Três livros

O primeiro é um livro de Rex Stout.

O título traduzido é terrível: The Doorbell Rang se tornou “A Milionária Perseguida”. Milionária perseguida, até onde sei, é o nome que a Xuxa dá à sua… Ah, esquece.

The Doorbell Rang é mais um livro da Colecção Vampiro. É de 1965, um dos últimos da série de Nero Wolfe. Tem todos os elementos de um típico “Wolfe”. Os personagens são os mesmos e desempenhas os papéis de sempre. Pode-se esperar de Wolfe a genialidade dedutiva e, de Archie Goodwin, o bom humor que suaviza um pouco o sujeito durão. Os mesmos coadjuvantes estão a postos, cada um desempenhando a contento seus papéis.

Mais uma vez, mais um livro lido, continuo sem compreender a fama dos livros de Wolfe. Têm a densidade psicológica de uma jarra de vidro. Neste livro, especificamente, um crime é cometido e chega-se ao final sem saber sequer quais as motivações reais do crime. Stout parece tão decidido a criar um padrão matemático, uma variação americana — e portanto mais “real” — do romance cerebral inglês que esquece algo básico: o crime é uma das coisas mais humanas que se pode imaginar. É um livro fraco, mais um da série, nada mais que isso.

Stout é um bom escritor policial. Sim, sim, seus livros são boa leitura. São agradáveis, em muitos momentos são inteligentes. Mas se é que é possível comparar literatura policial à navegação em alto mar, Nero Wolfe é apenas um barquinho fazendo navegação de cabotagem. A ele falta o que os legítimos noir têm de sobra: um pouco de densidade psicológica, um mergulho um pouco mais profundo nas razões de um crime.

Vou continuar lendo seus livros. São um grande passatempo. Mas sem nunca esperar mais do que é justo. Não é muito.

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“A Travessura de Casper Holmes”, por seu lado, é mais um excelente Chester Himes. Himes não era exatamente um autor policial, como Stout ou Chandler. Era um escritor, e a série a que este pertence, dos detetives Grave Digger Jones e Coffin Ed, é só uma parte de uma literatura muito mais extensa.

Himes fazia literatura negra em um país onde isso é importante. O que ele descreve, principalmente, é a forma como os negros americanos se relacionam com o mundo branco à sua volta. Não é uma visão condescendente; não há espaço para uma dicotomia burra entre negros bonzinhos e brancos ruins. É isso que dá a Himes uma densidade literária altamente recomendável em romances policiais.

Talvez seja forçação de barra classificar Himes como autor policial, porque o que realmente importa nele é muito menos o crime do que a crônica de um momento importante da sociedade americana: o período entre o fim da II Guerra e as transformações sociais que acarretou e a explosão das lutas pelos direitos civis da década de 60. Mas seus livros são, acima de tudo, uma crônica da violência, como todo e qualquer tipo de racismo, e talvez por isso se encaixem tão bem na literatura noir.

Chester Himes — assim como seu descendente direto, Walter Mosley — é, principalmente, um grande escritor.

***

E um Maigret.

Li meu primeiro e último Maigret há quase 20 anos. Já conhecia aqueles arremedos de noir como Mickey Spillane e Frank Gruber, ainda tinha um mínimo de respeito por Agatha Christie, e o que li não me agradou em nada.

Tantos livros, tão pouco tempo; e eu decidi que não iria dar a ninguém mais de uma chance, porque o tempo que me resta é muito pouco para que eu perca tempo lendo livros ruins.

Com o tempo o preconceito foi se arraigando, a distância — todo preconceito se baseia na ignorância, afinal. Via a fama, para mim injustificada, de Nero Wolfe e achava que Maigret também deveria ser assim, aquela coisa meio esquemática, uma espécie de Poirot menos esnobe e sem aquela cabeça de Humpty Dumpty.

Comprei “A Velha Senhora” porque por 3 reais eu compro até livro de poesia de gente que não conheço.

E o que vi foi uma coisa totalmente diferente.

Se há dois personagens totalmente diferentes entre si são Maigret e Nero Wolfe. Enquanto este é apenas um Sherlock Holmes mais gordo, mais preguiçoso e mais viado, aquele é um homem tão comum que chega a assustar. Maigret é a vitória da classe média. E tem toda a doçura humana que falta a Wolfe. É a imersão na psique dos personagens que faz com que os crimes sejam solucionados. E é essa atenção aos aspectos psicológicos que

Descobrir Maigret com 20 anos de atraso é provavelmente a maior prova da minha estupidez. Eu tenho que pedir perdão a mim mesmo.

8 thoughts on “Três livros

  1. Essas descobertas, ainda que tardias, são ótimas para nos mostrar que no mundo ainda tem muita coisa para ser explorada. Ainda bem, né?! Adorei o post da Rita. Bjs.

  2. Legal você descobrir Maigret. Quando vivia com meus pais, eu tinha um monte de livros de Simenon à disposição. Minha mãe adorava livros policiais. Acabei lendo todos os que estavam ali. Depois que saí de casa não fiquei com nenhum, infelizmente.

    Bom, agora que descobriu Maigret, minha curiosidade é: o que você vai achar caso descubra Simenon sem Maigret? Ah, eu gosto. 🙂

  3. (eu e o reginaldo estamos competindo para ver quem comenta primeiro… hehehe) mas diga aí, seu rafa… e o tal arsène lupin? já leste? stout é bem fraquinho, simenon floreia muito, até gosto mais da agata, principalmente de miss marple. não conheço os NEGRÕES aí que mencionaste. procura nos sebos pelo maurice leblanc – o escritor.

  4. arsene lupin é realmente foda

    eu já expliquei pro rafael que nero wolfe is not about the plot, it’s about the characters.

    se vc gosta do archie, do wolfe, do cramer, vc compra até um livro que seja só sobre eles fazendo compras de super-mercado.

    se nao gostar, nao vai ter plot que dê jeito.

    outro favorito meu: fletch

  5. Ainda bem que você percebeu a tempo! O Maigret é certamente o mais humano dos detetives da literatura policial. Adoro ele. Corra atrás de mais simenons, você não irá se arrepender de gastar seus preciosos minutos. Um abraço e gostei do blog.

  6. Ó, Rafael, que injustiça com o genial Rex Stout e meu detetive preferido, Nero Wolfe! Esperar “densidade psicológica” de livros policiais é pedir demais, nem Conan Doyle chegou lá. As histórias de Nero Wolfe são, como você mesmo admite, um grande passatempo. Você sabia que quando Rex Stout resolveu aposentar-se a aposentar Nero Wolfe, Paulo Francis escreveu para ele pedindo-lhe que reconsiderasse a decisão? Um abraço do Artur Eduardo.

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