Comentando os comentários

O Leandro tem razão em parte. Grande parte dos livros de Jorge Amado é repetitiva em seu tema, e mesmo em seus personagens.

O problema é que não sei se isso o faz menor. Não conheço um só escritor com obras muito extensa que escape dessa sina. É por essa razão que boa parte dos livros de Balzac é repetitiva, também. O que importa é que, em seus melhores momentos, Jorge Amado alcançou um nível de brilhantismo e verdade que poucos brasileiros, a meu ver, alcançaram.

Mas, ao mesmo tempo em que não se pode negar essa característica, é bom lembrar que há duas fases bem diferentes dele. A primeira, extremamente política, evoluiu até o esgotamento do realismo socialista, na minha opinião um crime soviético mais grave que os expurgos de Stálin. Foi durante essa fase que Jorge Amado adquiriu fama mundial, porque na época a moda na imprensa brasileira era ser marxista, como hoje é ser neo-liberal. Só isso já diminui bastante essa repetição, embora em todas elas a Bahia seja o grande tema.

A fase “folclórica”, que se seguiu ao rompimento com o PCB, foi apontada por essa mesma crítica “cripto-comunista” como o início da decadência de Jorge. Mesmo nos anos 80 — quando ele declarou que “O Sumiço da Santa” tinha atropelado “Bóris, o Vermelho”, livro que nunca escreveria — ainda aparecia alguém para acusar sua virada de casaca.

O Marcus (era dessa edição que eu falava) e o Idelber falaram dessa fase. Para mim é a melhor, em termos literários. Já falei sobre ela e sobre o problema de “Seara Vermelha” em um outro post, mas não custa lembrar que é justamente aí que ele aprimora sua maior qualidade, a imortalização em letra de forma de um espírito baiano que está acabando.

Assim como cariocas tendem a achar que Rubem Fonseca é o maior escritor brasileiro do século XX, mesmo que desde o fim dos anos 80 ele não publique nada que preste, sulistas me dão a impressão de não gostar de Jorge justamente por essa característica baiana, como falou a Dani.

E o Bia não gosta de Jorge Amado porque é um paulista miserável. Ele precisa ir para a Bahia, arranjar uma neguinha da Saúde, do peitinho empinadinho e da bundinha redonda, descer com ela pela Ladeira do Alvo e seguir a Baixa dos Sapateiros até a Barroquinha, subir até a Castro Alves e olhar o pôr do sol atrás de Itaparica, com um olho nas putas da Ladeira da Montanha, e então ele vai entender a poesia baiana de Jorge Amado.

10 thoughts on “Comentando os comentários

  1. Eu acho que o Jorge Amado soube aproveitar o momento de uma ruptura que seria inevitável. Se, por um lado a sua posição política foi forte o suficiente para ficar impressa na sua obra, por outro lado não se pode desconsiderar o teor poético de seus romances. Jorge Amado era, antes de tudo, um sonhador (não utópico) que transmitia em sua escrita toda a poesia de um povo que pode até assemelhar-se ao brasileiro comum, mas que pertence a casta superior dos que vieram nesta vida para fazer a diferença.
    Ciao.

  2. hahaha, muito bom o último parágrafo. dele eu li os capitaes de areia e quincas berro d’água, e nunca consegui terminar as terras do sem fim.

    sei nao, mas não me marcou.

    pra mim, baiano arretado de bom é adonias filho, alguém conhece?

  3. Eu não acho que Rubem Fonseca é o maior escrito blá blá blá. Na verdade eu tenho lido tanta coisa que fica dificil pensar em um único autor.

    E o Bia? Acho que ele merece isso mesmo. Não há nada como a Bahia. E que ela tenha 20 aninhos.

  4. como sulista eu me defendo… sou baiana no coração e meu desejo é ser velada como quincas ,e enterrada junto a Iemanjá, em alto mar!! isso por conta de jorge…

  5. Biajoni não perde o rebolado, né, é incrível. Agora, vou pedir vênia prá matizar um cantinho do texto irretocável do Rafael: é verdade que há muitos sulistas que viram a cara para Jorge Amado, mas não creio que haja sido preconceito anti-baiano não – e aqui é um adorador da Bahia quem fala. Acho que foi um preconceito anti-literatura ‘popular’, anti-‘folclore'(ao qual se associou o JA) e anti-‘regionalismo’. Coisa de uma intelectualidade brasileira que quer ser universal e acha que se acabar com a Feira de Caruaru consegue isso. Erico Veríssimo, por exemplo, sofreu esse preconceito também. Agora, sem dúvida, é culpa dos paulistas. Os cílios revirando toda vez que se fala de Amado ou Veríssimo foram invenção da USP, que depois pegou.

    PS: De onde o Alê desenterrou Adonias Filho, meu Deus? Há vinte anos não ouvia esse nome!

  6. Idelber lembra bem Érico Veríssimo, grande escritor brasileiro enterrado no cemitério do regionalismo. E o José Lins do Rego? Uma maldade literária esse esquecimento. Será que vamos ter que esperar uma volta ao regionalismo para ressuscitarmos esse escritores que são muito bons independente do estilo?

  7. PÁRA! vamos deixar de gostar do DOSTO por não sermos RUSSOS ou vivermos CENTENA depois dele? o jorge é ruim pq é ruim… é quese que nem sabrina. ou brigite monford… e ISSO, pra mim, É ELOGIO!!!

  8. Meudeusdocéu Biajoni, Jorge é bom. A escrita dele flui, é uma delícia.
    Todo mundo que nunca viu a Bahia devia ir à Bahia ao menos uma vez na vida. Mas eu vou falar sobre isso em um post especial no meu blog. Soon.

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