A culpa de todos nós

Europa Europa é um filme baseado na auto-biografia de Shlomo Perel, adolescente judeu que, para sobreviver na Alemanha nazista durante a II Guerra, mentiu sobre sua ascendência, juntou-se à juventude hitlerista e chegou a lutar na Wehrmacht.

(Não foi um caso isolado. Além dos milhares de Mischlinge — pessoas com “metade ou 1/4 de sangue judeu” — que lutaram do lado dos nazistas, vários judeus também fizeram o que precisavam para sobreviver.)

Assisti ao filme há dez anos, numa madrugada qualquer na Globo. Tinha acabado de terminar uma campanha e me dedicava ao que mais gosto nessa vida: trocar o dia pela noite. A lua me trata com mais carinho que o sol, diz coisas mais bonitas ao meu ouvido.

Europa Europa me impressionou não tanto pelo que dizia de verdade, mas pelas pequenas mentiras óbvias que contava.

Por exemplo, há um momento em que ele se torna amigo de um oficial nazista homossexual. Quando o oficial descobre que ele é judeu, não o delata por simples amizade. Eu acredito nisso, porque também acredito em Papai Noel. Mas o mais provável, mesmo, é que Perel tenha se abandonado a doces brincadeiras com o oficial para salvar sua pele.

Tem mais. Quando sua namorada alemã fala mal dos judeus e ele lhe dá um tapa, cria-se uma situação em que nem eu acredito. Parece lógico que, se ele conseguia se controlar diante de todos, se controlaria diante dela. Mais uma vez, o que estava em jogo era a sua pele, e isso vale, cá para nós, muito mais que palavras ditas por uma menina que com uma certa dose de boa vontade pode ser desculpada como apenas o produto de sua época.

Mas a parte mais interessante é aquela em que, no campo de batalha, ele consegue falar com o inimigo russo pelo rádio. Conta quem é e propõe se render; e quando se dirige à trincheira russa, os alemães a invadem e vencem a batalha, e o parabenizam pela “estratégia brilhante”.

O mais provável é que isso tenha sido uma estratégia alemã. Que Perel tenha sido apenas parte da tática alemã naquele momento; não duvido sequer de que ele tenha proposto o truque, para provar sua lealdade ao Reich. Por umas dessas tortuosidades da psique humana, ele tinha que ser mais nazista que os nazistas.

Não acho que nada disso seja condenável. Quase tudo é válido para que se consiga sobreviver em tempos muito difíceis. É fácil falar de heroísmo. Difícil é ser herói quando o seu está na reta.

Mas a maneira como Perel mascara sua história, como edulcora episódios que julga humilhantes e pouco heróicos mas que garantiram sua sobrevivência em um momento em que o seu povo virava pizza kosher, fala muito a respeito da culpa que as vítimas sentem. É engraçado que possamos fazer de tudo para sobreviver, e essa mesma sobrevivência eventualmente se torne um fardo incômodo, às vezes insuportável.

A vida é muito estranha.

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