Como jogar um livro fora

Durante muito tempo tive um sentimento meio calvinista em relação a livros. Se eu começava a ler tinha que terminar, não importava quão ruim fosse o livro em questão.

Foi preciso Salman Rushdie para me libertar dessa maldição.

Não sei se alguém ainda lembra, mas em 1989 um livro de Rushdie, The Satanic Verses, foi condenado pelo aiatolá Khomeini e seu autor marcado para morrer, porque o consideraram ofensivo ao Islã.

No Brasil o livro só foi lançado no meio da década de 90, provavelmente por covardia. Mas Portugal editou o livro naquele mesmo ano; eu comprei em 90.

É preciso explicar uma coisa: o livro foi traduzido no Brasil por “Os Versos Satânicos”, culpa de algum repórter meio analfabeto em inglês, e a tradição ficou quando o livro foi finalmente traduzido aqui. Acontece que verse, em inglês, significa também versículo — como os da Bíblia. E era esse o significado original do livro: “Os Versículos Satânicos”. Foi traduzido assim em Portugal.

As pessoas podem acusar Khomeini de qualquer coisa, menos de que ele era burro. Ele percebeu a verdade, e qualquer leitor desavisado percebe também nas primeiras 30 páginas do livro: a intenção de Rushdie era provocar, mesmo. O livro inteiro era uma grande provocação. É ofensivo a Maomé e a praticamente tudo o que diz respeito ao islamismo.

Claro que nada justifica a atitude de Khomeini. O cristianismo, por exemplo, agüenta insultos piores tranqüilamente. E a liberdade de expressão é um direito sagrado no Ocidente. Mas nunca é demais lembrar uma lição que mamãe me ensinou: nunca cutucar uma onça com vara curta.

De qualquer forma, “Os Versículos Satânicos” foi uma obra libertadora em minha vida. Lutei, enfrentei briosamente aquele livro — mas aí pela página 100 eu simplesmente não agüentei. Tive que confessar que aquele era um dos livros mais chatos que já lera em toda a minha vida, a começar pelo estilo, uma derivação bastarda de Joyce e Faulkner. E pela primeira vez em toda a minha vida desisti conscientemente de um livro. Como dizia Dorothy Parker, “este não é um livro para ser posto de lado. É para ser jogado fora, com toda a força”.

É. Eu devo muito a Rushdie. E sempre agradeço a ele quando me defronto com um livro ruim. Para alguma coisa aquele feioso tinha que servir.

6 thoughts on “Como jogar um livro fora

  1. Eu era exatamente o contrário: sempre largava os livros ruins no meio. Até que a minha querida amiga, Alessandra Bonrruquer, veio com essa pérola: “Não dá pra você falar que gosta ou não gosta de determinado autor sem ter lido toda sua obra, os livros bons e os livros ruins”. Ora, formalmente ela estava certa… depois, aprendi a terminar todos os livros, mesmo os piores. “O mundo de Sofia” é um exemplo. O livro é fraquíssimo, feito pra adolescentes, mas o final foi razoavelmente original e eu gostei. Atualmente, termino quase tudo que começo a ler. Por outro lado, evito começar aquilo que acho que não será bom. hehehehe

  2. Eu começo até coisas que sei que não prestam. Devo ser muito pouco zelosa com meus neurônios. (ou eles são muito fraquinhos, pouco exigentes). Só sei que até Paulo Coelho já li até o fim. O livro era “Verônica decide morrer”. Li até o fim pra ver se a insuportável Verônica morria. O livro foi tão ruim que nem sou capaz de me lembrar se ela morreu. Se ainda está viva, peço que dêem um jeito na mala.

  3. Sou o tipo de leitora valente, que enfrenta quase uma luta de vida e morte com um livro ruim. Jamais consegui largar uma leitura pelo meio do caminho, vou sofrendo até o fim, mas chego ao fim. Estava quase pedindo este livro do Rushdie emprestado ao Rafa pra ver se também a fórmula faz efeito comigo me curando de vez desse masoquismo que me persegue. Por outro lado, sábia é a filosofia oriental do Alter de evitar começar algo que sabe que não será bom…melhor me poupar dessa.

  4. Bia, você não leu e não gostou? Das duas, uma: se você um dia ler e gostar, que horror! Mas, como acho que você tem uma cabeça melhor do que do povo “paulocoelhístico”, dou todo crédito a seu “não li e não gostei”.

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