Lembranças soltas tiradas de um baú bolorento

O Bia não gostava de “Daniel Boone”. Eu e a Mônica adorávamos. Eu não gostava de “Terra de Gigantes”, mas gostava de “Batman”, de “Durango Kid”, de “Maya” (dois meninos e uma elefoa) de “O Homem do Fundo do Mar”, de “CHiPs”, de “Ratos do Deserto”, de todos os filmes de Jerry Lewis, do Zorro (o Lone Ranger, aquele de Tonto e Silver), dos filmes de Tarzan com Johnny Weissmüller, e de uma infinidade de outros que não lembro agora. Isso para não citar os desenhos.

Eu gostava de faroestes. Brincava com o Playmobil e com o Falcon. Tive revólveres de espoleta, até mesmo uma carabina de espoleta, igualzinha àquelas Winchester que matavam bandidos, bisões e índios.

Entre a minha infância e as de hoje há uma diferença enorme. É estranho que em um quarto de século tantas coisas tenham mudado. Os símbolos que valiam para a minha geração não valem para a de hoje.

Não se vê mais crianças brincando de cowboys. Na década de 70 os símbolos válidos eram do passado: eu cheguei a brincar de espadachim, embora a Idade Média e o Renascimento também já estivessem saindo de moda. A informação a que tínhamos acesso tirava suas referências do passado, e tinha como matéria prima o cinema de Hollywood, embora até chanchadas da Atlântida pudéssemos ver na Sessão da Tarde.

Sou de um tempo em que as cenas de sexo nos filmes que a TV exibia eram indicadas por um beijo ardente e um fade out. A informação se completava na mente de quem assistia: para mim, tudo se encerrava naquele beijo. Sinceramente, acho uma fórmula melhor que cenas razoavelmente eróticas em filmes que crianças assistirão; há um tempo para tudo.

Na minha época o espaço sideral era curioso, mas distante. A febre que o Sputnik criou na humanidade já tinha passado, e tinha restado muito pouco; além disso, era difícil simular gravidade zero em nossas brincadeiras.

Eu realmente acho que minha infância foi abençoada, por ter se dado em um momento de transição entre o já velho século XX e a preparação frenética para o século XXI. Como se fosse uma espécie de interseção meio paradinha entre um passado razoavelmente estável e um futuro desconhecido. Mas não saberia dizer se a infância de quem tem 8 anos agora, em uma época absolutamente fantástica em que tudo se transforma rapidamente, é melhor ou pior. Só que é diferente.

A única certeza — que não é dita com tristeza ou orgulho, apenas como uma constatação quase bovina — é a de que eu estou ficando velho.

4 thoughts on “Lembranças soltas tiradas de um baú bolorento

  1. Hoje em dia vem tudo muito mastigado…. Como sou bastante participativo na vida de meus filhos, meus moleques de 11 e 7 mesclam um pouco do meu tempo com o atual… E só uma pergunta: Por que vc não gostava de “Terra de Gigantes”??

  2. Paulo, pela mesma razão pela qual o Bia não gostava de Daniel Boone: não dá para explicar. Revi alguns episódios há alguns anos, quando o Warner repassava seriados antigos, e descobri que talvez ele fosse adulto demais para mim. A propósito, faltaram dois seriados que eu adorava, mais que muitos que citei no post: “Túnel do Tempo” e “Viagem ao Fundo do Mar”.

  3. É… também considero que tivemos sorte. Nossos pais também. Nossos avós, nem tanto. E nossos filhos, coitados.

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