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Disneylândia

October 23rd, 2008

Eu já devo ter dito algumas vezes por aqui que me sinto um afortunado por ter podido assistir à televisão nos anos 70.

Não é nostalgia boba de um sujeito mais velho do que parece. É que a programação da TV aberta naqueles tempos era realmente melhor. Talvez por não ser obrigada a nivelar excessivamente por baixo sua programação, já que não tinha a concorrência das TVs a cabo e da internet, a TV aberta conseguia equilibrar apelo popular e qualidade estética: foi nessa época que se firmou o tal padrão Globo de qualidade.

Além disso, a maior parte dos filmes que exibia eram antigos; o que quer dizer que em vez de assistir a filmes escatologicamente dementes como Thunderpants, nós podíamos assistir a “O Gavião e a Flecha”, com Burt Lancaster, bons faroestes com John Wayne e filmes de Jerry Lewis e Charles Chaplin. Eu assisti a The African Queen pela primeira vez na Sessão da Tarde; duvido que isso seja possível hoje em dia.

E mesmo com tantas opções, Disneylândia era um dos meus programas favoritos. Todos os sábados à tarde, “o mundo maravilhoso de Disney” exibia um filme, às vezes em duas partes. Eram obras dirigidas ao público infantil, e alguns deles, a exemplo de “O Tesouro de Matecumbe”, eram quadrinizados depois e apareciam em revistas como o Almanaque Disney.

(O mais engraçado é que um dos meus sonhos na época era poder ver os desenhos animados de que a Disneylândia exibia trechos [e também o Cube do Mickey, nos fins de tarde da TV Tupi] — ou seja, aquela quantidade enorme de curta-metragens que a Disney tinha produzido ao longo de mais de meio século. Eu já tinha visto alguns no cinema — antes do video-cassete a Disney reprisava seus filmes periodicadamente –, como “Cinderela”, “A Bela Adormecida” e Mickey and Seal, e alguns na TV, como Pluto’s Blue Note e Bongo, e achava que eram melhores que os filmes a que eu assistia. No início dos anos 80, meu sonho foi realizado. A Disneylândia deixou de exibir os filmes e se concentrou nos desenhos. Foi a pior coisa que podiam ter feito. Depois de algumas semanas, tudo aquilo se tornou extremamente chato, ao contrário dos filmes exibidos anteriormente. Moral: a gente deve ter cuidado com o que deseja.)

Durante muitos, muitos anos procurei saber mais sobre os poucos filmes de que me lembrava. Uma esperança apareceu com o IMDb, mas ele nunca conseguiu me dar a resposta — até que a anta aqui finalmente fizesse a pergunta certa.

É uma boa sensação reencontrar alguns filmes cujas lembranças lhe acompanharam pela maior parte de sua vida.

Child of Glass, de 1978, é um deles. Conta a história de um menino que se muda para uma plantation colonial no sul dos EUA e tem que encontrar uma boneca para que o fantasma de uma menina possa descansar em paz. Ele encontra a boneca em um vão dentro de um poço. Assisti a esse filme no ano seguinte ao de sua produção, mas não era comum exibirem filmes tão novos. Vi o segundo episódio de A Country Coyote Goes to Hollywood, por exemplo, no dia 30 de março de 1979. Estava sozinho em casa porque todos tinham saído — mas nada me faria deixar de ver a conclusão da história de um coiote perdido nas colinas de Hollywood, filmada em 1965.

Foi com Barry of the Great St. Bernard (1977), no início do inverno baiano de 1980, que conheci a história dos São Bernardos que salvavam vidas nas montanhas da Suíça. Lembro da imagem final, com a estátua que ergueram em homenagem ao cão Barry — só não sei por que a Linha Maginot me vem à memória sempre que lembro dessa imagem. Assisti a esse filme um pouco depois de Fire on Kelly Mountain, de 1973, em que pela primeira vez na minha vida vi um daqueles labirintos para hamsters. Por alguma razão, sempre achei que o ator principal desse filme era Kurt Russell. O IMDb me informou que era Larry Wilcox, que depois faria o John Baker de CHiPs.

Procurar por esse filmes no IMDb me lembrou de pelo menos mais um que vi, mas do qual não guardava nenhuma grande recordação: Charlie, the Lonesome Cougar, de 1967. Isso me lembra que Walt Disney, com todas as críticas que se faz aos seus métodos, fez mais pelo ambientalismo que dezenas de ONGs juntas. Em tempos de “Our Common Future“, foi graças a filmes como esses e a True-Life Adventure Series (além, claro, de programas como “Mundo Animal” e “Mundo Selvagem”) que a geração que cresceu nos anos 70 passou a ter maior consciência ambiental. Só alguns irrecuperáveis, como eu, continuavam preferindo a idéia de safáris em que caçariam animais selvagens como leões e elefantes, apenas pelo prazer de se provarem capazes de matar animais maiores e mais fortes que eles.

O que fica de tudo isso é o fato de que esses filmes cumpriam uma dupla missão de maneira ímpar: entretiam e educavam ao mesmo tempo. Por causa deles, toda a minha geração estava próxima da história e cultura americanas. Por um lado isso era bom, porque informação nunca é demais; por outro, graças à televisão nos tornamos cada vez mais distantes das tradições brasileiras. De certa forma, perdemos o contato com elementos importantes de nossa cultura como lendas como o saci-pererê e brincadeiras como pião e bolas de gude. A vida é assim mesmo.

Infelizmente não consegui achar um filme específico, exibido no final do primeiro semestre de 1980. Ele contava a história de um menino rico, mimado e preconceituoso que naufragava numa ilha deserta acompanhado apenas por um velho negro. Se não me engano, o menino ficava temporariamente cego no naufrágio. O filme contava como o menino virava uma pessoa melhor ao conviver com o velho. No final, aparecia um daqueles furacões caribenhos e o velho se amarrava a uma árvore, com o menino entre eles. Protegendo o menino assim, o velho morria, e nos dias seguintes finalmente chegava o resgate, claro. O filme era basicamente uma variação mais óbvia e boba sobre “Capitão Coragem”, bom filme antigo com Spencer Tracy. Nunca consegui encontrar nada sobre este filme, e ele não consta na relação do IMDb, o que me leva a desconfiar que não assisti a ele em Disneylândia e que não era uma produção Disney, embora tivesse todas as características.

Tudo isso é coisa de cerca de 30 anos atrás. É mais de um quarto de século. As coisas mudaram muito desde então, nem sempre para melhor. Na época Salvador tinha apenas dois canais de televisão, a TV Aratu que retransmitia a Rede Globo e a TV Itapoan, afiliada à Tupi. Hoje há centenas à disposição, mas não me parece que a TV tenha importância tão grande na formação cultural de alguém — até porque Pucca não tem condições de formar nada.

O mais interessante é que se Disneylândia acabou, hoje temos um canal inteiro com a programação da Disney. Mas o Disney Channel não se compara à Disneylândia. Se concentram em exibir produções recentes, provavelmente mais comerciais, como High School Musical e seriados irritantes como Hannah Montana. Isso, claro, faz parte dos novos tempos, e reclamar do novo é que mostra nostalgia boba. Mas acho que não faria mal algum se reservassem um espaçozinho nas madrugadas para exibir esse acervo absurdamente bom que a Disney tem.

Rafael Galvão E-mail E-mail Imprimir Imprimir

  1. Santiago
    October 23rd, 2008 at 13:28 | #1

    Caro Rafael:

    Assino embaixo de tudo que está escrito em seu post e compartilho da mesma saudade.

    Obrigado pelo memento!

  2. October 23rd, 2008 at 19:36 | #2

    Às vezes você consegue ser tocante, paraíba. Ótimo texto.

  3. Luciana
    October 26th, 2008 at 00:51 | #3

    Puxa, só agora vi o blog “novo”. :P

    E vi o post da vitória da eleição. :)

    Eu tenho uma coleção de livros da Disney que as ilustrações são de filmes desses antigos que eles produziam. São quatro livros, de capa dura, que eu li e reli demais. A minha Disney é mais da leitura, Rafael. :)

    Saí do meu blog – estranho, né? :P Quando tiver outro, aviso.

    Um beijo.

  4. November 7th, 2008 at 20:05 | #4

    child of glass! meu deus! eu lembro dessa história claramente, a menina fantasma chamando/gemendo “alexaaaaaaaaaandreeeeeeeeee” e a quadrinha “está no caixão a assassinada moça/chora em vão a criança de louça/ e quando o espírito deixar a escuridão…”
    esqueci o último verso!

    essa história me arrepia até hoje, e olhe que tanto, tanto tempo já passou…

  5. schmidt
    November 21st, 2008 at 10:49 | #5

    Caro amigo, belas palavras sobre esse clássico programa que simplesmente desapareceu das prateleiras das emissoras de televisão. Todavia, sou um inveterado colecionador de películas de 16mm, e tenho a grata satisfação de dizer-lhe que guardo com muito carinho, algumas cópias em VHS e agora já transpostas em DVD, que eu mesmo telecinei anos atrás.

    Se quiser manter contato a respeito, escreve prá mim.

    Grande abraço

  6. schmidt
    November 21st, 2008 at 10:53 | #6

    A propósito….não podemos nos esquecer que aos sábados à tarde, logo depois vinha a familia Walton, na série OS WALTONS. Quanto a DISNEYLÂNDIA, mais detalhadamente escrevendo…as cópias que preservo, não se trata dos filmes lançados em DVD da Disney, e sim, episódios da série, inclusive alguns com a presença de Walt Disney abrindo aqueles livros de sua biblioteca maravilhosa. Todos preservados com a dublagem antiga da televisão brasileira na época.

    Um abraço

  7. Luciane
    December 30th, 2008 at 00:00 | #7

    “Está no caixão da moça assassinada, chora em vão criança de louça, quando for feita a reunião, o espirito saira da escuridão”…
    Nossa, q saudade da minha infancia

  8. jose barbosa
    February 1st, 2009 at 15:01 | #8

    schmidt :
    Caro amigo, belas palavras sobre esse clássico programa que simplesmente desapareceu das prateleiras das emissoras de televisão. Todavia, sou um inveterado colecionador de películas de 16mm, e tenho a grata satisfação de dizer-lhe que guardo com muito carinho, algumas cópias em VHS e agora já transpostas em DVD, que eu mesmo telecinei anos atrás.
    Se quiser manter contato a respeito, escreve prá mim.
    Grande abraço

  9. jose barbosa
    February 1st, 2009 at 15:04 | #9

    Schmidt,

    Tenho interesse em comprar cópias em DVD de filmes antigos da Disneylândia, por favor, entre em contato comigo e me informe os filmes que você tem em seu acervo.

  10. Elisângela
    March 28th, 2009 at 20:40 | #10

    Caro Rafael, vc não imagina minha alegria em encontrar finalmente o nome do filme que por muitos anos permaneceu em minha memória, child of glass, ainda não sei como vou consegui-lo, mais estou tão feliz!!!!!!!! Quando era bem pequena meu pai e meus irmãos estavam assistindo esse filme, mas como disse eu era pequena e acabei adormecendo no colo de meu pai e não sei qual foi o final….. por muito tempo algumas imagens que ficaram gravadas em minha memória voltam a tona, mas eu nunca soube o nome do filme. Muito Obrigada! Caso vc saiba onde posso encontrá-lo agradeço, Elisângela.

  11. Valentim
    April 21st, 2009 at 00:28 | #11

    Cara, vc não imagina quanto tempo faz que estou atrás de alguma informação sobre o filme “Child Glass”…na verdade, desde 1977 quando asssisti na Disneylândia, rsrsrsrs.
    Bem, eu não sabia que o título era esse, mas o enigma “no caixão da assassinada moça, chora em vão a criança de louça e quando for realizada a reunião, o espírito sairá da escuridão”, esse eu nunca esqueci.
    Valeu, vou atrás do filme agora.

  12. gustavo
    May 17th, 2009 at 19:42 | #12

    Child of Glass eu assisti……..era guri, e na época me fiquei “apaixonado” pela menina fantasma.
    Outro que não esqueço contava a história de um garoto e um texugo. Há ainda a história do monstro do pântano que era o pai de um dos protagonistas…..bons tempos, áureos tempos…“Está no caixão da moça assassinada, chora em vão criança de louça, quando for feita a reunião, o espirito saira da escuridão”… que grande saudade……grande abraço amigo por me lembrar dessa época…..

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