Porto da Barra

Eu não gosto de praia. Não consigo lembrar quando foi a última vez que fui a uma.

Não foi sempre assim, no entanto. Fui criado no Porto da Barra, e como estudava à tarde ia para lá todas as manhãs.

Porto da BarraA Barra é uma praia especial. É uma praia de baía, que ainda por cima fica numa enseada e tem, para completar, um velho ancoradouro que funciona como quebra-mar. É uma praia tranqüila, espremida entre rochas, e com uma concentração mais alta de sal; é por isso que é a única praia em que consigo boiar.

Foi lá que aprendi a nadar. Foi onde dei meus primeiros e últimos passos na chatíssima arte de pescar. Peguei um baiacu pequenininho, antes que uma moréia mastigasse meu anzol, e com exceção de umas traíras muitos anos depois, foi o único peixe que peguei até hoje.

Talvez tenha deixado de gostar de praia quando vim morar em Aracaju, começo da década de 80. Além da fealdade das praias sergipanas, Aracaju não tem a cultura de praia que se vê na Barra ou em Ipanema. Provavelmente por ser uma cidade que cresceu às margens de um rio, Aracaju não via a praia como uma coisa cotidiana, tão próxima. Na verdade, até há uns 50 anos aracajuanos iam veranear na praia de Atalaia. Ir à praia em Aracaju significa se preparar para passar a maior parte do dia fora, sentar numa mesa de bar, comer caranguejo ou qualquer outra coisa, e então voltar para casa com a sensação de que realmente aproveitou seu dia.

A minha cultura específica era sair de casa andando, passar algumas horas na praia, tomar um mate (no Rio; em Salvador não tinha mate gelado), uma limonada ou um picolé, e voltar aí pelas 11 da manhã. A diferença de abordagem deve ter tirado toda a graça da praia para mim. A praia deixou de ser uma parte do cotidiano para se tornar um evento semanal. Já não era a mesma coisa.

No Porto da Barra havia os pescadores que chegavam e me davam os peixes menores, com os quais eu inventava brincadeiras. Uma vez fiquei empolgado ao pedir e ganhar uma cabeça de tubarão. Peguei aquilo e levei para casa, junto ao peito, para no dia seguinte descobrir o estrago que a pele dele fez em mim. A cabeça, por minha insistência, ficou no congelador por alguns dias, até que alguém chegou à conclusão que mais valia me traumatizar do que continuar com aquela coisa inútil entulhando tudo.

E não, eu não fazia idéia do que fazer com aquela cabeça de tubarão. Acho que a melhor idéia que tive foi empalhar aquilo. Eu via filmes demais.

Nunca ganhei uma cabeça de tubarão em qualquer outra praia. E essa é outra explicação para o fato de eu não gostar delas.

5 thoughts on “Porto da Barra

  1. Rafael,

    Você agora tocou numa fase gostosa de minha vida. O ano era 1977. Estudava eu em Salvador, alí na Faculdade de Economia, na Piedade, e morava nos Barris.
    Como era curso de especialização, tinha uma carga de oito horas diárias, com provas sempre aos sábados (então, uma ou outra vez na sexta à tarde).
    Durante a semana não tinha refresco: era comparecer às aulas e estudar. Mas nos fins de semana, amigo, não tinha pra ninguém. Juntávamos os estrangeiros (cearense (eu), paraibano, pernambucano, norteriograndense e vez ou outra algum baiano fugitivo da namorada) e íamos à praia durante o dia e às boates de noite, algumas vezes nos demorando até pegar o sol com a mão e terminar a farra numa padaria perto do Campo Grande.
    A praia era invariavelmente o Porto da Barra. Somente uma vez ou outra a Plakafor (nem sei mais como se escreve). Muita cerveja de latinha e paquera. Ficávamos por lá até quase escurecer e as luzes da ilha se acenderem. Tempo bom! Que saudade!
    E ainda tinha de noite um chope no Oceania, com suas cadeiras de alumínio na calçada.
    Nesse tempo Salvador ainda era tranquila, a violência bem menor. Dava pra se andar em paz. E como éramos (éramos?) todos “lisos” (sem dinheiro), ou se andava a pé ou de ônibus. Carro só quando um colega mais abastado resolvia sair com a gente.
    Obrigado por me fazer lembrar tempo bom da minha vida.

    Abraços,

    Sérgio.

  2. Ola Amigo

    Fiquei entusiasmado com a sua historia de empalhar a cabeca de um tubarao, gostaria se possivel me passar a tecnica elaborada, pois tenho muita vontade de empalhar uns exemplares.

    O mesmo endereco acima e meu MSN

    Aguardo sua breve resposta

    Atenciosamente

    Jairo Veloso

  3. Olá Rafael,
    Como pude perceber seu grande problema não é ‘praia’ e sim, o local onde está a praia. Aracaju tem praias belíssimas,a orla mais bonita do Brasil e cada um aproveita essa beleza como pode e como gosta. Nada impede que vc pesque, nade, caminhe horas e horas, só depende de vc, que aliás, é vc que tem que se adaptar ao lugar e não o lugar aos seus costumes. Do contrário, meu caro, mude-se para Salvador ou pegue um ônibus todos os finais de semana caminhe chupando picolé ou tomando suco de limão e retorne no fim da tarde.
    Afinal, se a prainha da Barra é tão maravilhosa e inesquecível porque mudou-se de lá?
    Ter o privilégio de comer caranguejo e os melhores frutos do mar na orla mais bonita e estreuturada do Brasil é para poucos,é privilégio daqueles que sabem ver a antureza com os olhos da diversidade. Reveja seus conceitos.
    Até breve!!!!!

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