A velha onda do kinemanacional

Assisti a um filme brasileiro dos anos 80 — primeira metade, provavelmente, a julgar pelos figurinos, pela juventude de Carla Camuratti e da então divina Vera Zimmerman e por uma foto de Figueiredo numa parede — chamado “Onda Nova”.

Nunca tinha ouvido falar. Poderia continuar sem ouvir.

Se é que consegui entender, “Onda Nova” gira em torno de um time de futebol feminino. É pior que uma partida de verdade.

O filme é nada mais que um portfólio de todas as falhas que se encontrava no kinemanacional da época. Uma dublagem horrorosa, ausência completa de efeitos sonoros (é como se ao fazer a dublagem eles esquecessem a trilha com o som ambiente; pelo visto não podiam gravar com som direto e o editor de som só se preocupou com os diálogos, esquecendo o resto), uma tendência a ser episódico demais, interpretações toscas, um roteiro correndo atrás do próprio rabo, diálogos famélicos e um gosto patológico por palavrões e cenas de sexo dispensáveis. Há detalhes hilários como um grupo de mulheres decidindo um aborto como se estivessem escolhendo a roupa com que iam sair naquela noite, e uma participação inexplicável de Regina Casé. Em todo o filme, há apenas uma boa cena: Patrício Bisso subindo em uma cadeira para pegar sua peruca no lustre, jogada ali por sua filha.

Há algum tempo ouvi alguém falando que a edição de som no kinemanacional sempre foi tão boa quanto a americana; a gente é que não percebia que o som deles também era ruim, porque estávamos ocupados lendo as legendas. “Onda Nova” prova que não. Há uma infinidade de detalhes de uma mediocridade tão estrondosa que se tornam gritantes. De modo geral geral, os erros são tantos e de uma diversidade tão grande que conseguem desagradar a gregos e troianos.

Eu, pessoalmente, não tenho nada contra a “globificação” do kinemanacional, acusada por Ela (aliás, qual o nome d’Ela?). Não que o padrão Globo seja o melhor do mundo, ou mesmo transportável para o cinema. Mas é um padrão mínimo. O desafio do grosso do cinema nacional ainda não é ser criativo: é ser tecnicamente correto, é saber construir, acima de tudo, uma boa narrativa. Se pelo menos alcançassem o padrão Globo, todos eles, já seria uma boa. Se, por exemplo, “A Paixão de Jacobina” tivesse a qualidade narrativa de “O Tempo e o Vento”, minissérie global de quase 20 anos atrás, teria sido uma vergonha menor para seu autor e para sua protagonista.

“Onda Nova” serve ao para derrubar um mito que a intelligentzia nacional criou: a de que o fim da Embrafilme em 1990 representou o fim do kinemanacional. Nada mais equivocado: o cinema estava morto havia muito tempo, sobrevivendo graças ao pulmão artificial decadente dos Trapalhões, fazendo aqui e ali filmes desgraçadamente trash como “Onda Nova” e, raramente, produções mais ricas mas também ruins — “Quarup”, por exemplo.

Serve também para atestar que o kinemanacional evoluiu assustadoramente em poucos anos.

Mesmo assim, mesmo que ele sirva apenas como referencial histórico e um aviso aos infantes (“olha, se você não comer espinafre vai acabar que nem esse filme), e embora eu não tenha tido a coragem de assistir até o fim, talvez assistisse de novo. Vera Zimmerman, novinha, faz uma lésbica — não é preconceito; é que o seu papel se restringe a isso, ser lésbica e colar velcro em um táxi — absurdamente deliciosa. A visão de sua beleza pós-adolescente — e da marca de uma operação de apendicite muito, muito sexy — torna o suplício quase suportável.

4 thoughts on “A velha onda do kinemanacional

  1. Esse filme é do caralho ! Mal feito mas engraçado e cheio de mulheres deliciosas ! Foda-se se o som era ruim !

  2. Uma coisa que me irritou eh que nao da para saber o elenco do filme, alguem ai sabe o nome da atriz que fez o papel da garota chamada batata, aquela do cabelo preto repicado que aparece tomando cafe da manha??? quem souber me mande um email : betto8677@hotmail.com

  3. A cena com o Caetano é muito ruím, alíás como todo o resto. Este filme é o “Amor, estranho amor” de Xuxa para Caetano, Regina Casé, Carla Camurati…produção de uma rua transversal à boca do lixo.
    De bom os pentelhos das meninas; fartos, exuberantes…especialmente od Vera Zimmerman.

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