Hellblazer

Olhando bem, todo o arcabouço moral dos super-heróis é oitocentista. São movidos por noções éticas demodês como honra, justiça e a defesa dos fracos. O que mais faria o Homem-Aranha admitir que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”? Ou um milionário como Bruce Wayne perder suas noites combatendo o crime em vez de ficar em casa em orgias inenarráveis com seu grande amor pré-adolescente, o Dick Grayson (chamado de “o menino-prodígio” por suas habilidades na saliência)?

Enquanto isso, John Constantine só quer tirar o seu rabo da reta.

O que move Constantine, o melhor anti-herói que a indústria de quadrinhos criou em todos os tempos, é uma tentativa insana de sobreviver à imensidão de besteiras que cometeu em sua vida. Ele é um produto da década de 70; ou melhor, uma reação da década de 70 aos anos 80. Mais que qualquer outro, reflete aquela postura niilista e desencantada da Inglaterra que gerou o punk e, de repente, se via encurralada pelos yuppies; como diriam os Sex Pistols, no future for you and me.

Algo nas histórias de Constantine me lembra alguns aspectos do Decameron misturado com Dr. Fausto — um mundo que, mesmo em contato com o além (ainda que seja o pior dele), insiste em ser o mais secular possível, hedonista e imediato, e quase sempre amoral.

Minha história preferida de Constantine é aquela em que, condenado por um câncer, ele decide enganar a morte e, de quebra, o maior número possível de demônios, obrigando-os a conservá-lo vivo para evitar o fim do Inferno. Parece um conto de Papini em quadrinhos.

Depois do Batman, John Constantine é o meu herói favorito, por ser o mais canalha, o mais cínico, o mais covarde — em uma palavra, o mais humanamente falho. O que quer dizer que, infelizmente, é o mais parecido comigo. E provavelmente com você, também.

7 thoughts on “Hellblazer

  1. Espero realmente que os anti-heróis sejam parecidos comigos, mesmo que pareça uma reação contra o que se convencionou como sendo “o bem”. A consciência de que temos um lado ruim é extremamente humana. E eu prefiro ver também esse outro lado, pois não tenho vocação nenhuma para vaca de presépio, para bicho que fala e que segue regras preestabelecidas. E assumo isso mesmo que me acusem de cruel.

  2. Meu caro Rafael e querida Dani, Batman é o Batman. Bom é ver Batman, um reles mortal que se vale de sua inteligência e engenhosidade, se manter lado-a-lado com super-heróis cheios de poderes e até os enfrentando (que o diga o super-homem – um dos seres mais nojentos e narcisistas). É Phodd@. Batman é quase bandido, não é estereotipado. É um ser noturno e soturno. Gosto tb do Homem Aranha, mas no cinema mataram o melhor dele: Seu sarcástico senso de humor, uma de suas melhores armas para irritar e pentelhar seus adversários. O Homem Aranha do cinema é um pastel americano. Nada a ver com o dos quadrinhos ou da boa série animada mais moderna que passa na TV. E tem tb o Wolverine, que é neurastênico e impulsivo. Muito bom de se ler ou ver. No cinema, está bem caracterizado. Abraços, Rafa!

  3. Fala sério o mais legal no Constantine é que ele vive como quer e usufrui do seu livre-arbítrio, diferente do super homem que só recebe ordens, mas perde pro homem aranha que tambem possui essa liberdade e escolheu o lado do bem.E sofre por isso todos os dias.

  4. Bem sacal você, hein, Rafael? Nunca definiram melhor o velho john, mas o fato de vc preferir o batman em primeiro lugar só pode ser explicado de um modo:”Batman – Ano Um” e “O Cavaleiro das Trevas”, algumas das obras-primas de Frank Miller. O resto é conversa fiada. Té.

  5. Legal cara que você encontrou em Constantine e sua inenarrável maneira de encarar a realidade bem/mal algo no qual possa exteriorizar suas dúvidas ou sentimentos de liberdade. Mas pergunto: você acredita em anjos e demônios? Ou Deus e o Diabo?

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