Última Leitura

Durante muito tempo admirei a revista Primeira Leitura, desde os tempos em que ela se chamava República. Não interessava que ela tivesse uma linha claramente identificada com um setor de um partido, o PSDB: ela tinha uma grande qualidade, a de dar densidade ao debate ideológico. Nos anos Lula se tornou uma revista de oposição e de contradição ao governo, assumidamente, e em princípio isso é bom. Era uma revista inteligente, instigante.

Agora, com a saída do José Roberto Mendonça de Barros, seu publisher, a impressão que fica é a de que a densidade se foi e restou a mais rasteira propaganda política. A Primeira Leitura, nesta última edição, praticamente se limita a boletim de informações do PSDB; diminui-se, se despede do bom papel histórico que desempenhou durante muito tempo.

É irônico, porque Mendonça de Barros deveria ser, em tese, o sujeito a dar esse tom politiqueiro. Era ele o sujeito ligado, em várias esferas, a Fernando Henrique Cardoso. Mas enquanto se podia divisar na revista do Mendonça de Barros uma certa coerência e qualidade ideológica, na nova Primeira Leitura só vê a mesma velha e má politicagem.

Quem lê a revista com um pouco de atenção pode ver que a chamada de capa (“O PT cai do cavalo”) não corresponde à realidade. Um partido que tinha 187 prefeitos e em 2005 terá 411 não está estatelado no chão. Só porque perdeu São Paulo e Porto Alegre? Perdas muito importantes, óbvio, mas não decisivas no que se refere às próximas eleições. Os números apresentados na própria revista mostram um crescimento significativo do PT, algo que os políticos gostam de chamar de “capilaridade”. Isso não compensa a perda de São Paulo, mas representa muito mais no projeto de solidificação do partido.

Além disso, Marta não perdeu porque o paulistano é preconceituoso, porque é mulher ou porque o povo deu um sinal vermelho ao governo federal. Marta perdeu porque não soube fazer política, porque começou a fazer obras tarde demais, porque aumentou muito as taxas municipais, porque esnobou o PMDB, porque fez um acordo espúrio com Maluf e deixou que isso saísse de controle, e em muito menor medida porque realmente passa arrogância.

Querer nacionalizar uma derrota que se deve a questões locais, como acontece em absolutamente todas as eleições municipais desde 1992, é excesso de oportunismo. É esse o problema da revista: entrou de cabeça na disputa por 2006. E o PSDB sequer precisa disso: ninguém tem dúvidas de que Serra vai fazer uma excelente administração para garantir densidade eleitoral em uma eleição em que, apesar do que a revista diz, Lula parece ser imbatível, sim. Vai ser um governo populista, demagógico — e isso não é necessariamente ruim –, e certamente tentará recuperar espaço nas áreas mais pobres, onde Serra foi mal votado. Isso é política. Faz parte do jogo.

Ao negar essas verdades, tão óbvias que Júlio César já conhecia, a Primeira Leitura está empenhada em espalhar o mito do “republicanismo” do PSDB. Diz que o PT faz oposição irresponsável, ao contrário do PSDB, coerente e cheio de princípios. A verdade, como sabe qualquer prefeito que tenha feito oposição ao governo Fernando Henrique, é bem diferente: entre 1995 e 2003, prefeitos de oposição foram tratados a pão e água. Pode-se criticar a esquerda brasileira por suas posições, com razão, pode-se criticar diversas atitudes do governo, também com razão; mas não às custas da elevação do PSDB à categoria de vestal impoluta da democracia. O tom de campanha se revela quando a revista bate repetidamente na tecla de um cabo eleitoral que barrou a entrada de Serra em um buraco qualquer, mas não faz uma só referência à diretora de escola que barrou a entrada de Marta, algo por sinal ilegal.

Mesmo isso seria tolerável se a revista não perdesse muito de sua inteligência. Uma entrevista com Celso Lafer, por exemplo, se resume a um amontoado de críticas à política externa de Lula. Se o Cláudio Humberto estiver certo, Celso Lafer era o Ministro das Relações Exteriores de Fernando Henrique que humilhou o país a que servia tirando os sapatos num aeroporto americano. Isso não é exemplo de política externa. Mais: um dos pontos em que o governo do PT vem se destacando é justamente esse. Obviamente não é a “invenção da soberania” que alguns setores mais burros do PT querem, porque o governo FHC também foi muito bom nisso; mas tem avançado, e muito. Criticar justamente essa área é perder o juízo e abusar da má-fé.

Cada vez mais — com a Primeira Leitura abdicando de sua inteligência, com a Veja encastelada no seu autismo jornalístico, com a IstoÉ merecendo o apelido cruel dado pela Veja (QuantoÉ), com Carta Capital vendendo suas matérias para o governo federal — eu fico achando que é melhor comprar uma edição da Atlantic Monthly ou da Nossa História e, se quiser saber o que acontece por aqui, assistir ao Jornal Nacional. Pelo menos é de graça.

E vou me poupar o prazer duvidoso de ler um dos mais novos colaboradores da Primeira Leitura: o indefectível Olavo de Carvalho.

***

A Veja desta semana traz várias matérias elogiosas a Lula. Alguém poderia me informar se a Abril andou conseguindo empréstimos federais?

10 thoughts on “Última Leitura

  1. É realmente melancólico ver o pé em que está grande parte da imprensa brasileira. O negócio é exatamente ter esse “senso crítico”, para que na hora da venda de gato por lebre, ainda dê tempo para uma reflexão. Bjs.

  2. Ih… Olavinho? Não vou passar nem perto! Certa vez escrevi a ele comentando um texto que achei homofóbico. Não falei como militante de causa nenhuma, mas como alguém que via algumas falhas na argumentação dele. Gente, o sujeito veio com 4 mil pedras na mão pra cima de mim! A compostura daquele ali dura tanto quanto açúcar na água.

  3. Puxa, até a “Carta”, hein… é por isso que estou lendo cada vez mais o “No Mínimo” e a “Agência Carta Maior”…

  4. Eu tive exatamente a mesma sensação que você; realmente é lamentável…agora, quanto ao empréstimo para a Abril, não soube de nada, mas não me surpreenderia, afinal, com a “cara” que o governo Lula está ficando, seria bastante do agrado do velho Victor e, obviamente, dos seus sucessores…

  5. Em meus tempos de simpatia adolescente pelo PCB nunca suportei a leitura de A Voz da Unidade. Continuo abominando qualquer leitura ligada a uma defesa cega. Chega os advogados. O interessante que em tudo que você fala, há uma verdade latente. O repubicanismo do PSDB é real, mas não grande o bastante para que seja uma característica intrínseca do partido. E o PT tem sim de tomar cuidado para que sua preocupação social se transforme em populismo. Já existem no partido aqueles que acham que o tempo é curto e que qualquer atitude vale a pena. No Mínimo e Observatório da Imprensa fogem da notícia na hora para nos passar a notícia pensada, que podemos pensar de volta. São boas fontes.

  6. olha só…pelo visto até que estou certa, última revista que comprei foi Nossa história e informação é no minimo e de vez em quando observatório de imprensa..

  7. Eu entendo a manifestação da Mônica. Olavo de Carvalho é, no limite, um autista: propaga teorias conspiratórias nas quais só ele acredita, e ainda tem coragem de dizer que opinões semelhantes são “escondidas” na imprensa brasileira: ele escreve no Globo, na Primeira Leitura, já escreveu na Época e na Bravo, e se acha um coitadinho…

    É meio sociopata também, pois responde com ofensas a qualquer um que dele discorde ou o critique. Ele está no Orkut, e existe lá uma comunidade chamada “Eu odeio Olavo de Carvalho”, que na verdade era só para tirar sarro dele. Pois ele entrou lá falando palavras de baixíssimo calão; por isso, a comunidade foi rebatizada “Olavo de Carvalho nos Odeia”…

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