Brega

Não conheço ninguém que tenha um nível considerado “razoável” de cultura que admita gostar de música brega. Não me refiro aqui a essas aberrações tipo Chitãozinho e Xororó ou Kelly Key, mas ao grande e vigoroso brega dos anos 70 e 80. Fernando Mendes, Odair José, Carlos Alexandre, Amado Batista.

Com exceção de Roberto Carlos, a grande trilha sonora deste país, esses nomes são talvez o que de mais puramente popular a cultura brasileira produziu em sua história.

Musicalmente o brega é derivado da Jovem Guarda, e principalmente de Roberto Carlos. Que por sua vez já é derivado do pop dos anos 60 e da música romântica dos anos 70. Os versos são geralmente simples, simplórios até. Mas trazem uma grande virtude: verdade.

Eis alguns versos de “Menina do Subúrbio”, de Fernando Mendes:

Lê as colunas sociais
Sonha com seu nome nos jornais
Espera um convite para ser atriz
E pede a Deus para ser feliz

Ouve música estrangeira
Sentada na janela
Não entende uma palavra
Mas pensa que é pra ela

Finge que é importante
Pras meninas lá da rua
E não vê que no subúrbio
A vida continua

Eu, pelo menos, conheci algumas pessoas assim.

O mérito da música brega, quando ela é realmente grandiosa, é a verdade que contém. Esses versos contêm muito mais verdade do que, por exemplo, aqueles versos imbecis dos Tribalistas: “Não sou de ninguém, sou de todo mundo e todo mundo é meu também”.

Mesmo a simplicidade musical pode ser enganosa. Algumas dessas músicas têm excelentes seqüências de acordes, e principalmente em Odair José os valores de produção são semelhantes aos utilizados por Roberto Carlos.

Mais ainda, elas refletem a vida do povão deste país:

Olha, a primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair, eu vim em busca do amor
Olha, foi então que eu lhe conheci
Naquela noite fria, em seus braços
Meus problemas esqueci

Olha, a segunda vez que eu estive aqui
Já não foi pra distrair, eu senti saudade de você
Olha, eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais me esquecer

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa o que os outros vão pensar

Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu posso me arrepender
Eu quero que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe, não existe tempo pra sofrer
(Odair José, Eu Vou Tirar Você Desse Lugar)

É, putas eventualmente se casam. E é assim que funciona.

O que o mundo da alta cultura — que se considera alta por ouvir Caetano Veloso, igualmente pop; na verdade, são extremamente middlebrow — não consegue admitir é que a música é um espelho do país: português e africano, melancólico, às vezes sem vergonha de expressar sentimentos básicos e constrangedores.

Mais ainda, é essa identificação com o que o país tem de mais popular, com a herança das classes mais baixas, que parece incomodar. Graças a um sentimento de colonizados, é curiosamente mais fácil virar as costas para o povo brasileiro e abraçar cegamente a cultura de outros países. E então idolatram os hollers dos escravos americanos catando algodão, transformados no blues. É parecido com o que se ouve nas feiras do interior, mas a esses se tem aversão.

Talvez seja até mais grave do que isso. O brega, por ser dinâmico, por ser atual, não conseguiu se tornar pitoresco como o cordel, por exemplo. É fácil cantar loas a um gênero cuja relevância social acabou-se há tempos, desde que o rádio chegou aos confins do país.

Mais que a maior parte dos cantores chiques da MPB, os cantores brega pintam um retrato fiel e simples do cotidiano do povo brasileiro. E isso parece ser insuportável.

12 thoughts on “Brega

  1. Rafael, sem comentários. Há 9 anos, fiz um estágio na faculdade que funcionava como um internato rural. Fui para a pequenina, mas de nome grande “Senador Modestino Gonçalves”(uns 1.000 habitantes, no Vale do Jequitinhonha). Hospedei-me na república feminina das funcionárias da Emater. Ao lado, ouviam Amado Batista o dia inteiro: “quando o ônibus sumir na estrada, lágrimas vão rolar dos olhos meus…” Ler seu texto me fez voltar àquela época e sentir saudade das músicas. São sinceras, singelas… Dia desses prestei atenção em “Sandra Rosa Madalena”. Era muito legal! Hoje lamento menos pelas Kelly Key’s (que pelo menos se assumem bregas) do que pelos (graças a Deus alguém também acha!!!) insuportáveis “Tribalistas”. Um beijo da Sula (já que você me batizou, vou aceitar o nome) 😉

  2. Rafa, olha que versos sofríveis: “Um dia feliz às vezes é muito raro. Falar é complicado. Quero uma canção fácil, extremamente fácil, pra você, e eu e todo mundo cantar juntos”. (do grupo mineiro “Bosta Quest”). Sinceramente, eles não são “analfas”?

  3. Hoje estou o descontrole em pessoa. Só pra dizer que, quando eu disse que as Kellys Keys se admitiam bregas, não era o brega legal do qual você falou no texto não, viu? Era aquele brega lugar-comum mesmo. Aliás, como se faz o plural de Kelly Key? Um beijo.

  4. Caro Rafael,

    encontrei seu blob quase sem querer, pesquisando sobre música brega do google. Concordo com quase tudo que você escreveu lá em cima. Sou um admirador (tardio) da chamada música brega. Fui criado no interior do estado do RJ e, naquela época, a trilha musical de todos era esse estilo. Anos depois, vim para a capital, me formei e, por muito tempo, serrei fileiras dentre aqueles que discriminavam ésse estilo de música, falando sobre ela de forma pejorativa. Não sabia que estava perdendo meu tempo. Hoje tento recuperar o tempo perdido. Como me faz bem relembrar aqueles anas, ouvindo simples e boas músicas. Neste momento, estou tentando encontrar a maior quantidade possível de música que representam este estilo. Por essa razão, estou lhe mandando este comentário. Um forte abraço. Se puder, mantenha contato comigo pelo e-mail: marcelolessa@msn.com

    Um forte abraço.

  5. OLÁ RAFAEL, PARABÉNS PELO SITE
    MEU NOME É FABIO,E VENHO FAZENDO ALGUMAS PESQUISAS SOBRE MÚSICAS DESTA ÉPOCA.
    GOSTARIA DE LHE PERGUNTAR,
    NA SUA OPINIÃO QUAIS SERIAM AS TRÊS MUSICAS NACIONAIS QUE MAIS MARCARAM OS ANOS 60?

  6. Legal!!! Legal!!!!

    ” Sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém” – A musica “Brega”, fala de um povo, como ele realmente pensa, fala a lingua universal do coração, de forma 100% compreensivel. Parabéns pelo o conteudo do website.

  7. Fala, meu caro!!

    Nesse exato momento bortei um disco de Odair José e fui pra internet pesquisar sobre o Brega.
    Deparei-me, de primeira, com seu texto. Parabéns!!! É isso mesmo. A alma do povão brasileiro está retratada nessas canções que permearam e marcaram tanto os anos 70 e 80 do século passado.
    Vivi no interior de Sergipe numa cidade chama Simão Dias e essa foi a trilha sonora da minha infância, com muito orgulho, além é claro das emboladas e das cantorias que que também fazem parte das heranças das nossas “plantations” para usar um texto mais histotiográfico.
    Cantigas de trabalho, sentimentos de dor de corno, ou expressar um amor, um carinho de forma simples e singela. Isso é Brasil, é povão e “muito mais do que zona Sul”.
    Abraço.

  8. Estou precisando encontrar a Musica “Pra esquecer” com o cantor “Denys”, ele gravou em meados de 1976 um compcato simples e do outro lado tinha a musica “Pra olvidar”

  9. Aeh, que coisa boa saber q existem pessoas q amam canções q falam de amor, da vida, do cotidiano, etc. Como é que vou me apaixonar ou chorar ou me emocionar ouvindo “eguinha pangaré?” ou “as cachorras”? Tenho q ouvir Amado Batista, Wando, Roberto Carlos, Odair José, Diana, Martinha e mesmo q gente como eu tenha mestrado, doutorado, PHD e adorem Bossa Nova, temos q ter uma visão do outro lado pra beber e encher a cara de wisque e pinga. Um abração pra frente bixo!

  10. Rapaz concordo, com o que vc disse, pois nao existe musica brega e sim musica romantica, pois alguns tem a manina de achar musica romantica brega, gosto sim pois, sao musicas que falam do cotidianoe do coraçao do cantor, veja bem sou novo e tenho apenas 21 anos mas ja gosto do que e bom.

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