O lado bom de Jayson Blair

Tenho cá minhas dúvidas quanto à malignidade de Jayson Blair, o repórter que causou uma crise no New York Times por ter inventado boa parte das histórias que publicava.

Não se trata aqui de parâmetros internos do jornalismo. Para um jornal a meta tem que ser a melhor reportagem de maneira absolutamente verídica. Isso não está em consideração.

Mas boa parte da crítica sobre Blair veio de gente que não tem nada a ver com jornalismo. Gente que se sentiu enganada e traída porque uma reportagem que provavemente não leram não era restrita à mais absoluta verdade, checada e confirmada. E esses talvez estejam se apegando demais a um parâmetro que na verdade lhes diz muito pouco.

Por exemplo, imagine uma reportagem sobre alguma coisa relativamente pouco importante na numa vila perdida no interior do Butão. É só uma história de cunho humano; digamos, uma família e sua luta para sobreviver diante de um fato específico e restrito ao lugar, o que talvez seja incompreensível se você não mora no Butão.

Isso não vai mudar sua vida. Você, provavelmente, vai esquecer os detalhes da matéria assim que virar a página da revista. Você não vai tomar nenhuma decisão em função da miséria de uma família butanesa. Nada de ruim vai acontecer em sua vida por causa dessa reportagem. Então, por que se preocupar se o sujeito realmente foi lá e entrevistou a tal família ou algumas outras pessoas?

Mas uma história bem escrita, com alguma imaginação, pode lhe ajudar a pensar melhor sobre o mundo em que se vive. Lembre-se de quando era criança: a África e Tarzan e do Fantasma, imaginária e irreal, lhe interessava mais ou menos do que a África dos tutsis e dos hutus?

Uma cena imaginada pode ser mais verdadeira do que uma real, porque pode alcançar alturas que a realidade raramente atinge. Principalmente porque, por ser imaginária, não precisa deixar de ser verdade.

Não sei se era Marx ou Engels que dizia ter aprendido mais sobre a França da primeira metade do século XIX com Balzac do que com livros de história. A ficção pode dar uma dimensão maior às coisas, disso ninguém tenha dúvida. E pode ajudar a compreender a realidade, no que é realmente importante, de uma forma muito mais completa que uma noticiazinha escrita sem nenhum brilho.

4 thoughts on “O lado bom de Jayson Blair

  1. O sujeito pode fazer um pequeno furto que ninguém veja e no entanto não deixa de ser ladrão por não foi visto. A verdade (o que é isso?) é uma obsessão desta humanidade mentirosa, e minha também. A ficção pode ensinar mais da realidade que a própria? Até pode. Mas é ficção. Não me sinto confortável sabendo que o repórter de meu jornal prefere usar mais a imaginação que a pesquisa e esconda isto. Quer ser escritor, mude de profissão.

    PS: adorei a coluna sobre o Zéfiro que não era mas é como se fosse.(às vezes a ficção é como a realidade)

  2. Hmmmm. Acho que não dá pra defender o Blair, apesar de tudo. Mas acho que muita gente de fato tem uma propensão fisiológica à indignação, que explica-se pela falta do que fazer, pela vaidade de sentir-se justo, essas coisas. No mais, concordo: na prática diária do jornalismo pequenos ajustes e forçações de barra são freqüentes, o jornal flerta com a ficção o tempo todo. E acho também que é difícil afimar q qualquer coisa seja ficção. Mesmo que o autor tenha inventado a história, nada garante que ela não tenha acontecido de fato (essa afirmação pode ser meio cínica, mas acredito nisso).

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