Jesus, o judeu que salvou a Europa

Via Pedro Dória, em nomínimo, um artigo sobre um novo livro sobre cristianismo e judaísmo: Why the Jews Rejected Jesus, de David Klinghoffer.

O livro parte de uma análise aceitável do ambiente da época para chegar a conclusões curiosas. A mais interessante delas: se o judaísmo tivesse absorvido o cristianismo a Europa hoje provavelmente seria muçulmana.

Embora razoável, a análise histórica não traz nada de novo. Klinghoffer fala sobre os muitos pseudo-Messias existentes na época, sobre o fato de a maioria dos judeus desconhecerem Jesus, e admite a participação judaica na Sua morte.

Parte disso é dispensável. Parece óbvio que líderes judeus contribuíram para a morte de Jesus. E daí? Tentar repassar essa história sem abdicar da noção de que ali estava um povo matando o fundador de uma nova religião é torcer os fatos. Deus ou não, para todos os efeitos Jesus era apenas mais um judeu — e cá entre nós, meio maluco. Ainda não era um cristão, e demoraria algumas décadas até o cristianismo se desligar do judaísmo. Ele só era o Cristo para os poucos gatos pingados que o seguiam, e mesmo isso é incerto, porque ninguém tem certeza de que ele se intitulava “o Messias”. Para o resto, era só mais um sectário, entre os tantos que ululavam numa Judéia ocupada e conflagrada. Os judeus tinham todo o direito de julgá-lo segundo seus costumes e matá-lo, se fosse o caso.

Mas a conclusão de que se o judaísmo tivesse absorvido o cristianismo a Europa hoje seria islâmica me parece uma bobagem sem tamanho. É esse o verdadeiro problema do livro a princípio, como diz a matéria no SouthBend Tribune:

Klinghoffer thinks that if the Jews had embraced Jesus they would have remained bound to the laws on Sabbath observance, kosher diet, circumcision of males and ritual purity, so “the Jesus movement might have remained a Jewish sect.

He then spins out a debatable counterfactual scenario. With Christianity as a minor sect, Europe would have had a spiritual vacuum that Islam would most likely have filled. America would be a totally different country today because it would never have been Christianized.

A questão é: quem garante isso?

A grande vantagem política do cristianismo foi justamente a sua vocação para o proselitismo e sua extrema flexibilidade, estabelecendo pontos de contato suficientes com as religiões pagãs para se tornar palatável a culturas variadas e principalmente à romana, além de explorar brilhantemente a noção de vida eterna.

Mas essas não eram sequer noções exclusivas da seita cristã. O erro de Klinghoffer é imaginar um judaísmo perpetuamente congelado, incapaz de absorver novas linhas de pensamento.

Não é absurdo imaginar que o judaísmo tenha, em parte, definido sua evolução histórica em função do cristianismo, reforçando características que, ao contrário, poderiam ter se suavizado ao longo do tempo. É tão ou mais provável que, absorvendo Jesus, o judaísmo também seguisse por uma linha de progressiva liberalização de costumes. Certamente não seria o que o cristianismo é hoje, mas é improvável que fosse igual ao judaísmo de agora.

Além disso, não dá para imaginar o que seria o Islamismo, porque ele também bebeu do cristianismo e reconhece Jesus como um dos profetas, assim como Moisés.

E o mais importante em tudo isso: quem garante que outra religião não iria surgir, dos escombros do Império Romano?

Ou seja: o futuro condicional do Klinghoffer é um samba do crioulo doido que não reconhece uma série de variáveis necessárias, e que tornam quaisquer conclusões impossíveis.

Pela resenha no site da Doubleday, o livro tem pretensões de ser mais um elo na progressiva aproximação entre judeus e cristãos. Curiosamente, Klinghoffer é um judeu conservador, e sua postura política é decisiva para suas conclusões e em algumas atitudes tomadas por ele. A impressão que tive é de que a mensagem nas entrelinhas é a seguinte: “olha, desculpa, mas se não fosse por aquilo vocês hoje não teriam esse vidão”. Isso é triste. Porque os judeus não têm nenhuma razão para pedir desculpas por terem dado aquele calor em Jesus. E porque nada indica que as conclusões do autor sejam corretas. Quando diz que “respeita as contribuições culturais cristãs” está sendo um bobo redundante: ele vive em uma civilização definida pelas tais contribuições, não “respeitá-las” é praticamente uma confissão de idiotice. É uma afirmação desnecessária, no mínimo.

E permite que, com um bocado de malícia, as pessoas achem que no fundo a comparação é outra: a de que é uma idéia análoga à de que Israel está prestando um grande serviço fazendo o que faz na Palestina.

No fim das contas, ele acaba prestando um desserviço ao judaísmo e ao cristianismo, justamente por causa desse viés religioso e desse messianismo político que parece assumir.

Não custa lembrar que este é só um comentário feito através de notícias de jornais (que, como se sabe, são menos confiáveis que blogs) e de press releases de uma editora. Mas mesmo assim, esse é um livro que eu não vou comprar.

9 thoughts on “Jesus, o judeu que salvou a Europa

  1. Eu tenho certeza sobre o que teria acontecido: A Europa continuaria pagã se não fosse o cristianismo! ehehehhehe

  2. Rafael, isso é história alternativa em estado bruto.

    Um dos temas populares do pessoal que mexe com história alternativa é imaginar como seria o mundo hoje se o Império Romano não tivesse caído.

    Bem, se você aceita a premissa de Gibbons _ a de que o Cristianismo foi uma causa, ainda que passiva, da queda do Império _ então dá pra imaginar um mundo bem diferente, e em especial, um mundo onde talvez o Islã sequer tivesse surgido. Mas como se sabe Gibbons não é popular em festas de historiadores.

    abçs

  3. A História é um campo interessante. Por mais que pareçam existir algumas certezas, sempre dá para olhar de um jeito diferente, com um foco diferente. Tão interessante tudo isso que dá até para embarcar na História do “e se?”. Coisa bem humana considerar isso, tanto no macro quanto no micro, nas nossas vidinhas. Mas, muçulmanos? Por quê ele escolheu justamente o Islamismo e não outra opção? Tenho curiosidade de ver o que ele usa comos argumentos para essa escolha. Tá me parecendo um Nostradamus em marcha-ré. Ou seria uma mãe Dinah?

  4. Rafa, eu sempre passo longe desse tipo. Como disse a Mônica, esse tal de “o que aconteceria se…” é coisa pra história em quadrinho ou ficção cientifica. Qualquer um que tente levar isso para um universo mais “acadêmico” ou é idiota ou está agindo de má fé. Como você bem disse, o autor que você citou parece que se encontra no segundo grupo.

  5. ILMO.SR. RAFAEL, CONCORDO PLENAMENTO COM QUASE TUDO QUE DISSESTE, APENAS GOSTARIA DE ENTENDER PORQUE DISSESTE “outra religião não iria surgir, dos escombros do Império Romano?”, NO MEU ENTENDER ISSO QUER DIZER QUE “JESUS” FOI APENAS UM ACONTECIMENTO?
    2-OUTRO PONTO OBSCURO QUE NÃO ENTENDI FOI ONDE COLOCASTE “A grande vantagem política do cristianismo”. PORQUE COLOCASTE POLÍTICA COM RELIGIÃO, POIS ACHO QUE SÃO TOTALMENTE CAMINHOS OPOSTOS. ABRAÇOS E PARABÉNS PELO BLOG.

  6. Eu pude oservar que no artigo acima tem uma passagem interssante “Ele só era o Cristo para os poucos gatos pingados que o seguiam, e mesmo isso é incerto, porque ninguém tem certeza de que ele se intitulava O MESSIAS. Eu estava procurando por dias, meses e anos alguém com essa mesma opinião que eu. Jesus era mais um dentre a multidão, porque atribuir a ele tal santidade? E Pra que o ocidente absorver essa cultura monoteísta Judia? Faça me o favor, porque nós aqui do ocidente importamos tal personagem bíblico pra ser o salvador, o simbolo da ressureição, a cultura indigena era repleta de deuses nenhum fora levado a sério. Obrigado pelo espaço… Abraço a todos!

  7. Como assim ele não se proclamava como sendo o Messias ? Em vários pontos do evangelho ele diz que veio cumprir as professias do antigo testamento a respeito do Messias.
    Os gatos pingados dele eram tantos, que ele foi levado a julgamento e sofreu a pior das mortes da época. E mais, seus fiéis continuaram a se espalhar mesmo sob punição de morte nas arenas do coliseu até tornar-se religião oficial por Constantino. De onde vem uma obstinação tão grande ? Pura sorte ? Eu não creio nisso.

    Me perdoem se escapei do assunto principal.
    []’s

Leave a Reply

Your email address will not be published.