Percival

Em setembro de 1993 eu estava no Rio de Janeiro, mais preocupado com a praia sem sol no domingo seguinte, quando minha avó me mandou procurar um computador.

A recente abertura do mercado inundava o mercado de máquinas finalmente semelhantes ao que havia lá fora. Computadores, antes aquelas máquinas cheias de luzes e sons de seriados como Batman — e mais recentemente aquele bichinho com o qual você poderia causar a terceira guerra mundial, como no filme “Jogos de Guerra” — eram os mais novos objetos de desejo do país. Restava a mim procurar uma boa máquina pelo melhor preço.

É verdade que, de certa forma, minha relação com computadores já vinha de longa data. Em 1982 ou 1983 houve a primeira grande explosão da micro-informática no país. Em Aracaju, para onde eu tinha acabado de me mudar, uma loja chamada Micromundo oferecia o que havia de melhor no mercado; e durante um curto espaço de tempo meu xodó era um TK-85 da Prológica, que parecia um livro fechado, com teclas minúsculas de borracha, e que precisava de um gravador e de uma TV para funcionar. Não lembro do preço, mas parecia razoavelmente acessível — daí a preferência. Agora, se dinheiro não fosse problema eu sabia o que queria: um CP-500, um mondrongo absolutamente charmoso que vinha com um monitor próprio verde, de umas 7 polegadas. Aquilo, sim, era um computador de verdade.

Mas 10 anos haviam passado, e computadores não faziam parte de meus projetos de vida naquele momento. Na verdade, esqueci os computadores logo depois de vê-los pela primeira vez. Naquela primavera de 1993 uma máquina de escrever das comuns supria, com folga, as minhas necessidades. E eu tinha uma novinha, eletrônica, portátil, que começava a dominar completamente.

Acontece que presente de avó não se rejeita, muito menos um computador. Me restava pesquisar. E a pesquisa foi, naturalmente, muito menor do que deveria ser. Eu simplesmente pegava os cadernos de informática de O Globo e dava uma olhada nos anúncios. Não era nada animador. De repente eu me via às voltas com siglas inextricáveis como XT e AT, 386 e 486, ISA e VESA, laser, inkjet, RAM, scanner, winchester — ei, essa eu conhecia. Era aquela carabina americana usada pra matar tudo o que não prestava: bandido, bisão e índio. Eu sempre quis ter um rifle daqueles.

Que coisa. Quem imaginaria que computador tinha tanta placa? E tantos modelos diferentes? Eu pensava que computador era computador, caput. Precisava de mais? Aquilo me parecia mais incompreensível que a Santíssima Trindade.

Lição número 1 para quem compra o seu primeiro computador: por mais que você julgue saber, você nunca sabe nada.

Eu entendia tanto disso quanto entendo, hoje, de física quântica. E tinha a séria desconfiança de que aquelas palavras não passavam de um código terrível para esconder uma ofensa pesada à minha mãe, pobre mãe.

Com a ajuda de um tio, este pobre peregrino encontrou seu Moisés numa loja de uma galeria comercial na Visconde de Pirajá, em Ipanema. O nome da desgraçada era Luciana; a loja, Gigatronics. Foi ela quem me indicou a configuração ideal, que seria montada por ela mesma: um 386 DX 40, HD de 127 MB, 4 MB de RAM. E um monitor SyncMaster 3, e uma impressora Canon BJ-200. Foi o que eu comprei. Meu computador, segundo ela, já viria com o DOS e com o Windows instalados, absolutamente preparado para editoração eletrônica — a única aplicação que consegui descobrir para justificar a compra daquela coisa. A impressora, dizia ela, era a ideal para esse fim; novidade no país, imprimia em P&B e, somente ela, custaria 750 dólares. No total eu dançaria na bagatela de 2200 dólares — assim mesmo, dólares, em singelas notas de 100 com a cara feia de Benjamin Franklin sorrindo para mim, como se quisesse dar a entender que eu era um idiota. Afinal, aquilo tinha sido contrabandeado em dólares. Dava para comprar um ou dois Fuscas com aquele dinheiro. Era o dia 20 de setembro de 1993.

Saí da loja direto para o aeroporto, me achando o mais up-to-date dos up-to-dates. Eles foram gentis a ponto de me dar uma nota fiscal falsa, para que eu evitasse eventuais problemas com toda aquela muamba no aeroporto. Eu estava encantado. No avião, carregando comigo minha impressora, um sujeito perguntou se aquilo era uma impressora. Aquiesci. Ele perguntou se era uma jato-de-tinta. Orgulhoso, respondi que não: era uma bubble jet. De vez em quando, quando não consigo dormir à noite, fico pensando no sujeito e acho que ele ainda está rindo de mim.

Foi apenas em Aracaju que descobri que minha via-crúcis tinha apenas começado. Eu ainda precisava de um estabilizador. Comprei. E agora precisava de uma tomada trifásica com fio terra. E depois precisava disso. E daquilo.

Lição número 2 para quem compra o seu primeiro computador: você sempre precisa de mais alguma coisa.

Na verdade eu não sabia nada sobre computadores. Sempre pensei que era só ligar o bicho, escrever e gravar com um título qualquer, como “Matéria para O Que de 27/10/91” ou “Outdoor de julho para Rádio Atalaia”.

Não era nada disso. E eu demoraria muito para aprender, se não fosse a ajuda de um vizinho, Maurício. Foi ele quem descobriu que o DOS não estava completamente instalado, e que de Windows aquilo não tinha nem o cheiro.

Lição número 3 para quem compra seu primeiro computador: o vendedor vai enrolar você.

Eu já conhecia esse Maurício havia tempo. Mas foi o computador que nos aproximou. Ele tinha um 286, e os programas que me arranjou — meus primeiros passos na pirataria, confessados agora porque o crime já prescreveu — eram condizentes com a velocidade do seu computador. Ele me conseguiu o DOS e alguns programas monocromáticos para DOS, jogos que ocupavam quando muito 10 Kb, um editor de textos chamado Carta Certa que me fez perder muito material importante, coisas desse tipo. E com material como esse, eu jamais poderia utilizar o potencial da minha impressora.

A partir daí fui instalando outras coisas. Consegui o Windows 3.1 com uma amiga (ela depois seria deputada federal e autora de um projeto de lei acerca de direitos autorais, mas naturalmente também dava suas pirateadas), depois o Corel Draw 4, o PageMaker 4 — eu estava no jogo. E fui aprendendo tudo aos poucos. Aprendi até a me virar com o famoso sistema de arquivos “8.3”, que lhe obrigava a condensar um título desejável como “Relatório de Vendas do Quarto Trimestre” em um código como “RELVEN43.WRI”.

Obviamente escolhi o caminho mais difícil. Uma pessoa com um pouco de juízo e inteligência faz um curso e aprende o bê-a-bá. Idiotas fazem o que eu fiz: comprava todas as revistas de informática que encontrava pela frente. A PC World americana, por exemplo, virou minha bíblia pessoal. É provavelmente a revista que mais me lembra esses tempos heróicos, e certamente a base de todo o meu conhecimento em informática. Em pouco tempo eu já sabia tudo sobre o mercado de computadores, sobre a concorrência feroz entre a Intel e a AMD e absolutamente nada sobre como fazer um blend no Corel Draw!.

Esse é um momento importante na vida daquele que começa a sentir orgulho em ser chamado de micreiro. É quando o computador pega o coitado pela goela e o vicia completamente. Ele já sabe um pouco, acha que sabe muito, e começa a mexer no autoexec.bat, no config.sys. Começa a achar que seu computador é lento demais, que o novo 486 DX2-66 é que é um computador de verdade. Quer aquele programa que saiu agora e no qual não consegue ver nenhuma utilidade pessoal. O computador deixa de ser o meio para agilizar as coisas e passa a ser o fim absoluto. No mínimo é o fim das noites de sono. Pode também ser o fim de um namoro ou casamento, se o caso for muito grave.

O neófito então começa a falar de computadores para todo mundo. Computadores são necessários em todos os lugares, por menos aparente que essa necessidade seja. Seus amigos precisam de um, eles é que não sabem ainda. O novo disco do Nação Zumbi é maravilhoso, mas saiu uma nova placa de vídeo que torna seu PC uma bala. Coitado; ele canta, todo o tempo, as maravilhas da era da informática. Vira idéia fixa. E ele, como todo evangelista, vira um chato.

Triste sina essa, compartilhada alegremente por mim. Aquele computador, que recebeu o nome de Percival, ficou comigo durante 3 anos. Sofreu muito nas minhas mãos, e eu nas dele. Sua placa de vídeo jamais saiu de 640×480 em 256 cores, e eu nunca soube se isso se devia a ela vir quebrada ou a não terem me dado os drivers corretos. No final, ele estava dando mais do que podia, heróico como um bom cavalo, rodando programas pesados como o então recém-lançado Netscape e o Corel Draw.

3 anos, para um computador, é muito tempo, claro. Mas Percival, com seus GPFs, com seus ataques de Athens e Daniella, dois virii idiotas, com sua incapacidade de lidar com textos grandes, agüentou a labuta diária com galhardia e perseverança, apesar de duas trocas de HD.

Aos poucos, o velho e bom Percival foi se tornando cada vez mais importante. Ele deixava de ser um instrumento de trabalho para se tornar o melhor meio de lazer que eu conhecia. A minha experiência diante de um computador passou a ser muito mais rica do que seria diante de qualquer outra máquina. Numa máquina de escrever eu jamais poderia jogar Civilization, por exemplo.

Lição número 4 para quem compra o primeiro computador: computadores criam novas necessidades.

Em 1995 eu já podia me considerar o que chamam de usuário avançado. Quebrava bem o galho. Noites e noites foram varadas na frente dessa máquina de fazer loucos. Um pouco depois comprei meu primeiro modem, e comecei a acessar BBS’s a 2400 Kbps. E depois comecei a acessar a Internet em um modem Boca 28.800 Kps, completando para sempre a minha dependência do computador. Mas isso já é outra história.

Muito tempo depois (3 anos, eu já disse) comprei outro computador. Abandonei o Windows 3.11 e entrei no mundo do Windows 95. E aí termina a minha história de amor com o computador. Porque a máquina em si, no final das contas, perdeu quase toda a sua importância, valendo alguma coisa apenas se conectado a uma linha telefônica. E aqueles pequenos rituais de ajustar o computador passaram a se tornar cada vez menos necessários com os novos sistemas operacionais.

Deixei de comprar a PC World há muito tempo. De vez em quando passo no seu site, mas raramente vejo algo interessante. Percival foi aposentado, e com a discrição de sempre (afinal, não se pode esperar estardalhaço de um 386 em plena época dos Pentium IV) foi ocupar seu lugar num cantinho qualquer do quarto, esquartejado. Ele ficou ali por muito e muito tempo, sem utilidade, esperando o dia em que o Deus dos Computadores (provavelmente uma versão melhorada do DeepBlue) viesse buscá-lo para o seu último descanso.

4 thoughts on “Percival

  1. o meu primeiro foi um PS 2 IBM .. muito pior q o seu 386 ..
    oq ele tinha? sei la ..
    achava ele lindo
    achamos (sim, sempre trabalhei com eu pai) de por um cd-rom, e como ibm que era fodeu com o micreiro que mexeu nele
    perdemos o “ibm” .. ficou só a maquina, o resto era nada mais ibm .. claro, o cara teve que zerar o bicho pra fazer rodar o drive
    antes a gente ia de maquinas olivetti .. CWP1 foi a ultima tentativa deles .. depois o pc acabou com eles de vez .. mas tivemos outras antes .. boazinha tbm .. “quase portateis” .. ainda tenho uma portatil, eletrica .. da olivetti, nao lembro o nome .. usava pra preencher guias .. nem isso mais precisa, ainda bem
    depois, ainda incautos, compramos um infoway .. outra cagada .. 3 paus o bicho .. vixi
    agora so montado mesmo e nada do outro mundo
    word
    intenet
    excel
    programas juridicos
    coisa simples
    eu nunca soube nada de informatica, agora então …
    mas falei isso tudo pra dizer que me sinto meio assim, absorvido, com essa estoria de blog ….
    no fim vou acabar numa clinica pra dependentes ….

  2. muito bom seu relato rafa.
    vc descreveu bem a nossa via-crucis de algun tempo atrás, como somos facilmente enganados e avacalhados, mas, e amor. fazer oq.

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