Um viva à repressão

A Dani escreveu um post sobre a falta de educação do carioca.

É um ponto de vista interessante. Não conheço Recife o bastante para para dizer que a cidade é isso ou aquilo (só para dizer que não gosto muito dela), mas não acho o carioca o povo mais mal educado do mundo. Reclamam do trânsito carioca, mas ele é muito melhor, por exemplo, que o sergipano, onde as pessoas estacionam no lado direito das avenidas e dirigem pelo meio da rua, e têm uma cegueira esquisita para pedestres, ainda que estejam bem à sua frente.

Mas não é essa a questão. O povo do Rio faz xixi na rua? Bobagem: o baiano faz cocô. E o xixi na parede é praticamente uma instituição baiana, tornando-se obrigatório durante o carnaval e festas de largo.

Diacho, ainda não é essa a questão.

É a seguinte: respondendo a um dos comentários, ela fala que isso é o resultado da “falta de repressão”.

É engraçado como nós reagimos imediatamente ao uso dessa palavra. Repressão lembra duas ditaduras sanguinárias, a de Vargas e a de 64, pontos mais baixos em um país que entre o II Império e a Nova República não conseguiu um período longo de estabilidade institucional. Faz parte também da própria natureza ibero-americana, fidalga e individualista. Nossa primeira reação é repugnância, achar que pedir repressão é demais. Somos os alegres donos de um espírito falsamente libertário.

O pior é que estamos errados, e essa má compreensão do conceito de repressão é provavelmente uma das causas da sensação geral de que este é o país da impunidade.

Repressão não quer dizer, necessariamente, ditadura. É um instrumento da sociedade, se é que podemos chamar assim, para a regulação de interesses conflitantes. Um sinal de trânsito é um elemento de repressão; uma multa também.

Um Estado não precisa ser policial para reprimir quem comete pequenas contravenções. É até uma necessidade. Eu, pelo menos, estou convencido há muito tempo que tolerância com bobagens como estacionar na calçada são o primeiro passo para tolerar “deslizes” maiores. Se eu posso cometer uma pequena infração, é inevitável que eu tente cometer uma maior. E vou esperar que a tolerem, também, alegando que “se posso aquilo também posso isso”. Faz parte da natureza humana.

A falta de repressão a esses atos progressivamente mais nocivos vai esgarçando aos poucos o tecido social, que incorpora essa noção como natural. O carioca, mais especificamente, parece ter uma espécie de culto à malandragem, à “ixperteza”, uma mania de achar a bandidagem, quando não admirável, algo com o que se pode conviver naturalmente. Essa atitude torna tudo mais difícil, porque a ideologia dominante passa a ser a de que o importante é não ser pego. Mas isso vale para todo o país.

Um sistema mais eficiente e, portanto, mais repressivo provavelmente ajudaria a fortalecer a idéia de comunidade. É curioso que só os mais pobres morem em “comunidades”. Há uma questão semântica interessante aí, a idéia de que esse papo de comunidade é para pobre, de que rico está acima disso.

A noção de repressão deve nascer da noção de que todos têm os mesmos direitos e deveres. Ela serve para garantir que eles sejam respeitados. É simples.

5 thoughts on “Um viva à repressão

  1. Pra variar, vou dar palpite: 1. Às vezes fico pensando que, sei lá se devido ao período de ditadura, a palavra REPRESSÃO acabou ganhando um forte peso negativo por aqui. E assim, como o Aurélio não é bobo nada, entre vários significados REPRIMIR quer dizer: violentar, oprimir, vexar, tiranizar. Concordo que é preciso haver regras para que tudo funcione relativamente bem. Resta saber o que tem passado pela cabeça dos que usam a palavra “repressão”. 2. Vivemos num país que ignora que “se tudo vai bem para todos, talvez melhore para mim individualmente também”. E isso serve inclusive para os ricaços que jogam papel na rua. Sinceramente, duvido que algum dia este país aprenda a ter o tal espírito de coletividade.

  2. Ainda pensando sobre isso, acho que o Brasil deveria mudar de nome. Que tal “Estados Unidos do Salve-se Quem Puder”? O “Estados Unidos” seria pra agradar as madames tupiniquins que têm casa em Miami.

  3. Repressão: Multa pra quem deixa o cocô do cachorro na rua (não deviam nem levar pra cagar lá), e prisão, sem direito à fiança, pra quem anda com cachorro na rua sem coleira. Prisão também pra quem faz xixi na rua. Atentado ao pudor (hehehe). E na Bahia então, prisão também pra quem faz cocô. Multa para o estabelecimento que deixar fumar em lugar fechado. Um dia inda vou ser prefeita dessa cidade. heheheheh

  4. E num é nem a “mal educação”. Carioca é até educado… bom dia, boa tarde, orbigado, feliz natal, eles falam direto. O lance do carioca que eu tento explicar é o ego nas alturas. É achar que estão acima de tudo e de todos e podem fazer o que der na telha. Quem se incomodar, que se mude. E aqui ou em Recife ou na maioria dos lugares que eu fui, tem carro parado em qqer lado da rua. Aqui no Rio ainda ficam em cima das calçadas ao lado de uma placa: É proibido estacionar. Tô falando… o Gui até tirou foto pra mostrar em Sum Paulo. Tô sabendo que em Nikity as coisas são diferentes, vai ver vc não fica tão chocado por causa disso.

  5. Interessante… Este final tbém aceita a palavra “liberdade”… que é o oposto de “repressão”

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