Brega II

Algumas coisas que faltaram no último post.

Faltou combater com mais clareza a falsa idéia de que o brega é, por definição, algo caricato e inferior. Reginaldo Rossi, ultimamente, e Carlos Alexandre divulgaram bastante essa idéia, com letras caricatas e uma atitude condescendente em relação ao universo da música popular.

Nada está mais longe da verdade.

Brilhante no brega é que ele representa não um complexo de inferioridade do povo brasileiro, e sim a sua sensação de superioridade. O brega não é o povo dizendo “olha como eu sou inferior”. Basta ouvir os arranjos das músicas de Odair José para ver que ali estão tentando fazer o que entendem como o melhor. O seu padrão, sempre, é Roberto Carlos; e dentro desse padrão, tenta-se fazer o melhor possível. O brega não é uma prova de incompetência. É, antes de mais nada, um grito de orgulho do povo pelo seu cotidiano e pelo que ele é.

O que bandas como a Vexame, da Marisa Orth, fazem é olhar para o brega com o mesmo paternalismo daqueles que repudiam abertamente o gênero. É negar o valor da música e, ao criar arranjos pop, dar um caráter pejorativo às letras. É um desrespeito à cultura popular, típico daquela geração urbana e alienada, alimentada com os restos do lixo cultural americano e europeu, gente que ouve naturalmente música country mas que não entende Tonico e Tinoco ou um Altemar Dutra. E que por isso desconhece totalmente o que é o Brasil — um país com hábitos culturais extremamente diversos, e explosões de vida em cada grotão que assusta todos aqueles acostumados à unidade cultural da indústria internacional de entretenimento. Gente que nunca tomou um mingau de puba numa feira em Canindé do São Francisco, em Sergipe, ou comeu um pé de moleque em Delmiro Gouveia, em Alagoas.

O outro é que consegui achar uma das letras mais sensíveis do gênero. Ei-la aqui:

Deixe essa vergonha de lado

Eu já sei que nessa casa onde você diz morar
Onde todo dia no portão eu venho lhe esperar
Não é a sua casa

Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo
E se você pudesse fugia desse mundo
E nunca mais voltava

Eu já sei que esse garoto que você leva pra brincar
E que todo dia na escola você vai buscar
Não é o seu irmão

Ele é filho dessa gente importante
E às vezes também é seu por um instante
Apenas dentro do seu coração

Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
Não vai modificar o meu amor

Eu já sei por que você não me convida pra entrar
E se falo nessas coisas você procura disfarçar
Fingindo não entender

Eu já sei por que você não me apresenta aos seus pais
Eu entendo a razão de tudo isso que você faz
É medo de me perder

Eu já sei que na verdade nada disso você quis
Você simplesmente pensou em ser feliz
Aí não quis dizer

Mas você de uma coisa pode ter certeza
O amor que você tem por mim é a maior riqueza
Que eu preciso ter

Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
Não vai modificar o meu amor

Há alguns anos, apareceu uma empregada lá em casa que não tinha o biotipo clássico da empregada nordestina. Rosa era loura, bonita, vistosa — desde que não abrisse a boca e jogasse fora as roupas que usava. Por ter uma aparência “européia”, não tinha dificuldade em dizer a todos que não era nossa empregada, e sim nossa prima. Ela era o próprio retrato dessa música de Odair José.

Se Reginaldo Rossi hoje assume uma postura caricata e deliberadamente camp, ele é o autor de uma das mais singelas letras do gênero, em “A Raposa e as Uvas”. Principalmente no Nordeste, até meados dos anos 80, o modo de vida que Rossi apresenta naquela canção é extremamente comum. Em sua melhor forma, os grandes cantores brega são os verdadeiros cronistas musicais do Brasil. Suas músicas são “A Canção de Rolando” de um país que ainda tem vergonha de se assumir.

Brega é bom.

7 thoughts on “Brega II

  1. Verdade, Rafa. Brega é bom. Você me mostrou com os textos. Tão bom que é preciso inteligência para perceber. Coisa que à senhora Marisa Vexaminosa Orth tem faltando. Fico pensando… Inteligência tem sido confundida com a capacidade de lidar com desenvoltura dentro desse nosso mundinho esteticamente homogeneizado. E nesse mundinho, brega só tem vez quando vira “cult” ou quando é motivo para se fazer humor. E acho as duas formas de se ver a coisa bastante pejorativas, desrespeitosas mesmo, pois batizar algo de “cult” pode ser um jeito de descaracterizar, ou de “desperceber” uma forma de expressão. Afinal, gostar de ser “cult” parece ter a única intenção de se mostrar que se é uma pessoa “antenada”, “original”. Só sei que tô morrendo de preguiça desse mundinho. Esse povo parece que ouve uma música porque vai parecer moderno, cult, fino, sensível… Se você tira da pessoa o gosto musica, o perfume preferido, o celular, a chave do carro… ih… a pessoa some, deixa de existir. Só existe se for coisa. Ô saco.

  2. Rafa, você podia falar também dessas figuras de qualidade (na minha opinião), mas que são tidos como bons. Estou com medo de citar alguém e dar mancada (sou metida a sabida, mas não sei nada). Sei lá… tipo os “Tribalistas”, para falar um nome seguro pra minha reputação diante de você. Queria ver você falando disso.

  3. Comi uma palavra no último comentário: quando falei “figuras de qualidade”, apaguei sem querer o “duvidosa”. Qualidade duvidosa, foi o que quis dizer. Um beijo.

  4. É o seguinte: Brega é fenomenal. O Brasil é Brega. O Brega tem ínúmeras facetas. Uma delas é a do grotesco, do caricato, do irreverente. E não há nada de errado nisso. O Brega é uma revolução na MPB e não perde nada quando é grotesco, da mesma forma que não perde nada quando retrata fielmente o cotidiano das classes populares. Verdadeira música, popular e brasileira.

  5. Olá,

    Estou promovendo uma festa com músicas bregas dos anos 70. Eu e uns amigos queremos resgatar músicas que nos marcaram. VocÊ teriaa letra da música “Anúncio de jornal” de Júlia Graziela?
    “precisa-se de moça/ de boa aparência para secretária…”

  6. brega e bom que ver
    fala sobre nosso cotidiano e sempre atual.

    “quanto anos já vividos, revividos simplesmente por viver
    quantos erros cometidos tantas vezes, repetidos por nos dois
    quantas lagrimas sentidas e choradas quase sempre as escondidas,
    pra nenhum dos dois saber
    quantas duvidas deixada no momento, pra se resolver depois
    quantas vezes nos fingimos alegria, sem o coração sorrir
    quantas vezes nos deitamos lado a lado, tão somente pra dormir
    quantas frases foram ditas com palavras desgastadas pelo tempo,
    por não ter o que dizer
    quantas vezer nos dizermos eu te amo, pra tenter sobreviver
    aparencias nada mais
    sustentaram nossas vidas
    que apesar de mal vividas, tem ainda uma esperança de poder viver
    quem sabe rebuscando essas mentiras
    e vendo que a verdade se escondeu se encontre ainda alguma
    chance de juntar o seu amor e eu”

    essa musica quem interpretae Marcio Greyck.
    linda linda linda
    quem quiser me mande uma mensagem que mando a musica.
    mendy_tc@hotmail.com

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