Às cinco da manhã

A Globo está exibindo o seriado “Monk”.

(Monk valeria um post inteirinho para ele. É um dos melhores seriados feitos nos últimos tempos. Pela graça de ser um bom seriado de detetive, pela comédia, mas principalmente pela riqueza triste do personagem-título.)

Talvez você não soubesse, porque a Globo exibe o seriado no horário mais ingrato possível, os finais de madrugada.

É engraçado como a TV brasileira mudou nos últimos anos, e principalmente a Globo. Há uns poucos anos — ou sou eu que estou envelhecendo e não percebo? — isso seria impensável.

Nos seus primeiros 30, quase 40 anos, seriados americanos fizeram parte do creme da programação da TV. Ocupavam um dos horários mais nobres, aquele que vinha que depois da novela das oito. Dividiam esse horário com o que foi o seu sustentáculo nos primeiros anos, os programas de humor. Era só para eles que perdiam em importância. Herança dos tempos em que a TV Rio batia todas as concorrentes com programas baseados nas duas pedras fundamentais da TV brasileira: o humor radiofônico e o teatro de revista. E por isso o horário era definido como pertencente à “linha de shows”.

Para quem cresceu nos anos 70 e 80, os seriados americanos representaram uma parte importante da cultura da idade. Fazíamos (em câmera lenta, claro) os sons dos órgãos biônicos de Steve Austin, o Homem de Seis Milhões de Dólares. Éramos Zorro e arranjávamos algum bobo para ser o Tonto — mas poderia pior se arranjássemos alguém para ser o Silver. Nadávamos feito peixe, imitando Mark Harris, o Homem do Fundo do Mar.

Mas o tempo passa. Esses seriados, que de várias formas acrescentavam ingredientes ao caldeirão cultural brasileiro, agora estão restritos à TV por assinatura ou a horários ingratos nas televisões abertas. Por incrível que pareça, acabam criando um novo fosso cultural, em que a juventude de classe média assiste a seriados e o povão se empanturra de, no máximo, Malhação.

De certa forma, a TV brasileira sempre foi democrática, porque oferecia a mesma coisa a todos. Isso acabou. Agora, o lado de cima faz expressão de adolescente idiota americano enquanto balança a cabeça fingindo o retardo que deveras tem, dizendo: “Hello-o!”. E o andar de baixo aprende que “vamos quebrar tudo”.

16 thoughts on “Às cinco da manhã

  1. Você acha Tata!? Pra mim o ceguinho de baixo deve dar Graças a Deus por ser cego no momento atual da TV brasileira…

  2. Eu cresci na época em que você citou, e sim, brinquei muito de zorro e chip’s (vixi, isso não é vergonhoso de se dizer?!), e concordo com o que você disse, com certeza a TV antigamente era muito mais rica em conteúdo do que hoje em dia.
    Também acho MONK espetacular, a fineza, e porque não a frieza, com que tratam o transtorno obsessivo compulsivo dele é muito engraçado… outro dia assisti a um episódio em que ele tem um irmão, que é pior do que ele nas neuras e tinha pânico de sair de casa, estava recluso há muitos anos…
    No final do episódio, envolvendo muita confusão e um incêndio, MONK consegue heroicamente retirar o irmão da residência, foi diferente envolver um tema sensível às engraçadas histórias dele.
    Gosto também do SPIN CITY que às vezes é passado após o MONK, humor escrachado que ridiculariza a política com temas atuais e modernosos.
    Abração

  3. Não sabia. Eu tenho TVA.

    Mas na minha época tinha um programa depois de Sessão da Tarde (agora não me lembro… Sessão Aventura?), onde hoje passa Malhação. Passava uns seriados muito bons. MacGyver, entre outros. Cada dia da semana passava um.

  4. A tv por assinatura voltou a dividir os telespectadores, muitas vezes ficamos sem saber o que acontece na tv aberta. E um grande público não tem a mínima idéia de como se faz tv lá fora (vive uma daquelas mentiras repetidas de que fazemos a melhor tv do mundo) . É fácil constatar que os americanos fazem humor melhor que nós.

  5. Engraçado. se as TVs começarem a exibir séries como faziam antigamente, vão começar a dizer que a tv só passa enlatado.

  6. Mas o mais engraçado, sabe o que é ? É que os canais de TV aberta, que passam no cabo compulsoriamente porque a lei assim exige, ainda são a maior audiência DE QUEM TEM TV A CABO. E agora, José ?

  7. Suas lembranças da TV nos anos 80… a gente acaba achando que “no meu tempo era melhor!”… Quanto ao MONK e outros personagens “doentes”, já percebi que a indústria do entretenimento mantém o duplo preconceito: primeiro, loucura é algo engraçado. Segundo, não existe tratamento (nem se toca no tema, quando mundo, inventam uma “cura pelo amor”). Como psicanalista e psiquiatra, ocasionalmente até me divirto com essas histórias (gosto muito do seriado do MONK, verdade) mas, quando penso “como profissional”, aí me dá um certo amargor, ou desânimo… é uma pena, pois o tal do Transtorno Obsessivo Compulsivo (para quem dele sofre) é uma fonte de sofrimentos terríveis. Existem tratamentos bem eficazes, embora não se possa falar de cura completa.

  8. Sei que o Monk é série de grande sucesso nos EUA mas achei que era só por lá. Bem, não tenho vergonha de confessar que não acho a menor graça nas suas estórias. Acho pastelão demais pra ser verdade.
    Então Dr. Cláudio (não sabia que era psi !), por favor me diga “como profissional” se aquelas manias do Monk são legítimas, isto é, é assim que a TOC se manifesta mesmo ou há um certo exagero ?
    Ah, Rafael, na minha infância/adolescência também não havia TV a cabo e eu era vidrada nas séries americanas desde Missão Impossível (nada a ver com o filme estrelado por Tom Cruise) até Mc Gyver. Hoje em dia curto bastante Friendes, embora tenha acabado não me canso de ver as reprises e CSI.

  9. rafael, eu acho que a atual situação é melhor do que na década de 80. naquela época, os enlatados eram o horário nobre por falta de bons programas nacionais. hoje monk foi relegado para as três da manha pq o horario nobre foi ocupado por mad maria, diarista, sexo fragil, sob nova direção, etc etc. vc, um stalinista dinossauro, deveria aplaudir essa nacionalização da programacao. e, embora eu nao assista TV, sei que todos esses programas da globo sao bastante bons, ainda mais comparados aos enlatados americanos…

  10. Gosto muito do Monk,principalmenteporserumasérie realista e não dramática,o autor está de parabéns, osatores são escolhidos com mãos de fada,todos inclusiveos extraordinários.É uma série humana ,divertida ,respeitosaecom tramas bem boladas.EU SOU FÃ.Umabraço.

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