Nua na banca de revistas

Há alguns meses eu me perguntava se, em relação à nudez, o cinema não tinha influenciado a realidade, em vez de o contrário.

A vida sempre foi belaUm artigo na revista Nossa História de maio, sobre as revistas “pornográficas” no Rio do começo do século passado, talvez indique que eu não estava tão desprovido de senso. Ele mostra que na primeira década do século passado revistas que misturavam humor e fotografias de mulheres nuas eram relativamente comuns no Rio, e vendidas abertamente em bancas de revistas. Tão abertamente — e é esse o ponto realmente importante — que causou o descontentamento de setores católicos.

É uma matéria muito interessante, embora erre ao misturar em demasia sexo e política. A idéia de que a repressão às revistas tinha tanto a ver com a “opressão das elites aos trabalhadores” quanto com a nudez nas fotos publicadas é um exagero, típico de uma ala acadêmica que acha que tudo neste mundo é mero resultado de um complô das elites contra os trabalhadores. Para a Liga Católica, que tentou proibir as revistas em 1910, os peitinhos das gordinhas eram motivo mais que suficiente para indignação. Ela não usava a pornografia como desculpa para “infantilizar os trabalhadores”, como sugere o ensaio; usava os trabalhadores como desculpa para banir o que lhe incomodava.

O ensaio falha também ao retratar os ataques a políticos como “coragem e irreverência”. Essa era uma postura amplamente disseminada na imprensa de todo o país na época, e em muitos lugares perdura até hoje, controlada apenas pelo medo universal de um tiro na testa. Se a autora conhecesse um pouco mais sobre isso, veria que cada ofensa atendia a interesses de outras facções. Nada era gratuito. Pode-se até chamar de coragem, mas ela não era nem um pouco desinteressada.

De qualquer forma, a existência de proto-Playboys vendidas despudoradamente naquela época talvez mostre que sim, que o cinema americano, como principal meio de diversão do século XX, impôs um modo de encarar e mostrar a nudez que era um retrocesso em relação aos costumes. Porque um gordo depravado e bêbado enfiou uma garrafa de coca-cola numa starlet (dizem que é lenda, mas e daí?) e eles se viram obrigados a criar o Código Hays, o mundo retrocedeu em anos.

O resultado pode ter sido a imposição do código puritano em relação à sexualidade, ao que podia ou não ser visto, ao resto do mundo. Foi um mau negócio.

One thought on “Nua na banca de revistas

  1. (não sei o que aconteceu ai em cima…) as revistas e os filmes pornôs têm até um lado PEDAGOGICO. fui falar de cinema com umas professoras, dentro de um workshop sobre educação, ai comecei a falar que os filmes podem ser ferramentas para o aprendizado (ou o ensino) e tal… aí uma fêssora levantou a mão e falou que era verdade. quando ela casou não sabia nada de sexo e o marido era bem travadão. aí um dia tiveram a idéia de tirar um filme e a vida deles mudou! aquele filme ensinou como se podia fazer… agora… vc tem visto como andam os filmes? meu… eles ampliaram, e muito, o termo HARDCORE!

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