O Pequeno Burguês

Salvador, praia de Stella Maris, 1993. Manhã cedo, aí pelas seis horas. No bar de um amigo, eu procuro alguma coisa para comer depois de uma noite meio agitada, quando aparece um sujeito que eu nunca tinha visto.

“Waltinho tá aí”?

Tá dormindo, eu acho. Procure em uma das redes na praia.

A única coisa que se podia comer era xinxim de galinha, e eu não sou filho de Oxum para gostar daquilo. Ora yeyê o!, Oxum, mas vou morrer achando que galinha não vai bem com dendê. Volto à cerveja. E a gente começa a conversar.

O sujeito, um neguinho de seus 40 e alguns anos, magro, vesgo, dentes que sobraram apodrecendo, veste apenas um short azul, e traz no corpo corroído pela cachaça as marcas de uma vida de trabalho braçal. Ele se diz chamar Wilson, mas se eu quiser posso chamá-lo de Zoinho, é assim que todo mundo o chama. É alcoólatra, é claro que é alcoólatra.

Zoinho conta histórias, enquanto derruba uma garrafa de vodca. E então me conta o seu grande momento na vida. Ele se diz autor de “Canudo de papel”. “Felicidade, passei no vestibular, mas a faculdade é particular”.

A primeira coisa em que penso é que aquele bêbado está inventando histórias; pagando a vodca que eu graciosamente ofereço como se fosse minha. Mas ele fala com tanta certeza, e tão sem revolta, como se a miséria em que vive fosse tão natural como compor um samba numa mesa de boteco, que eu passo a acreditar nele. A única glória que reclama é ser reconhecido com o autor do samba, só isso. É tão pouco. Para mim, Zoinho é o autor de “Canudo de Papel”.

Algumas doses depois ele vai embora. Eu nunca mais veria Zoinho.

O samba na verdade se chama “O Pequeno Burguês”, e a autoria oficial pertence a Martinho da Vila. Se Zoinho é mesmo seu autor, eu nunca vou saber. E algum dia até essa dúvida sumirá, assim como Zoinho sumiu um dia em Stella Maris.

4 thoughts on “O Pequeno Burguês

  1. Acredito que a maioria dos alcoólatras são alcoólatras pelo simples fato da bebida transformar sonhos que estes gostariam que fossem realidade, em coisas realmente reais em suas mentes. (rs…profundo isso, acabei de acordar). Porém, muitos espertos também enxergam no alcoolismo uma forma fácil de tirar vantagem alheia, quão fácil num caso como este, numa mesa de bar, alguns trocados investidos numa garrafa de cachaça….e eis que surgem uns garranchos escritos num guardanapo de papel e este é prontamente colocado no bolso? Mas neste caso, bêbado por bêbado, não sei quem explorou quem…..

  2. Eu acho interessante como temos alguns encontros na vida. O evento totalmente casual e que nunca mais se repete. Mas que fica gravado na cabeça. E que poderia nunca ter acontecido por um triz, por um fato bobo que tivesse ocorrido antes. Aliás, como tudo na vida. Até com relação ao que acontece de mais marcante conosco.

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