A nova onda do imperador

O Inagaki colocou os pingos nos ii no que diz respeito à ajuda americana às vítimas da onda: seria o equivalente a 42 horas de ocupação do Iraque.

(De lá para cá o valor total prometido por Colin Powell aumentou para 432 milhões de dólares, com o aceno de mais se necessário. Os números atualizados podem ser encontrados aqui.)

Mixaria? É, relativamente é. Não é nada que se compare ao bilhão de dólares prometido pela Austrália, por exemplo (embora metade desse bilhão seja em empréstimos). Alemanha e Japão também ofereceram mais dinheiro que os Estados Unidos. Michael Schumacher, dando 10 milhões, deu proporcionalmente muito mais dinheiro que os Estados Unidos.

Mas ao mesmo tempo é bom lembrar que, pelo menos nesse caso, há um outro lado. E ele pode ser explicado em uma analogia simples: não acho que um mendigo tenha o direito de se irritar por eu ter lhe dado 1 real na saída de um restaurante onde deixei 100. Posso até achar que não devo dar o dinheiro porque o mendigo vai gastar tudo em cachaça — como se houvesse, para ele, coisa mais sensata a fazer. Não interessa. O dinheiro é meu e gasto como quiser. Do seu ponto de vista, os americanos têm o direito de gastar 120 bilhões no Iraque, e nenhum dever objetivo de ajudar as vítimas do maremoto. É dinheiro deles.

Claro, pode-se reclamar que, já que eles se pretendem os donos do mundo, têm também a obrigação de dar a maior contribuição. É um ponto de vista válido. Mas este blog, pelo menos, passou um ano reclamando justamente disso, dessas pretensões imperiais. Se eu acho que eles não têm o direito de mandar no mundo, não posso achar que têm a obrigação concreta de lhe dar dinheiro.

Já estou velho demais para saber que, quando alguém tem a obrigação de lhe dar dinheiro, se sente no direito de dizer o que você deve fazer com ele. E isso é tudo o que eu não quero ver os Estados Unidos fazendo. Sua lista de prioridades está bem clara na diferença entre o dinheiro atolado no Iraque e a ajuda humanitária ao Índico. Legitimar esse comportamento é um perigo.

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Da série American Idiot:

Em fóruns freqüentados pelos direitistas americanos, há alguns dias eles chafurdavam na informação de que, enquanto os EUA tinham doado 35 milhões de dólares, a França tinha doado apenas 130 mil.

A informação era falsa, claro, mas isso não é uma surpresa para quem acompanha as estratégias republicanas.

O curioso em tudo isso é que o problema deles seja especificamente com a França. Não se importam com a Alemanha que doou mais, por exemplo, ou com os vários outros que doaram muito menos (muito embora apenas a Índia, sem condições, a China, sabe Deus por quê, e a União Européia tenham dando menos proporcionalmente à sua população).

Há algo de edipiano, aí. Ou então, de um profundo complexo de inferioridade.

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Este é o primeiro e último post minimamente relacionado à tsunami neste blog. O motivo: mesmo reconhecendo a dimensão única da tragédia, mesmo racionalmente sabendo que 150 pessoas morreram, não consigo sentir nenhum vínculo emocional com ela. 150 mil pessoas mortas, mesmo exibidas na TV e nas fotos de defuntos inchados que insistem em me mandar, são só uma estatística para mim, neste caso.

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E ainda assim, dói saber que a maior parte do dinheiro arrecadado vai ser desviado.

9 thoughts on “A nova onda do imperador

  1. Também não consigo me sensibilizar muito pelas vítimas do tsunami. É uma coisa distante demais, sei lá.

  2. Falou o que eu estava pensando outro dia. Primeiro, exigir dos EUA que fiquem se metendo em tudo só legitima a mania deles de serem Roma. Péssimo negócio pra todo mundo. Segundo, essa tragédia não me diz nada emocionalmente falando. Teve até aquela discução sobre o absurdo dos governos doarem dinheiro dos contribuintes para ajudar um país estrangeiro, fazer gentileza com chapéu alheio, como diria vovó. A ajuda de países como o Brasil, que não tem dinheiro sobrando e tem gente morrendo todo dia por problemas sociais como violência, meninos de rua, pobreza, etc., é mais ridícula ainda!

  3. Faltou um “milzinho” ali em cima…rs
    E é verdade,o que vai ter de gente se aproveitando dessas doações não está no mapa!

  4. Concordo contigo em gênero número e grau…
    Não se fala em outra coisa, maldito tsunami!
    Também não me sensibilizo, pois muita gente morre de fome aqui no brasil há centenas de anos o que também deve contabilizar umas 150 mil pessoas, a única diferença é que o tsunami ceifou tudo isso de uma só vez!
    Abraços

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