Drops de anis

O Ina perguntou qual o meu problema com “Aconteceu Naquela Noite”. Acho que todos. Dos filmes de Capra -– e eu sou um bobão fã do carcamano –- é o que eu menos gosto. Posso até estar sendo injusto, ele pode ser o protótipo de todos os road movies que vieram depois; mas é uma questão de gosto, mesmo.

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Eu não gosto muito de “O Grande Ditador”. Alguém já disse e eu concordo: um filme falado de Chaplin é como uma criança colocando versos na Quinta de Beethoven. É bem verdade que piorou depois; “Luzes da Ribalta” é ruim, “Um Rei em Nova York” é muito pior. Para mim, seu único grande filme falado é “Monsieur Verdoux”, provavelmente seu filme mais cruel. “O Grande Ditador” tem qualidades, sim — entre as quais não incluo o discurso final, em parte porque não agüento mais o pôster em que o transformaram –, mas não suficientes para fazer dele um filme como os melhores de Chaplin.

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Eu sou fã de “Anatomia de um Crime”. Mas ainda acho que “Ben-Hur” deveria ser o vencedor naquele. Provavelmente pelas mesmas razões pelas quais, mesmo preferindo “Menina de Ouro”, acho justo que “O Aviador” ganhe o Oscar esse ano — e tenho quase certeza de que vai ganhar. É mais “cinema”, e mais Hollywood.

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Não acho que “Cidadão Kane” não tenha vencido por estar adiante de seu tempo. Acho que não ganhou por duas razões: por não ser o estilo de filme que a Academia gosta, mas principalmente pela polêmica que gerou desde muito antes do seu lançamento. Irritar Hearst não valia a pena naqueles tempos. Quanto a Pulp Fiction, alguém ainda acha que haja filme à frente de nossa época?

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“Era Uma Vez no Oeste” foi o melhor filme de 1969. Cada vez que assisto a ele fico mais e mais impressionado com a genialidade de Sergio Leone. Só consigo ver um defeito no filme: Charles Bronson no lugar que pertence, por direito divino, a Clint Eastwood.

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Eu acho “Assim Caminha a Humanidade” interessante — principalmente por James Dean, que rouba todas as cenas em que aparece –, mas daí a ser o melhor filme do ano vai uma grande distância. Em certos momentos é episódico demais (o que era necessário: alguém já viu o tamanho do livro da Edna Ferber?), o final é muito abrupto, além de outros defeitos.

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“Moulin Rouge”: não que seja um mau filme. Eu gostei, achei legal, uma boa sacada. Ewan McGregor até canta Silly Love Songs, um dos melhores riffs de baixo de que me lembro. Mas não vi essa maravilha toda que muita gente, como não vejo essas coca-colas todas no Boaz Davidson.

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É, eu realmente prefiro “A Bela e a Fera” a “Silêncio dos Inocentes”. Nunca consegui sentir esse suspense todo no filme; não vi sequer essa maravilha de atuação da Jodie Foster. E “A Bela e a Fera”, por sua vez, é o melhor desenho que a Disney fez em décadas. Ela faria melhor depois, mas cá entre nós: um desenho animado concorrer a melhor filme é uma maravilha e a chance deveria ser aproveitada.

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Eu gosto muito de “Assassinos por Natureza”. Mas jamais o indicaria a um Oscar.

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Deer Hunter foi desprezivelmente traduzido em português por “O Franco-Atirador”.

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E eu gosto mais de “A Última Sessão de Cinema” do que “Laranja Mecânica”. Mas pode ser injustiça. Vi o filme do Kubrick há quase 20 anos, quando lançaram em vídeo, havia toda aquela polêmica em torno de seu censura no Brasil, e achei superestimado. É bem provável que eu não tenha entendido o filme na época, mas é essa impressão que carrego até hoje.

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Não acho que “Amnésia” tenha absolutamente nada a ver com Pulp Fiction. Este é alinear, enquanto “Amnésia” é totalmente linear. Seu ovo de Colombo é o fato de contado de trás para a frente. E sua garantia de excelência é o fato de funcionar brilhantemente se visto em ordem cronológica.

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Me passei quando disse que “O Sexto Sentido” ocupa mais espaço no imaginário popular. O Ismael tem toda a razão, é “Matrix”. E assim como ele, eu também acho uma grande bobagem aquele amontoado de filosofia em bar de nerd.

11 thoughts on “Drops de anis

  1. – Pois é Rafael, também sou grande fã de Capra, um cineasta que soa deslocado nestes tempos cínicos e céticos. Meu predileto dele é sem dúvida nenhuma “Mr. Deeds Goes to Washington” (cujo título no Brasil, “A Mulher Faz o Homem”, não é tão ruim quanto possa parecer), mas o velho Frank provou com a comédia de humor negro “Este Mundo é um Hospício” que quando quisesse mudar seu tom habitual poderia fazê-lo com engenho e estilo.

    – Concordo com o que você escreveu sobre Chaplin, mas ainda acho que “O Grande Diretor” tem muito mais qualidades que defeitos. De “Monsieur Verdoux” guardo aquela fala antológica: “um assassinato torna um homem um assassino; milhares, um herói”.

    – Antes de se tornar o justiceiro-mor urbano, Charles Bronson fez bons filmes, como “Fugindo do Inferno” e “Vera Cruz”. E ele está bem em “Era uma Vez no Oeste”, vai.

    – A carreira de Peter Bogdanovich, e os acontecimentos que levaram à sua decadência como diretor, é uma das maiores tragédias da história do cinema. Pode soar exagerado, mas quem assistiu aos seus 4 primeiros longas (“Na Mira da Morte”, “A Última Sessão de Cinema”, “Essa Pequena é uma Parada” e “Lua de Papel”) sabe que Bogdanovich tinha tudo para ser um dos maiores diretores norte-americanos de todos os tempos. Não apenas pela qualidade de seus filmes, mas também pelo amplo conhecimento cinéfilo que ele possui (recomendo fortemente seu livro de entrevistas “Afinal, Quem Fez os Filmes?”, lançado pela Companhia das Letras). Pena que depois o cara se apaixonaria por uma ex-playmate que foi brutalmente assassinada pelo ex-marido, e perdeu completamente o rumo na vida.

    – “Amnésia”, sim, tem um título completamente desprezível em português. Ou ninguém se lembra (cof, cof) que o próprio protagonista do filme afirmava que a doença que possuía não tinha nada a ver com amnésia?

  2. bom, primeiro, ANUALMENTE aparecem VÁRIOS filmes ADIANTE DE SEU TEMPO, em váááários aspectos. dessas inovações é que vive o cinema. pulp fiction é um exemplo. fui ver na estréia, cinema, são paulo. MUITA GENTE não entendeu como o travolta podia morrer no meio e aparecer depois. a COBRA QUE MORDE O PRÓPRIO RABO pode não ser original, mas o tarantino inovou na montagem, sem dúvida. nesse sentido, um passo além talvez está o MENTE SEM LEMBRANÇAS. MATRIX é uma inovação visual, tecnológica em termos de efeitos. AMNÉSIA inovou e quando saiu o IRREVERSÍVEL (francês) muita gente (muita!) nos cadenos de cultura disseram que era um AMNÉSIA FRANCÊS! porra! existe no todo uma dose de RECICLAGEM, mas vamos dizer que DE PALMA não inova, mesmo reciclando o hitch? e a gente fica muito em cima do mercado americano. e vc não gosta de DEER HUNTER pq ele teve esse título em português? é um filme maravilhoso.

    eu vou, mas eu volto!

    se vcs me vissem, estou barbeado e de terno e gravata!

  3. – Ah, eu também adoro “Monsieur Verdoux”, é o filme de Chaplin que mais gosto.
    – Com certeza Cidadão Kane não levou a estatueta por causa de Hearst.
    – Eu acho que não existe “filme à frente de nossa época”, o que existe é “filme que retrata muito bem a época na qual foi produzido”. Algumas pessoas têm o dom de enxergar melhor o que está acontecendo no mundo naquele momento, enquanto a grande maioria entende o mundo com atraso.
    – Ainda considero Giant meu favorito.
    – O melhor filme de Baz Luhrmann é Romeo+Juliet e não Moulin Rouge, na minha opinião, mas é um filme que concorreu apenas ao oscar de direção de arte (por sinal, primorosa) e não levou.
    – Galvão, já leu o livro Clockwork Orange? É sensacional. Eu prefiro Clockwork Orange porque mesmo depois desse tempo todo, o filme continua atual. A Última Sessão de Cinema é sentimental, legalzinho, mas esquecível. Eu sou mais fã de filmes que criticam o mundo, mesmo, faz parte da minha personalidade, eu acho.
    – Matrix vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais? Eu não acho que Matrix ocupe mais o imaginário popular, eu acho que é o contrário, Matrix retrata melhor o imaginário que estava rolando quando ele foi filmado. Hoje em dia, deu uma envelhecida, porque o mundo já mudou em várias coisas. Mas é um marco para 1999. Se algum dia eu quiser explicar o que se passava na cabeça das pessoas em 1999 para meu sobrinho de dois anos eu direi: assista The Matrix, 1999 era aquilo.

  4. Eu gosto de Matrix.

    Matrix está fazendo o Star Wars fez para aquela geração; revolução em efeitos especiais.

    Não me venha com papainho que “oh não… blá blá blá”, que muitos filmes cresceram nesse setor, por causa dos efeitos especiais que apareceram em Matrix.

  5. Pois eu acho Star Wars muito bobo também. Revolução nos efeitos especiais? E eu com isso? Aparece agora um monte de filme totalmente vazios, com efeitinhos bacanas e por isso acham que podem subestimar minha inteligência!

  6. Com a ressalva, claro, que Star Wars leva vantagem em relação a Matrix porque não tem a pretensão de ser um filme inteligente.

  7. É, creio que o que estraga Matrix é a pretenção de soar intelectual (e suas continuações, hehe). É um filme de pancadaria, com muitos efeitos especiais legais. E uma história pretenciosa, que acaba decepcionando, no final.

    E o que os senhores acham de A.I. (Inteligência Artificial)?

  8. olha só!
    star wars nao tinha pretensao. o consultor do filme foi joseph campbell!!!!!!!

    1968 – 2001, uma odisseia no espaço. nao existe filme a frente do seu tempo!

    dani… vc trabalhou como walter salles… MABOROSI é um filme ah frente do seu tempo!

    o rafa falou que NAO IA MAIS FALAR DE CINEMA!

    INA!!!!!!!!!

  9. Eu também sou fã de Capra e também não incluo Aconteceu Naquela Noite entre seus melhores, embora não deixe de ser um bom filme.///Moulin Rouge pode até não ser tudo isso que eu acho, mas peraí! Não é difícil ser melhor que Uma Mente Brilhante.///Bia, continuo achando que Pulp Fiction não ganhou o Oscar não por tar a frente do seu tempo, mas por a academia ser SACANA mesmo.O público não entendia o filme? Então como ele ganhou o MTV Movie Awards?///
    Bia, Star Wars podia até ser pretensioso, mas não tanto quanto Matrix, que se acha absulotumente Original em suas metafóras óbvias e sua filosofia de revista de sala de espera///
    E Bia de novo: bom, você disse que se o Rafael parar de escrever você pára também, hehehe. Como é que vai ficar sem vocês dois falando disso?

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