalmente, alheia a mim.

Era um detalhe bobo, curto, mas que me parecia tão sem sentido que me fez sentir enganado. Algo ali não combinava: de um lado um estilo seco, conciso e contido; do outro, um elemento absolutamente supérfluo que não acrescentava nada à narrativa. A barata me fez imaginar se Hemingway não estava sendo pago por número de toques.

Mais uma vez deixei o coitado do Hem de lado. E por mais alguns anos o velho cachaceiro fanfarrão continuou ali, me incomodando, me chamando silenciosamente de idiota, de fracote.

Até que li, finalmente, “O Velho e o Mar”, livro que nego lê na adolescência mas que só encarei depois de bem avançados os meus anos. E o que li ali me fez finalmente admitir que Hemingway era — ou melhor, podia ser — um grande escritor.

Já vi muita gente esculhambar a história do velho Santiago. Coitados. Devem ser os mesmos que têm certeza de que o velho pescador azarado morre no final, porque não entenderam nada. Não podem compreender que não há símbolo algum, nenhuma intenção oculta, que Santiago apenas dorme, porque amanhã vai voltar ao mar e não vai trazer nada, e é esse estoicismo que lhe dá grandeza. Santiago é o único protagonista de Hemingway que não chora pelo que perdeu, porque sabe que não adianta.

Para mim, “O Velho e o Mar” é uma novela que beira a perfeição, como o Quincas de Jorge Amado. Tudo de bom que a crítica dizia de Hemingway estava contido ali, naquele livrinho curto, tão menor que “Por Quem os Sinos Dobram”.

Mas “O Sol Também se Levanta” continuava ali, me incomodando. Eu devia ter deixado passar alguma coisa. Então, com a esperança renovada pelo velho Santiago, resolvi comprar a versão original em inglês. Para não ter mais a desculpa da tradução, e por desconfiar que se o estilo era fundamental, o ritmo dado pela língua do bardo poderia fazer alguma diferença.

Pensando bem, mais que desconfiança, o sentimento em questão era esperança. E esperança é bicho frágil sempre pronto a ser despedaçado pela realidade dura e crua, é bicho que morre cedo.

E aí admiti finalmente que estava certo desde o início: Hemingway era um mau romancista e tinha problemas com textos longos. O problema é que The Sun Also Rises poderia perder um terço de seu tamanho em descrições desnecessárias. Hemingway tinha tudo resolvido de maneira perfeita, mas precisava alongar as coisas para, em vez de uma novela, escrever um romance para o qual ele simplesmente não tinha fôlego. Não é um julgamento ofensivo, pelo contrário: sua capacidade de síntese o levava, instintivamente, a criar narrativas fortes e enxutas que ele, mais tarde, julgava ser necessário preencher com superfluidades.

É a razão pela qual “O Velho e o Mar” é um livro perfeito. Tem o tempo certo, as palavras necessárias; acima de tudo, tem o personagem masculino que Hemingway tentou criar toda a vida, e que só conseguiria ali.

Descobri agora que Harold Bloom o vê exatamente como eu: um romancista menor com um grande estilo. Mas acho que posso ser um pouco mais generoso do que Bloom, porque não conheço literatura tão bem quanto ele e porque nosso Senhor Jesus Cristo encheu meu coração de amor e doçura quando me fez.

Porque o gênio de Hemingway não é o romance, nunca foi. Foi apenas quando comecei a ler seus contos que pude entender completamente o seu brilho. Contos como The Killers, ou Up in Michigan, ou The Short Happy Life of Francis Macomber ou Hills Like White Elephants, são pequenas obras primas. Ao contrário do romancista enchedor de linguiça, Hemingway-o-contista entrega peças fortes, vívidas, cheias de significado em sua economia. Aquelas emoções básicas, que ele tenta enfeitar e alongar em seus romances, aqui são apresentadas em seu estado natural. Hemingway parece ter tentado, durante toda a sua vida, ter feito essas pobres emoções durarem mais do que aguentariam. O resultado são romances sempre defeituosos que, com uma dose da humildade que ele nunca teve, poderiam ser contos ou novelas brilhantes. O problema do velho Hem é que ele nunca conseguiu entender isso.

9 thoughts on “Hemingway

  1. Uma vez eu citei o Hemingway e você me disse que ele era superestimado. No inicio do seu post quando você diz que os personagens dele sempre choram a perda de algo eu já achei que você ia falar do peixe, ou melhor, do Marlin perdido. Mas aí o Hemingway é redimido por você, graças ao estoicismo do Santiago, justamente por esse conciso livrinho escrito em Cuba.
    Esses defeitos que você cita no Hemingway como romancista estão todos no póstumo Paris é uma Festa. Apesar de ter passagens realmente espetaculares que com sua prosa nos remete diretamente a uma a Paris romântica do inicio do século vinte, há partes que são de doer; a viagem com o F. Scott Fitzgerald é uma delas. Pode-se até dar um desconto pelo fato do livro ter sido editado pela sua viúva, mas como você diz, o Hemingway era o rei da síntese, então qualquer coisa mais longa que se publicava dele tinha que ter um tanto de enrolação.
    Vale aqui lembrar que o próprio F. Scott Fitzgerald, seu contemporâneo e rival, em o Grande Gatsby -que o Hemingway invejava – foi tão sintético com informações do personagem principal e tão prolixo em detalhes irrelevantes que nos faz pensar se ele era um concorrente tão feroz do Hemingway, como nos querem fazer acreditar, ou, na verdade, era o seu modelo, ou mestre, sei lá.

    • Eu não acho que, em O Grande Gatsby, os detalhes em que Fitzgerald é prolífico são irrelevantes. Aocontrário. A ausência de detalhes sobre Jay Gatsby é proposital, porque sua origem é nebulosa, certamente criminosa, e a sociedade em que ele tentava se inserir queria que continuasse assim.

      E pelo que lembro de Paris é uma Festa, Fitzgerald era menos concorrente de Hemingway que o contrário. Hemingway passa uma imagem ruim de Fitzgerald porque, ele sim, era extremamente competitivo. O episódio da viagem é melancólico, mas provavelmente houve outros que Hem deixou de fora por um pouco de maldade. 😉

      • Desculpe Rafael, eu não consegui me expressar bem.
        Eu também acho que o Hemmingway que competia com o Scott e o via como alguém a ser seguido.

        Sobre o Gatsby: Não foi o fato do Scott ser sucinto em relação ao personagem, eu também entendi que ele deveria ter um motivo pra isso. O que acho estranho é ele ficar falando do tanto de laranjas que compravam para as festas. Entendeu? A laranja, pra mim, é a barata que você cita no seu post.

  2. Eu prefiro o Fitzgerald. Mas o estilo de Hemingway é uma coisa impressionante! Quando você vai escrever sobre o cachaceiro do Fitz?
    E Graham Greene, o que acha?
    Abs.

    • Eu conheço pouco Greene. O Poder e a Glória é fantástico, mas a maioria do resto é leve demais pro meu gosto. Por exemplo, acho O Terceiro Homem um filme melhor que o livro.

      Quanto aos americanos, o meu preferido desse tempo é Faulkner. Não acho que possa escrever muito sobre Fitzgerald além da platitude de que ele era melhor que Hemingway pra mim; me falta o estofo necessário. 😉

  3. Demorou mas li. Li com uma agonia na ponta da língua. Agonia que se desfez no último parágrafo. No último parágrafo você chegou aos contos. Os contos, segundo Machado de Assis, têm uma vantagem sobre os romances, se ambos forem ruins, o conto toma menos tempo. <>

    Acho que Hamingway, como Jack London, John Steinbeck, Kerouac… Tinham uma vida mais romanceada do que qualquer história escrita. O estilo seco veio influenciando gerações como Fante e Bukowski. Meu tio chamaria esse pouco rebuscado, nada-rococó ou barroco, de estilo ático. Graça era um mestre, Nelson um gênio. Gutierrez um cubano com bossa. Mas meu preferido ainda é o Borges.

    Agora pra fechar com chave de ouro, estou encantado com a perspectiva monumental da história do ocidente, que tenho lido em Harold Bloom, sobre a Javista, o cânone ocidental, abaixo as verdades sagradas, o evangelho de Tomé… Recomendo, para entender o que há de novo sob a ótica do avanço neanderpentelhocostal.

    • Me roubaram uma citação do Calvino que está entre os .
      Calvino disse que lendo Borges veio-lhe muitas vezes a tentação de formular uma poética do escrever breve, louvando suas vantagens em relação ao escrever longo. “A última grande invenção de um género literário a que assistimos foi levada a efeito por um mestre da escrita breve, Jorge Luis Borges, que se inventou a si mesmo como narrador, um ovo de Colombo que lhe permitiu superar o bloqueio que lhe impedia, por volta dos 40 anos, passar da prosa ensaística à prosa narrativa.” (Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio).

  4. Lendo teu post lembrei de quanto comprei uma edição de banca de revista de ‘o sol também se levanta’ e, após a frustração de não ter lido nada demais, também culpei o tradutor. Desfiz-me do livro e não lembro de uma única linha da história. Na minha humilde opinião (e já opinando sem a menor humildade) acho que Hemningway é overrated.

    A vingancinha inútil, porém eterna, de Fitzgerald é o fato de este ano eu ter que reler ‘o grande gatsby’ e resenhar o mesmo como parte do meu exame de proficiência em língua inglesa. Mas sabe quem é o ‘americano’ que escreve mesmo? Aqueles romanções que você termina e diz… wow… ? Franzen.

    • Eu nunca li Franzen, tô me devendo isso. Mas o fato é que à medida que vou ficando leio cada vez menos ficção e mais história.

      No caso de Hemingway eu entendo seu significado histórico, o que The Sun Also Rises representou em seu tempo. Mas é overrated. E o resto é ou medíocre ou ruim,com exceções.

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