Se Anália não quiser ir eu vou só

Foi uma amiga que me falou, num boteco perto da UniNove, em São Paulo: “Todo baiano é estrela”.

Discordei. Nem todo baiano é assim. Como nem todo baiano é espaçoso e pouco confiável. Mas de uns tempos para cá tenho pensado a respeito. Talvez ela tenha razão.

Porque Caymmi, pelo menos, é. Logo que chegou no Rio para gravar, chamaram-no para alguns ensaios.

— Precisa não… Eu já vim da Bahia ensaiado…

E veio mesmo. Porque se fosse para escolher os 3 músicos mais importantes e mais influentes da história da música brasileira, Caymmi certamente estaria entre eles. Por vários motivos, mas para mim principalmente pela maneira como cantou a glória e a tragédia da Bahia com uma simplicidade que apenas parece simplória.

Os versos de “O Mar”:

O mar quando quebra na praia é bonito… É bonito…
Pedro vivia da pesca, saía no barco seis horas da tarde
E só vinha na hora do sol raiar
Todos gostavam de Pedro e mais de que todos Rosinha de Chica
A mais bonitinha e mais bem feitinha de todas mocinha lá do arraiá
Pedro saiu no seu barco seis horas da tarde
Passou toda a noite, não veio na hora do sol raiar
Deram com o corpo de Pedro jogado na praia, roído de peixe
Sem barco, sem nada, num canto bem longe lá do arraiá
Pobre Rosinha de Chica, que era bonita, agora parece que endoideceu
Vive na beira da praia, olhando pras ondas, andando, rondando,
Dizendo baixinho “Morreu… Morreu…”
O mar quando quebra na praia é bonito… É bonito…

O primeiro verso, de um lirismo simples e óbvio, não parece anunciar a tragédia que vai contar; e no final, a volta do mesmo verso mostra que a consciência da tragédia não retira, diante dos olhos do povo, a beleza do mar. Se é que aquelas definições de amor e paixão são adequadas, esse é o amor mais verdadeiro que há: o que reconhece mas não se importa com os defeitos do ser amado.

Esse reconhecimento da personalidade do mar, janaína bela e assassina, esse retrato simples do fatalismo indiferente dos pescadores tornam essa canção uma das mais belas da música popular brasileira.

Que diferença dos versos empolados dos “reis da voz”; mais reais, até, que os belos versos das músicas de Noel Rosa, pelo menos no sentido de que são mais fiéis à realidade popular. Alguns críticos diriam que é por isso que Caymmi tem essa importância fundamental na música brasileira: seus versos enganadoramente simples em contraste com seu violão sofisticado praticamente recriaram a música popular brasileira.

Parece que ultimamente Caymmi vem saindo de moda. Que seja. E ainda que ninguém mais goste do velho contador de histórias, do homem que disse que, se fosse mulher, seria “dadeira”, eu vou continuar gostando do seu violão, de suas marchinhas, de sua voz. Ainda que só.

3 thoughts on “Se Anália não quiser ir eu vou só

  1. Olá Rafael!
    Bem, sobre seu post, não conheço o trabalho do Caymmi (pode jogar pedras, se quiser – rs), por isso pouparei qualquer opinião a respeito.
    Passei para dizer duas coisas: 1 – Agradecer sua visita ao meu blog, pois achei que ninguém mais se lembrava dele (nem eu me lembrava dele direito, na verdade); 2 – Parabenizá-lo pelo novo visual do blog. Muito bonito.
    Abraços
    DNAS

  2. Rafael,
    Sou carioca e às vezes tenho vergonha de sê-lo. O Caymmi possui uma poesia que só quem viveu a Bahia pode entender. Tive a felicidade de morar por doze anos em Salvador e aprendi a admirar e a gostar mais ainda dele. Você não estará sozinho.
    Axé!

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